Sismo Estranho Abala França

Um tremor incomum e pouco profundo sacudiu o país, deixando os cientistas perplexos sobre a sua origem.quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Pouco antes de anoitecer, Clément Bastie e a sua família estavam a preparar o jantar na pequena cidade francesa de Le Teil, quando as paredes começaram a tremer. Os copos e pratos caíram no chão. Depois, um som estrondoso ecoou pela cidade.

Os receios de explosões na fábrica de energia nuclear que fica nas proximidades inundaram a mente de Bastie. Este professor de biologia e geologia do ensino secundário correu para a rua à espera de ver a formação de uma nuvem em forma de cogumelo. Mas rapidamente descobriu que o tremor vinha de algo menos devastador, embora surpreendente para a região: um terramoto que abriu o solo.

Com uma magnitude de 4.8, o abalo danificou vários edifícios e feriu quatro pessoas. E também deixou os cientistas confusos sobre uma série de características curiosas. Por um lado, embora França não seja estranha a sismos, geralmente são muito pequenos, explica o sismólogo Jean-Paul Ampuero da Université Côte d'Azur. Levando em consideração os padrões globais, o evento teve uma intensidade moderada, mas foi "enorme para os padrões franceses", diz Jean-Paul.

Ainda mais surpreendente foi a forma como o tremor afetou a superfície, partindo a crosta terrestre como se fosse uma casca de ovo. Estas fendas são comuns em terramotos fortes, como o terramoto Landers de magnitude 7.2 que atingiu a Califórnia em 1992. A formação de uma fratura na superfície durante o tremor de Le Teil levou os investigadores a tentar descobrir a sua estranha origem.

Estudando a geodinâmica passada e presente da região, os cientistas esperam encontrar pistas sobre o que desencadeou este evento, esperam saber porque é que aconteceu tão inesperadamente e o que pode revelar sobre as mecânicas do nosso planeta.

“Quando um terramoto é surpreendente, é uma excelente oportunidade para aprender algo novo”, diz Jean-Paul.

Observar de cima
Os sismos são originados pelo movimento em câmara lenta das placas tectónicas do planeta. Estes blocos de crosta e manto superior lutam de forma continuada por uma posição, acumulando tensão até que o solo se rompe, enviando as ondas que sentimos sob a forma de terramotos.

A estrutura tectónica de França é particularmente complicada. O país fica no topo da placa tectónica da Eurásia, que fica ao lado da placa africana mais a sul. Mas a fronteira entre as duas é complexa e inclui vários fragmentos de placas menores, conhecidas por microplacas. Quando estes blocos colidem, os seus movimentos esmagam França em várias direções.

"Em França, não temos uma falha grande, simples e bem definida, como a falha de San Andreas", afirma o geofísico Lucile Bruhat, da Ecole Normale Supérieure de Paris. “Apesar de haver a possibilidade de assistirmos a sismos grandes em França, os mega-terramotos, como os da Califórnia, são muito raros.”

Para além disso, as ruturas moderadas não racham geralmente a superfície, explica Raphaël Grandin, geodesista no Institut de Physique du Globe de Paris. Quando este tremor ocorreu, Grandin não esperava encontrar efeitos à superfície.

"Mas, como estamos em França, temos de o estudar. É o nosso país." Grandin e outros especialistas começaram a examinar os dados de radar dos satélites ativos durante o terramoto, através dos quais conseguem identificar os movimentos minúsculos na superfície, enquanto se aproximam ou afastam da nave em órbita. Isto produz um mapa colorido que retrata as tensões provocadas pelo evento na paisagem.

Surpreendentemente, o sinal que emergiu revelou indícios não só de deformação terrestre, como de rutura à superfície.

O motivo, em parte, é a pouca profundidade a que o sismo ocorreu. A maioria dos terramotos mais fortes começa a grandes profundidades, irradiando de uma quebra nas placas a pelo menos 5 ou 10 km de profundidade. Mas as análises sugerem que este último tremor rachou a crosta a pouco mais de 1 km de profundidade.

“É um sismo de pouca profundidade, mesmo para os padrões mundiais”, diz Jean-Paul.

Perto da superfície, o peso das rochas sobrepostas é inferior, o que significa que as tensões são menores e os terramotos são geralmente mais fracos, observa Grandin. As falhas também se comportam de formas diferentes a diferentes profundidades, acrescenta Jean-Paul. Ao passo que as tensões nas profundezas são frequentemente libertadas num ápice, a tensão superficial é lentamente libertada ao longo do tempo.

“Costumam ser uma coisa lenta e arrastada, e não provocam fendas.”

Porém, este evento tem precedentes – Grandin dá como exemplo um tremor de pouca profundidade, de magnitude 4.7, que abriu uma fenda na Austrália. Mas estes sismos são considerados raros, e saber como é que este terramoto foi moderado e superficial continua a ser um mistério.

À procura de fendas
No dia 13 de novembro, para obterem mais pistas, os investigadores dirigiram-se ao local e recorreram às análises de satélite para ajudar a identificar a fenda. Agora, estão a trabalhar para estudar a zona de várias formas, incluindo a instalação de sismómetros para rastrear a atividade da falha e quaisquer sinais adicionais de deformação.

Jean-Paul e a sua equipa também recolheram uma rocha que localizaram perto da falha e planeiam testar as suas propriedades em laboratório para ver se existe algo de estranho que possa explicar a rutura fora do normal. E outros cientistas estão a estudar as imagens de satélite mais antigas da região para descobrir quaisquer deformações que possam oferecer mais pistas sobre a fonte do sismo.

Entretanto, já surgiu uma possibilidade intrigante: o terramoto pode ter sido gerado pela atividade pedreira na região, diz Robin Lacassin, do Institut de Physique du Globe de Paris. A falha pode estender-se debaixo da pedreira, pelo que a remoção de volumes significativos de pedra pode ter reduzido a tensão tectónica normal para essa área e forçado a superfície a reajustes. Jean-Paul e a sua equipa estão a investigar esta possibilidade.

Talvez ninguém fique mais intrigado com este evento do que Clément Bastie, o professor que vive a menos de 800 metros de um segmento óbvio da fratura, e que se juntou aos cientistas para explorar a zona.

“Estas evidências da atividade da Terra são uma coisa que eu só tinha visto em livros... nunca o vivi em pessoa”, diz Clément. “É assustador e entusiasmante ao mesmo tempo.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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