20 Descobertas Científicas da Década

Na década de 2010 fizeram-se descobertas incríveis e atingiram-se marcos importantes. Eis as nossas escolhas.quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Com a década de 2010 a chegar ao fim, podemos agora olhar para uma era repleta de descobertas. Nos últimos 10 anos, cientistas de todo o mundo fizeram progressos notáveis na compreensão do corpo humano, do nosso planeta e do cosmos que nos rodeia. Para além disso, a ciência também ficou mais global e colaborativa do que nunca. Atualmente, é mais provável assistirmos a grandes avanços feitos por equipas de 3000 cientistas do que por equipas de 3.

Aconteceu tanta coisa durante a última década que os escritores e editores da National Geographic decidiram reunir as suas mentes para identificar 20 tendências e marcos considerados especialmente dignos de nota e que se acredita poderem vir a dar origem a mais descobertas surpreendentes durante a década que se segue.

Deteção das primeiras ondas gravitacionais
Em 1916, Albert Einstein propôs que, quando objetos com massa suficiente aceleram, podem criar ondas que se movem através do tecido espaço-tempo, semelhantes às ondulações na superfície de uma lagoa. Embora mais tarde Einstein tenha duvidado da sua existência, estas rugas no espaço-tempo – chamadas ondas gravitacionais – são uma previsão essencial para a relatividade, e a procura pela sua existência cativou os investigadores durante décadas. Apesar de, na década de 1970, terem surgido pela primeira vez evidências das ondas, estas só foram diretamente detetadas em 2015, quando o observatório norte-americano LIGO detetou o tremor secundário de uma colisão distante entre dois buracos negros. Esta descoberta, anunciada em 2016, revelou uma nova forma de "ouvir" o cosmos.

Em 2017, o LIGO e o observatório europeu Virgo sentiram outra série de ondulações, desta vez quando dois objetos ultradensos – estrelas de neutrões – colidiram. Um pouco por todo o mundo os telescópios viram a explosão relacionada, fazendo deste o primeiro evento observado não só em ondas de luz, como em ondas gravitacionais. Os dados de referência ofereceram aos cientistas uma visão sem precedentes sobre a forma como a gravidade funciona e sobre a formação de elementos como o ouro e a prata.

Questionar a árvore genealógica da humanidade

A última década assistiu a inúmeros avanços na compreensão da complexa história da origem da humanidade, incluindo novas datações em fósseis conhecidos, crânios fósseis espetacularmente completos e a adição de novos ramos. Em 2010, o Explorador National Geographic, Lee Berger, revelou um antepassado distante chamado Australopithecus sediba. Cinco anos mais tarde, Berger anunciou que o sistema de cavernas Berço da Humanidade da África do Sul continha fósseis de uma nova espécie: o Homo naledi, um hominídeo cuja anatomia se assemelha tanto à dos humanos modernos como à de antepassados muito mais antigos. Um estudo de acompanhamento também mostrou que o Homo naledi era surpreendentemente jovem, datando de há 236.000 ou 335.000 anos.

E na Ásia também se fizeram várias descobertas. Em 2010, uma equipa anunciou que o ADN retirado de um osso mindinho muito antigo, encontrado na Sibéria, era diferente do ADN de qualquer humano moderno, a primeira evidência de uma linhagem oculta agora chamada Denisova. Em 2018, um sítio arqueológico na China revelou ferramentas de pedra com 2.1 milhões de anos, confirmando que os fabricantes de ferramentas se espalharam pela Ásia centenas de milhares de anos antes do que se pensava. Em 2019, investigadores nas Filipinas encontraram fósseis do Homo luzonensis, um novo tipo de hominídeo semelhante ao Homo floresiensis, o "hobbit" da Ilha de Flores da Indonésia. E as ferramentas de pedra recém-descobertas nas Celebes antecedem os humanos modernos, o que sugere a presença de uma terceira ilha não identificada de hominídeos no Sudeste Asiático.

Revolução no estudo de ADN antigo
Durante a década passada, com os progressos feitos na sequenciação de ADN, assistimos a saltos enormes na compreensão sobre a forma como o nosso passado genético moldou os humanos modernos. Em 2010, investigadores revelaram o primeiro genoma quase completo de um antigo Homo sapiens, iniciando uma década revolucionária para o estudo do ADN dos nossos antepassados. Desde então, foram sequenciados mais de 3000 genomas antigos, incluindo o ADN de Naia, uma rapariga que morreu há 13.000 anos onde atualmente fica o México. Os seus restos mortais estão entre os esqueletos humanos intactos mais antigos alguma vez encontrados nas Américas. E também em 2010, os investigadores anunciaram o primeiro esboço de um genoma neandertal, fornecendo a primeira evidência genética sólida de que 1 a 4% de todo o ADN não africano moderno vem destes parentes próximos.

E em 2018, noutra descoberta impressionante, cientistas que estudavam ADN antigo revelaram que um osso com 90.000 anos pertencia a uma adolescente cuja mãe era Neandertal e o pai era Denisova, fazendo dela o primeiro humano híbrido antigo alguma vez encontrado. Noutra descoberta, os cientistas compararam o ADN de Denisova a proteínas fósseis para confirmar que alguns dos Denisova viveram no Tibete, expandindo o alcance deste misterioso grupo. À medida que o estudo de ADN antigo melhorou, o mesmo aconteceu com as considerações éticas, como a necessidade do envolvimento das comunidades e o repatriamento de restos humanos indígenas.

Revelação de centenas de exoplanetas
Durante a última década, o conhecimento humano sobre planetas que orbitam estrelas distantes também deu um salto gigantesco, em grande parte devido ao Telescópio Espacial Kepler da NASA. Entre 2009 e 2018, o Kepler confirmou a existência de 2700 exoplanetas, mais de metade do total atual. Um dos maiores sucessos do Kepler: o primeiro exoplaneta rochoso confirmado. O seu sucessor, o TESS, lançado em 2018, está a começar a perscrutar o céu noturno e já conseguiu confirmar 34 exoplanetas.

As observações feitas a partir da Terra também estiveram evolvidas em descobertas notáveis. Em 2017, os investigadores anunciaram a descoberta do TRAPPIST-1, um sistema estelar a apenas 39 anos-luz de distância que abriga 7 planetas do tamanho da Terra, o maior número de planetas encontrados a orbitar uma estrela que não o sol. No ano anterior, o projeto Pale Red Dot anunciou a descoberta do Proxima b, um planeta do tamanho da Terra que orbita Proxima Centauri, a estrela mais próxima do sol, a apenas 4.25 anos-luz de distância.

Entrada na era do CRISPR
A nossa capacidade em editar com precisão ADN também evoluiu bastante nos últimos 10 anos, em grande parte devido à identificação do sistema Crispr-Cas9. Algumas bactérias usam de forma natural o Crispr-Cas9 como sistema imunitário, visto que permite armazenar fragmentos de ADN viral. Em 2012, investigadores propuseram que o Crispr-Cas9 podia ser usado como uma poderosa ferramenta de edição genética, uma vez que corta precisamente o ADN de formas que os cientistas conseguem facilmente personalizar. Em poucos meses, outras equipas confirmaram que a técnica funcionava com ADN humano. Desde então, laboratórios de todo o mundo não perderam tempo a tentar identificar sistemas semelhantes, para modificar o Crispr-Cas9 e torná-lo ainda mais preciso, e para testar aplicações na agricultura e na medicina.

Embora os benefícios teóricos do Crispr-Cas9 sejam enormes, os dilemas éticos apresentados pelo mesmo também são consideráveis. Para horror da comunidade médica internacional, o investigador chinês He Jiankui anunciou em 2018 o nascimento de duas meninas cujos genomas tinham sido editados por ele através do CRISPR – os primeiros humanos nascidos com edições no ADN. O anúncio provocou uma moratória global sobre edições de "linha genética" nos humanos.

Observação do cosmos sem precedentes

A década de 2010 trouxe consigo várias observações importantes que estão a revolucionar o nosso estudo do universo. Em 2013, a Agência Espacial Europeia lançou a sonda Gaia, uma sonda que está a recolher medições de distância para mais de mil milhões de estrelas na Via Láctea, bem como dados de velocidade para mais de 150 milhões de estrelas. O conjunto de dados ajudou os cientistas a criar um filme em 3D da nossa galáxia, oferecendo uma visão sem precedentes sobre a forma como as galáxias se formam e mudam com o tempo.

Em 2018, os cientistas publicaram a versão final das medições do satélite Planck sobre o ténue reflexo do universo primitivo, que contém pistas vitais para os ingredientes cósmicos, estrutura e taxa de expansão. Curiosamente, a taxa de expansão que Planck observou difere da atual, uma potencial "crise na cosmologia" que pode exigir uma nova física para explicar os dados. Também em 2018, o projeto Dark Energy Survey divulgou o seu primeiro lote de dados que pode ajudar a investigar padrões ocultos na estrutura do nosso universo. E em abril de 2019, os cientistas do Telescópio Event Horizon revelaram a primeira imagem da silhueta de um buraco negro, graças a um enorme esforço global para observar o coração da galáxia M87.

Revelações de arte antiga

Descobertas feitas pelo mundo inteiro reforçaram o conceito de que a arte – ou pelo menos os rabiscos – era um fenómeno mais antigo e global do que se pensava. Em 2014, investigadores mostraram que uma pintura de um "veado-porco" encontrada nas cavernas Marawesi das Celebes tinham pelo menos 39.000 anos, tornando-as tão antigas quanto as pinturas rupestres mais velhas da Europa. Em 2018, foi anunciada a descoberta de arte rupestre no Bornéu, que tem entre 40.000 a 52.000 anos, colocando ainda mais longe as origens da pintura figurativa. E na África do Sul, em 2018, foi encontrado um floco de pedra com 73.000 anos que tem um padrão rabiscado – e pode muito bem ser o rabisco mais antigo do mundo.

Outras descobertas controversas estimularam o debate sobre as capacidades artísticas dos neandertais. Em 2018, os investigadores revelaram pigmentos e conchas marinhas perfuradas, encontradas em Espanha, com 115.000 anos de idade, quando na Europa só viviam neandertais. Também em 2018, outro estudo afirmou que algumas das pinturas rupestres de Espanha têm 65.000 anos. Muitos dos especialistas em arte rupestre contestaram esta descoberta, mas, caso se venha a confirmar, esta pode ser a primeira evidência de pinturas rupestres feitas por neandertais. E em 2016, os investigadores anunciaram que uma caverna em França continha círculos bizarros de estalagmites, criados há cerca de 176.000 anos. Se estes círculos não foram feitos por ursos, a sua idade sugere que podem existir ainda mais trabalhos feitos pelos neandertais.

Progressos interestelares
Os futuros historiadores podem olhar para os anos 2010 como a década interestelar: pela primeira vez, uma nave espacial humana ultrapassou o véu que separa o sol do espaço interestelar, e recebemos as primeiras visitas de objetos que se formaram em torno de estrelas distantes.

Em agosto de 2012, a sonda Voyager 1 da NASA cruzou o limite externo da heliosfera, a bolha de partículas energizadas emitidas pelo nosso sol. A Voyager 2 juntou-se à sua irmã gémea no ambiente interestelar em novembro de 2018 e recolheu dados inovadores ao longo do caminho. Mas a estrada interestelar tem duas vias. Em outubro de 2017, os astrónomos encontraram o ‘Oumuamua, o primeiro objeto formado noutro sistema estelar alguma vez detetado a passar pelo nosso. Em agosto de 2019, o astrónomo amador Gennady Borisov encontrou o segundo intruso interestelar, um cometa muito ativo que agora tem o seu nome.

Abrir as portas de civilizações antiga

O Túmulo de Cristo

Em 2013, investigadores britânicos encontraram finalmente o corpo do rei Ricardo III – num sítio que agora está debaixo de um parque de estacionamento. Em 2014, foi anunciado que o complexo do templo Castillo de Huarmey do Peru ainda tinha uma tumba real intocada. Em 2016, os arqueólogos revelaram o primeiro cemitério dos filisteus, abrindo uma janela sem precedentes para a vida das pessoas mais polémicas e enigmáticas da Bíblia Hebraica. No ano seguinte, os investigadores anunciaram que a Basílica do Santo Sepulcro de Jerusalém remonta até há 1700 anos, até ao primeiro imperador cristão de Roma, parecendo confirmar que foi construída no local identificado por Roma como a zona do enterro de Cristo. E em 2018, equipas que trabalham no Peru revelaram o maior local de sacrifício em massa de crianças alguma vez descoberto, enquanto que outros cientistas que perscrutam a Guatemala detetaram mais de 60.000 edifícios maias antigos – recentemente identificados com lasers a partir do ar.

Mas as grandes descobertas arqueológicas também surgiram das profundezas do mar. Em 2014, uma equipa canadiana encontrou finalmente o H.M.S. Erebus, um navio de pesquisa polar que se afundou tragicamente em 1846. Dois anos depois, o outro navio da expedição, o H.M.S. Terror, também foi localizado. Em 2017, um esforço liderado pelo cofundador da Microsoft, Paul Allen, encontrou o há muito perdido U.S.S. Indianapolis que se afundou em 1945 e se tornou num dos desastres mais mortíferos da história naval dos EUA. O Projeto de Arqueologia Marítima do Mar Negro também revelou mais de 60 naufrágios históricos no fundo do Mar Negro – incluindo uma embarcação com 2400 anos descoberta em 2018. E em 2019, as autoridades do Alabama anunciaram a descoberta do Clotilda, o último navio negreiro a transportar escravos de África para os Estados Unidos.

Novas descobertas no sistema solar

Em julho de 2015, a sonda New Horizons da NASA cumpriu uma missão de décadas para visitar o mundo gelado de Plutão, oferecendo as primeiras imagens da superfície surpreendentemente variada deste planeta anão. E no Dia de Ano Novo de 2019, a New Horizons captou as primeiras imagens do corpo gelado Arrokoth, os restos primordiais da infância do sistema solar.

Em 2011, um pouco mais perto de casa, a sonda Dawn da NASA chegou a Vesta, o segundo maior corpo da Cintura de Asteroides. Depois de mapear este mundo, a sonda partiu para orbitar o planeta anão Ceres, o maior objeto da Cintura de Asteroides – tornando-se na primeira missão a orbitar um planeta anão e a primeira a orbitar dois corpos extraterrestres diferentes. Perto do final da década, a OSIRIS-REx da NASA e Hayabusa2 da JAXA visitaram os asteroides Bennu e Ryugu, respetivamente, com o objetivo de enviar amostras à Terra.

Alterar o rumo das doenças
Em resposta ao surto de Ébola (2014-2016) de África Ocidental, as autoridades de saúde pública e a empresa farmacêutica Merck aceleraram a rVSV-ZEBOV, uma vacina experimental contra o Ébola. Em 2015 foi feito um teste de campo com enorme sucesso, e as autoridades europeias aprovaram finalmente a vacina em 2019 – um marco na luta contra esta doença mortal. Vários estudos de referência também abriram novos caminhos para impedir a propagação do HIV. Um estudo de 2011 mostrou que a utilização de medicamentos antirretrovirais tinha reduzido consideravelmente a disseminação do HIV entre casais heterossexuais, uma descoberta confirmada em estudos de acompanhamento que incluíram casais do mesmo sexo.

Ultrapassar os limites da reprodução

Em 2016, os médicos anunciaram o nascimento de um "bebé com 3 pais" cultivado a partir do esperma do pai, do núcleo celular da mãe e do óvulo de uma terceira doadora. A terapia – que permanece eticamente controversa – visa corrigir os distúrbios nas mitocôndrias da mãe. Um estudo de 2018 criou precursores de espermatozoides ou de óvulos humanos a partir de pele e células sanguíneas reprogramadas, enquanto que outro mostrou que a edição de genes poderia permitir que dois ratos do mesmo sexo tivessem crias. E em 2018, cientistas chineses anunciaram o nascimento de dois macacos clonados, a primeira vez que um primata foi clonado, tal como a ovelha Dolly. Embora os investigadores afirmem que a técnica não vai ser usada em humanos, é possível que funcione com outros primatas.

Identificar o bosão de Higgs

Como é que a matéria adquire massa? Nas décadas de 1960 e 1970, físicos como Peter Higgs e François Englert propuseram uma solução na forma de um novo campo de energia que permeia o universo, agora chamado campo de Higgs. Este campo teorizado também trouxe a sua partícula fundamental associada, agora conhecida por bosão de Higgs. Em julho de 2012, uma investigação feita ao longo de décadas terminou quando duas equipas do CERN anunciaram a deteção do bosão de Higgs. A descoberta preencheu a última parte que faltava do Modelo Padrão, a teoria espetacularmente bem-sucedida – embora incompleta – que descreve 3 das 4 forças fundamentais da física e todas as partículas elementares conhecidas.

Reescrever os livros de paleontologia
Esta década também assistiu ao aprofundamento do nosso conhecimento sobre a vida pré-histórica – os cientistas descobriram novos fósseis impressionantes enquanto expandiam os seus conjuntos de ferramentas analíticas. Em 2010, investigadores financiados pela National Geographic Society publicaram a primeira reconstrução a cores de corpo inteiro de um dinossauro, com base na descoberta de pigmentos fossilizados. Nos anos seguintes, a paleta aumentou, com os paleontólogos a descobrirem camuflagem nos dinossauros através de penas que variavam entre o preto e o azul, ou um arco-íris iridescente e pele avermelhada num dos fósseis mais bem preservados de sempre de um dinossauro. E em 2018, num feito notável de investigação química, os investigadores analisaram moléculas de gordura preservadas e provaram que o Dickinsonia, uma criatura primitiva que viveu há mais de 540 milhões de anos, era um animal.

Em 2014, os paleontólogos também revelaram novos fósseis do dinossauro predador Spinosaurus que sugeriam que se tratava de um animal semiaquático – o primeiro conhecido entre os dinossauros. Um ano depois, uma equipa na China revelou o impressionante fóssil de Yi qi, um dinossauro emplumado muito estranho com membranas nas asas semelhantes às de um morcego. Na última década, o interesse dos cientistas pelo âmbar com 99 milhões de anos de Mianmar também aumentou, revelando uma cauda de dinossauro emplumada, uma cria de ave primitiva e vários tipos de invertebrados presos em resina fossilizada.

Encontrar os blocos de construção da vida noutros planetas
Nos últimos 10 anos, as missões espaciais ofereceram-nos uma visão mais detalhada sobre as moléculas orgânicas de outros mundos baseadas em carbono – ingredientes necessários para a vida como a conhecemos. A missão Rosetta da Agência Espacial Europeia orbitou e aterrou no cometa 67P Churyumov – Gerasimenko. Os dados recolhidos entre 2014 e 2016 revelaram uma análise surpreendentemente próxima de matérias-primas que os antigos impactos podem ter trazido para a Terra. Antes de a sonda Cassini da NASA ter morrido em 2017, confirmou que as plumas aquosas da lua Encélado de Saturno contêm enormes moléculas orgânicas, uma pista de que têm o material necessário para a existência de vida. E em 2018, a NASA anunciou que a sonda Curiosity tinha encontrado compostos orgânicos em Marte, para além de um ciclo sazonal bizarro nos níveis atmosféricos de metano do planeta vermelho.

Alarmes de emergência climática

Alexandria Villasenor, de 13 anos, falta à escola todas as sextas-feiras para fazer greve em nome das alterações climáticas. Todas as semanas, faça chuva ou faça sol, Alexandria senta-se num banco em frente às Nações Unidas, na cidade de Nova Iorque, com os seus cartazes, chamando a atenção para a questão das alterações climáticas. Alexandria Villasenor e outros jovens ativistas organizaram uma greve escolar global pelo clima no dia 15 de março.
Fotografia de SARAH BLESENER, THE WASHINGTON POST/GETTY

Ao longo da última década, o dióxido de carbono atmosférico alcançou níveis sem precedentes nos tempos modernos, com temperaturas recordes a condizer. No dia 9 de maio de 2013, os níveis globais de CO2 atingiram pela primeira vez na história da humanidade as 400 partes por milhão e, em 2016, os níveis de CO2 estavam firmemente acima desse limite. Como resultado, o mundo inteiro sentiu um aumento no aquecimento; 2015, 2016, 2017, 2018 e 2019 foram os 5 anos mais quentes alguma vez registados desde 1880. E desde 2014, os oceanos em aquecimento iniciaram um evento global de branqueamento de corais. Por todo o mundo, os corais começaram a morrer, incluindo partes da Grande Barreira de Coral. Em 2019, a Austrália declarou extintos os melomys de Bramble Cay devido à subida do nível do mar, o primeiro mamífero conhecido a desaparecer por causa das alterações climáticas nos tempos modernos.

Através de vários relatórios importantes, cientistas de todo o mundo chamaram seriamente a atenção para as alterações climáticas da Terra, para os riscos que isso representa e a necessidade de respostas. Em 2014, o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) divulgou a sua quinta avaliação e, um ano depois, as nações mundiais negociaram o Acordo de Paris, o acordo climático global que visa manter o aquecimento abaixo dos 2 graus Celsius – número que os líderes mundiais e cientistas consideram um limiar perigoso. Em outubro de 2018, o IPCC publicou outro relatório sombrio que descrevia os custos elevados de um aquecimento a rondar os 1.5 graus Celsius até 2100. Perante estes desafios, o mundo assistiu a protestos climáticos sem precedentes, muitos liderados por jovens ativistas.

Descobrir – e redescobrir – espécies
Os biólogos modernos estão a identificar espécies novas a um ritmo estonteante, nomeando em média 18.000 espécies por ano. Na década passada, os cientistas descreveram várias espécies de mamíferos pela primeira vez, como o macaco de nariz arrebitado de Mianmar, o rato Vangunu gigante e o olinguito, o primeiro carnívoro recém-descoberto no Hemisfério Ocidental desde o final dos anos 1970. As fileiras de outros grupos de animais também aumentaram, à medida que os cientistas descreviam animais recém-descobertos como sapos minúsculos – mais pequenos do que uma moeda de 10 cêntimos – uma salamandra gigante da Flórida e muitos outros. Para além disso, alguns animais, como o saola do Vietname e o pika-de-ili da China, foram vistos depois de terem desaparecido durante vários anos.

Mas, juntamente com muitas destas descobertas, os cientistas também calcularam a taxa exponencial das extinções modernas. Em 2019, os cientistas alertaram que 25% dos grupos de plantas e animais estão em perigo de extinção, sugerindo que mais de um milhão de espécies – conhecidas e desconhecidas pela ciência – correm agora o risco de desaparecer no espaço de décadas.

Inauguração de uma nova era espacial
A década de 2010 assistiu a um período de transição fundamental para os voos espaciais, com o acesso à órbita baixa da Terra, e não só, a tornar-se num empreendimento mais global e comercial. Em 2011, a China colocou em órbita o seu primeiro laboratório espacial, o Tiangong-1. Em 2014, a missão Mars Orbiter da Índia chegou ao planeta vermelho, fazendo da Índia o primeiro país a chegar com sucesso a Marte na sua primeira tentativa. Em 2019, a SpaceIL, organização sem fins lucrativos israelita, tentou a primeira aterragem lunar com financiamento privado, e a missão Chang'e-4 da China realizou a primeira aterragem suave no lado oposto da lua. O corpo global de astronautas também se tornou mais diversificado: Tim Peake tornou-se no primeiro astronauta profissional britânico; Aidyn Aimbetov tornou-se no primeiro cosmonauta cazaque pós-soviético; e os Emirados Árabes Unidos e a Dinamarca enviaram os seus primeiros astronautas para o espaço. Para além disso, as astronautas da NASA, Jessica Meir e Christina Koch, fizeram o primeiro passeio espacial completamente feminino.

Em 2011, depois de os EUA terem feito a última missão com um vaivém espacial, as empresas privadas começaram a preencher o lugar vago. Em 2012, a SpaceX lançou a primeira missão de reabastecimento comercial para a Estação Espacial Internacional e, em 2015, a Blue Origin e a SpaceX tornaram-se nas primeiras empresas a lançar com sucesso foguetões reutilizáveis para o espaço – naves que regressam depois na vertical à Terra – um marco para lançamentos menos dispendiosos até à órbita baixa terrestre.

Observar animais de novas perspetivas

Descoberta Tartaruga do Mar Luminosa

A década passada também revelou características e comportamentos invulgares por todo o reino animal. Em 2015, o Explorador National Geographic, David Gruber, descobriu que as tartarugas-de-pente têm uma fluorescência de tons verdes e vermelhos – a primeira biofluorescência alguma registada num réptil. Em 2016, os investigadores mostraram que o tubarão-da-gronelândia consegue viver até aos 272 anos, tornando-o no vertebrado com o tempo de vida mais longo conhecido até agora. A nossa compreensão sobre animais que usam ferramentas também melhorou: um estudo de 2019 mostrou pela primeira vez que os javalis das Visayas usam ferramentas e vários estudos mostraram que, no Brasil, há pelo menos 3000 anos que alguns macacos usam ferramentas, o registo mais antigo do uso de ferramentas não humano encontrado fora de África. E em 2018, numa observação extremamente rara, biólogos no Quénia documentaram cientificamente um leopardo negro –  avistado pela primeira vez em África desde 1909.

Redefinir as unidades da ciência
Para compreender o mundo natural, os cientistas têm de o medir – mas como é que definimos as unidades? Ao longo de várias décadas, os cientistas redefiniram gradualmente as unidades clássicas em termos de constantes universais, como o uso da velocidade da luz para ajudar a definir o comprimento de 1 metro. Mas a unidade científica de massa, o quilograma, permaneceu atrelada ao "Le Grand K", um cilindro metálico armazenado numa instalação em França. Se a massa desse lingote variasse por qualquer motivo, os cientistas teriam de recalibrar os seus instrumentos. Mas em 2019, os cientistas concordaram em adotar uma nova definição de quilograma com base num fator essencial da física, chamado constante de Planck, e definições mais detalhadas para as unidades de corrente elétrica, temperatura e número de partículas presentes numa determinada substância. Pela primeira vez, todas as nossas unidades científicas derivam de constantes universais – garantindo uma nova era de medições mais detalhadas.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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