Inédito: Penas Fossilizadas de Dinossauro Encontradas Perto do Polo Sul

Esta plumagem antiga oferece algumas evidências de como é que os pequenos dinossauros carnívoros resistiam aos longos invernos do Círculo Antártico, há cerca de 118 milhões de anos.segunda-feira, 25 de novembro de 2019

As 10 penas fósseis primorosamente preservadas, encontradas na Austrália, representam a primeira evidência sólida de que os dinossauros emplumados viviam nos polos da Terra, informação que será revelada por paleontologistas num estudo da Gondwana Research.

As penas podem ter até 118 milhões de anos, datando até ao início do Cretáceo, quando a Austrália estava muito mais a sul e se juntou à Antártida para formar a massa de terra polar no sul do planeta. Embora na altura o ambiente estivesse mais quente do que aquele que se verifica na Antártida da atualidade, os dinossauros que ostentavam esta plumagem sofreram provavelmente muitos meses de escuridão e temperaturas potencialmente congelantes durante o inverno.

"É a primeira vez que encontramos penas fósseis em ambientes polares", diz o coautor do estudo, Benjamin Kear, paleontologista na Universidade de Uppsala, na Suécia. "A nossa descoberta... mostra pela primeira vez que uma diversidade de dinossauros emplumados e pássaros primitivos com capacidades de voo habitaram estas antigas regiões polares.”

Apesar de já terem sido encontrados ossos delicados de aves da era dos dinossauros em lugares polares, até agora nenhum deles exibia penas fossilizadas. Os fósseis de um tipo extinto de pinguim encontrado no Peru incluíam plumagem, mas datam de há cerca de 36 milhões de anos, quando a massa terrestre estava situada mais a norte.

Encontrar penas do Cretáceo nesta região da Austrália é uma pista vital para perceber como é que os animais usavam estas coberturas corporais distintas – fosse para acasalar ou voar. Neste caso, as penas podem ter sido importantes para o isolamento térmico, permitindo aos pequenos dinossauros carnívoros sobreviver aos longos meses de inverno.

"Faz todo o sentido que estas penas atenham ajudado a manter os dinossauros e as aves primitivas quentes nestas latitudes durante o Cretáceo", diz Ryan McKellar, especialista em penas fósseis e curador do Museu Real Saskatchewan, em Regina, no Canadá.

"Encontrar este tipo de dados tão a sul é uma coisa espetacular", acrescenta Ryan. "O relatório oferece uma imagem da importância que a plumagem polar tinha nos estágios iniciais do Cretáceo.”

Perdidas no lago

As penas recém-descritas foram encontradas num sítio chamado Koonwarra, a cerca de 150 km a sudeste de Melbourne, no estado de Victoria. Na década de 1960, a construção de uma estrada na encosta de uma colina colocou a descoberto uma enorme variedade de fósseis e, nos últimos 60 anos, as escavações feitas no local descobriram inúmeros peixes e plantas fósseis, incluindo a tal variedade de plumagem bem preservada.

Atualmente, nenhuma das penas está associada a ossos distintos de dinossauros ou aves. Em vez disso, acredita-se que podem ter caído durante a muda e levadas pelo vento, para a superfície de um lago antigo, onde se afundaram e ficaram preservadas na lama.

Para este novo estudo, Tom Rich, do Museu de Melbourne, e Patricia Vickers-Rich, da Universidade Monash – que chefiaram as escavações em Koonwarra nos últimos 37 anos – trabalharam com uma equipa internacional para analisar as descobertas, mostrando que as 10 penas são bastante diversas. Os fósseis incluem penas felpudas que serviriam para isolamento térmico; uma protopena fofa que provavelmente pertencia a um dinossauro não-aviário; e uma complexa pena de voo semelhante à das aves modernas.

Grande parte destas penas tem pouco mais de 2.5 centímetros de comprimento e podem ter pertencido a enantiornitinas, um grupo extinto de aves primitivas muito diversificadas que existiu durante o início do Cretáceo, diz Benjamin Kear. “Algumas das penas são tão pequenas que existe a possibilidade de terem pertencido a crias.”

Porém, excetuando uma das penas,  as outras não conseguiam sustentar qualquer tipo de voo, sugerindo que algumas das penas podem ter pertencido a dinossauros carnívoros, diz o autor principal do estudo, Martin Kundrát, paleontologista na Universidade Pavol Jozef Šafárik, na Eslováquia.

“A protopena é consistente com algumas das protopenas dos dinossauros identificadas nas rochas do início do Cretáceo na China, e no âmbar do Cretáceo no Canadá", diz McKellar.

Com base no seu tamanho, a protopena pode ter pertencido a um dinossauro relativamente pequeno, como um Dromaeosauridae – um grupo de carnívoros velozes que inclui o Velociraptor e o Deinonychus. Em Victoria, já foram encontrados alguns ossos e dentes fósseis que pertenciam a animais desta espécie de focinho delgado, chamados unenlagiids, muito abundantes na América do Sul e que, aparentemente, se alimentavam de peixe. Portanto, é normal que dinossauros semelhantes caçassem junto a um lago do Cretáceo.

"Pelos vários fósseis de peixes que encontrámos no lago, sabemos que possivelmente existia aqui uma fonte de alimento", diz Stephen Poropat, paleontologista na Universidade Swinburne, em Melbourne.

Cores sazonais?

Os autores do estudo também encontraram vestígios fossilizados de pigmentos nas penas, sugerindo que muitos dos animais eram negros, cinzentos ou castanhos, e que podiam ter listas escuras.

Isto é algo surpreendente em animais polares, já que a coloração escura não teria sido uma boa camuflagem em ambientes nevados e invernais. Talvez estes dinossauros e aves mudassem de cor sazonalmente, como acontece com algumas aves do Ártico atualmente.

“Mas também é possível que não fizesse assim tanto frio no Polo Sul durante este período do Cretáceo, pelo que não precisavam de cores pálidas para se dissimularem na neve.”

Para resolver este enigma são necessários mais fósseis e Rich espera que um dia a equipa encontre dinossauros fossilizados, ou aves inteiras, em Koonwarra, que sejam semelhantes aos dinossauros emplumados encontrados em excelente estado de preservação do nordeste da China.

"Encontrar o esqueleto de um dinossauro emplumado aqui na Austrália seria incrível", diz Stephen Poropat. "E pelo que sabemos, Koonwarra é o local onde provavelmente isso poderá acontecer."

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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