Alimentos Alternativos Para Suportar Um Clima Mais Severo

O feijão-bambara e as ervas daninhas podem não estar no topo da maioria dos cardápios, mas os cientistas que procuram parentes selvagens de culturas modernas podem ter encontrado uma solução para as nossas futuras necessidades alimentares.

Friday, December 20, 2019,
Por Anita Makri
Pré-melhoramento de grão-de-bico na Universidade da Califórnia. O pré-melhoramento é um processo de cruzamento entre um ...
Pré-melhoramento de grão-de-bico na Universidade da Califórnia. O pré-melhoramento é um processo de cruzamento entre um parente selvagem e uma variedade de culturas domesticadas para transferir as características úteis e descartar as desnecessárias.
Fotografia de UC Davis, Crop Wild Relatives

O feijão-bambara pode não ser muito conhecido fora de África Ocidental, mas este primo do amendoim, que é rico em proteínas e cresce bem em climas severos e em solos pobres, estava na lista de prioridades de uma investigação global que procura sementes de culturas alimentares que podem vir a salvar vidas num mundo em aquecimento.

Mais de 100 cientistas passaram os últimos 6 anos a rastrear parentes selvagens de 28 alimentos importantes para a segurança alimentar mundial – enquanto percorriam regiões selvagens e evitavam zonas de conflitos armados, inundações e cobras venenosas.

A equipa trabalhou em 25 países, desde as montanhas do Peru até aos campos do Chipre, à procura de plantas negligenciadas, mas fortes o suficiente para sobreviverem na natureza. As descobertas, publicadas no dia 3 de dezembro, preenchem lacunas de um banco de dados global de genes que pode ser utilizado para precaver o abastecimento mundial de alimentos perante a dura realidade dos efeitos erráticos das alterações climáticas.

É uma missão urgente. No horizonte pode estar uma crise alimentar, diz o Painel Internacional sobre Alterações Climáticas, visto que as inundações e as secas ligadas às mudanças no clima já afetam a oferta e o preço dos alimentos. Um relatório recente alerta que a quantidade de colheitas produzidas globalmente pode cair até 30% nos próximos 30 anos. A escassez de água é mais um fator de stress no sistema, ameaçando as colheitas de trigo, milho e arroz – alimentos presentes em cerca de metade de todas as calorias que consumimos.

Estes 3 alimentos básicos estavam na lista de alvos da expedição, que também procurou versões selvagens de culturas como o feijão-bambara, chícharos ou milhete – nomes pouco familiares fora das suas regiões nativas. Alimentos como cevada, beringela, cenoura e banana também estavam incluídos.

Substituir o que comemos agora não é o objetivo, diz Hannes Dempewolf, cientista chefe de iniciativas globais da Crop Trust, a organização internacional que fez a gestão deste projeto de 10 anos.

"Estamos todos muito ligados aos nossos alimentos e, devido às diferentes tradições culturais, é muito difícil substituir algo por completo", diz Dempewolf.

A ideia passa por ajudar as colheitas a tornarem-se mais resistentes e adaptáveis através de um processo de criação que ajusta as variedades domesticadas com genes emprestados por parentes selvagens que conseguem sobreviver à seca, à salinidade ou a doenças.

A inclusão de culturas variadas na investigação também pode dar origem a uma gama mais diversificada de alimentos – dos quais podemos vir a depender perante a ameaça das alterações climáticas. Determinados alimentos só são importantes em alguns países em desenvolvimento, mas outros são importantes no mundo inteiro.

“Para dizer a verdade, e de maneira bastante dramática, a razão pela qual todos nós podemos vir a desfrutar de um pão daqui a 10 ou 20 anos pode muito bem ficar a dever-se a este projeto. Este trabalho ajuda a garantir a colheita de parentes selvagens de trigo que não tinham sido conservados anteriormente”, diz Dempewolf.

Abastecer os bancos de genes
A preservação ou manipulação de sementes não é uma novidade. Mas a domesticação limitou a diversidade genética das plantas ao longo do tempo, deixando as culturas que necessitamos mais propensas a doenças e vulneráveis ao clima. Perante um futuro incerto, e para injetar alguma resiliência no sistema alimentar, os cientistas estão agora a centrar as suas atenções nas riquezas genéticas presentes na natureza.

Esta missão de busca e salvamento faz parte de um empreendimento mais amplo. Existe uma rede global de cerca de 1750 bancos de dados que já possui uma vasta coleção de sementes e outros materiais vegetais. O mais famoso é o Silo Global de Sementes de Svalbard, na Noruega, considerado o derradeiro plano de apoio para a diversidade de sementes mundial, sejam domesticadas ou selvagens.

No Equador, cientistas procuram parentes selvagens de batatas, beringela, arroz e batata doce.
Fotografia de L.M. Salazar, Crop Trust

Os projetos de preservação de sementes aumentaram nos últimos anos e agora existe um sistema organizado de 11 bancos internacionais, cada um com a sua especialidade: por exemplo, batata no Peru, arroz nas Filipinas, cereais de terra firme na Síria.

Mas estas reservas estão incompletas. O plano para iniciar uma operação de busca e salvamento começou com a equipa a verificar minuciosamente todas as coleções existentes para identificar quais eram espécies pouco representadas, ou em falta, e onde as encontrar.

Depois de 6 anos e mais de 3000 dias na estrada, a missão recolheu 4644 amostras de 371 espécies ou subespécies diferentes, cerca de 80% do que pretendiam recolher.

Sucessos e falhanços
O feijão-bambara foi uma história de sucesso. Este parente selvagem de uma espécie importante estava totalmente ausente dos bancos de genes, mas a pesquisa conseguiu desenterrar 17 amostras em solo nigeriano, “incluindo algumas muito difíceis de encontrar”, diz Dempewolf.

Cultivado principalmente por pequenos agricultores em regiões de África Ocidental, o feijão-bambara é muito resistente e consegue suportar temperaturas elevadas e períodos de seca, para além de crescer com facilidade em solos pobres. E pode ser consumido cru, assado ou processado noutros alimentos.

"Conheço bem o feijão-bambara", diz Joe DeVries, chefe da organização sem fins lucrativos Seed Systems Group que trabalha em África no setor das sementes há vários anos. "É uma colheita muito importante em diversos países, incluindo no Congo, em Madagáscar, no Chade e no Benim."

O problema, diz Joe, é que os esforços de cultivo modernos ignoraram a sua produção, resultando em quantidades menores.

Por outro lado, o chícharo, muito popular no Sul Asiático e em partes de África Oriental, tolera bem as secas e providencia alimento em momentos de necessidade. Mas o seu consumo em excesso pode provocar paralisia abaixo dos joelhos nos adultos ou danos cerebrais nas crianças. A pesquisa feita no Paquistão conseguiu recolher parentes selvagens do chícharo com níveis mais baixos de toxinas, aumentando as esperanças de se poder criar variantes mais seguras.

Os outros alimentos regionais presentes na lista incluem o milhete de África Oriental e o guandu do subcontinente indiano. A equipa também encontrou 3 espécies selvagens de batata no Peru e no Equador que estavam ausentes do banco de genes internacional de Lima. Também há uma versão selvagem da cenoura, encontrada em Portugal, que cresce bem em solos secos e salgados e que está a ser desenvolvida para ser cultivada no Bangladesh e no Paquistão. Na região que engloba a Arménia, o Chipre e o Líbano foi encontrada aveia selvagem resistente ao oídio – fungos parasitas que devastam culturas domesticadas. E no Quénia, os cientistas descobriram 4 parentes selvagens da beringela que estavam em falta nos bancos de genes.

Mas nem tudo são boas notícias. Por vezes, a equipa chegou tarde demais para conseguir recolher amostras. Dempewolf viu plantas de arroz selvagem no Nepal que foram vítimas de mudanças no seu habitat provocadas pelos humanos. "Para mim, isto foi um dos alertas mais graves e urgentes sobre a importância deste trabalho.”

A investigação também teve as suas aventuras. Na Nigéria, os cientistas tiveram de enfrentar inundações e uma insurgência do grupo jihadista Boko Haram. E no Equador, para encontrar uma variedade muito esquiva de arroz selvagem, foram necessárias botas de cano alto com pontas de metal para evitar os ataques de cobras venenosas. Em Itália, as esperanças em encontrar uma ervilha com tubérculos comestíveis estavam a desvanecer – até que um investigador local as conseguiu avistar pela janela do comboio (e desceu na estação seguinte).

Câmaras de conservação do Millennium Seed Bank, no Jardim Botânico Real de Kew, no Reino Unido.
Fotografia de Royal Botanic Gardens, Kew

Para além das amostras preciosas, os cientistas também começaram a valorizar plantas daninhas que normalmente dispensariam, diz Chris Cockel, coordenador do projeto no Millennium Seed Bank do Jardim Botânico Real de Kew, no Reino Unido. "A razão pela qual estas plantas são interessantes deve-se ao facto de terem sobrevivido à parte, sem nenhuma influência humana", diz Chris.

Caminho longo para colheitas difíceis
Para cada lote de sementes resgatadas, um terço ficou no país onde foram recolhidas. O restante foi levado para a segurança do Millennium Seed Bank que mantém as cópias originais, mas distribui amostras consoante solicitação. Chris Cockel já enviou remessas para bancos de genes de nove países, com outras três remessas prontas para enviar.

Nos bancos de genes, os criadores usam as sementes para começar a desenvolver variantes que tenham o sabor e a aparência de alimentos que conhecemos, mas com as vantagens de sobrevivência adquiridas na natureza. Este processo começa com o "pré-melhoramento", um processo complexo onde cruzam o parente selvagem com uma variedade domesticada para transferir as características úteis e filtrar as que não são necessárias. O pré-melhoramento está a decorrer em 19 das culturas para as quais foram encontrados parentes selvagens. Mas a espera é longa – pode demorar entre 10 a 20 anos ou mais – até que seja criada uma variante certificada que os agricultores possam usar.

Mas este método de conservação e reprodução de sementes fora do seu habitat natural também levanta alguma discórdia. Algumas pessoas argumentam que não é possível abranger tudo o que precisa de ser salvo. Outras dizem que, mantendo as sementes longe dos seus habitats naturais, os bancos de genes favorecem as necessidades dos investigadores em detrimento dos pequenos agricultores, que também conseguem preservar a diversidade nos campos. A Crop Trust salienta que o seu trabalho não enriquece apenas os bancos de genes. Também partilham o que é recolhido ao abrigo do Tratado Internacional da ONU sobre Recursos Genéticos Vegetais para Alimentos e Agricultura.

Esquerda: Uma digitalização colorida de uma semente de cenoura selvagem. Os investigadores da expedição encontraram uma cenoura selvagem em Portugal que é resistente a solos salgados e que está a ser desenvolvida sob a forma de cultura para ser utilizada no Bangladesh. Direita: Imagens de raios-x de sementes.
Fotografia de ROB KESSELER (ESQUERDA) E CROP WILD RELATIVES (DIREITA)

Joe DeVries diz que o cruzamento de parentes selvagens com culturas domésticas é algo que dura há muito tempo e que tem moldado de forma discreta o que cultivamos e comemos. "Se não tivermos acesso a parentes selvagens vivos, não conseguimos fazer os cruzamentos. É um trabalho extremamente importante e, enquanto geneticista de culturas, estou emocionado por saber que isto está a acontecer.”

A fase de recolha de sementes está concluída, mas o projeto só termina no próximo ano. Neste momento, estão a decorrer negociações para obter mais financiamento do governo norueguês, que já financiou o projeto.

“Estamos apenas a começar a desvendar o que existe por aí”, diz Chris Cockel.

Ainda existem parentes selvagens em falta, e o que foi recolhido não preenche o quadro geral.

Enquanto isso, as sementes que foram resgatadas estão disponíveis para os criadores e investigadores. Existe uma sensação de urgência entre a equipa, que pediu ajuda a agricultores antes de concluir a fase de pré-melhoramento, uma medida que pode encurtar o caminho entre a conservação e a criação de uma colheita à prova do clima, diz Dempewolf. "É algo que nos deixa muito entusiasmados.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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