Como Viver com Grandes Incêndios? Florestas Portuguesas Podem Ajudar a Responder

As florestas mundiais estão a ficar cada vez mais secas e com mais pessoas a viver nas suas proximidades, originando uma nova era de perigo – a não ser que encontremos uma forma de coexistir com as chamas.quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Quando um BMW emergiu a alta velocidade de uma cortina de fumo libertada por eucaliptos em chamas, seguindo diretamente contra um camião dos bombeiros, Filipa Rodrigues, que seguia no veículo dos bombeiros, nem teve tempo para reagir. “Só tive tempo de pensar: vamos bater.” Depois, o carro chocou frontalmente contra o camião dos bombeiros, arruinando ambos os veículos e obrigando os cinco voluntários a saírem para um inferno em chamas.

Estávamos no verão de 2017 e estes bombeiros tinham acabado de atravessar as zonas exteriores da pior tempestade de fogo alguma vez testemunhada em Portugal, um presságio para uma nova era de mega-incêndios que rapidamente iriam fustigar paisagens desde Espanha à Austrália. Filipa Rodrigues, na altura com 24 anos, saiu do veículo e os seus óculos de segurança derreteram imediatamente no rosto; quando Filipa tirou os óculos, a pele veio atrás. E quando abriu os olhos para tentar ver alguma coisa através do fumo, viu eucaliptos em chamas a voar, levados pelos fortes ventos do incêndio.

Filipa não era profissional – tal como três gerações de familiares seus, era membro dos bombeiros voluntários, o corpo de combate a fogos que, desde os anos 1950, serve como a primeira linha de defesa contra incêndios em Portugal. Todos os verões, várias pessoas, incluindo médicos, professores, carteiros, estudantes universitários e não só, passam voluntariamente as suas férias num quartel de bombeiros onde aguardam pela palavra fogo.

Este não foi o primeiro incêndio de Filipa, mas ela nunca tinha visto nada assim: enquanto as chamas avançavam sem dar tréguas, com o camião a incendiar-se e os rádios derretidos, rapidamente percebeu que ia morrer. Os bombeiros tentaram puxar os passageiros do BMW para fora do carro – "Nós estávamos aos gritos, mas eles não responderam" – mas foram obrigados a recuar por causa do calor. Foi quando viram as chamas a engolir o BMW e os seus ocupantes. A coluna torcida de chamas que vinha na direção dos bombeiros parecia imparável.

“Parecia que o fogo ia levar o mundo inteiro”, diz Filipa.

De certa forma, Filipa estava correta. Este novo tipo de incêndio que eclodiu nas montanhas da região centro de Portugal, no dia 17 de junho de 2017, foi uma tempestade de fogo perfeita – algo que acontece quando uma atmosfera cada vez mais instável encontra uma paisagem de combustão fácil. E também serve de aviso para o futuro dos ecossistemas mediterrânicos, seja em Portugal, Espanha, Turquia, Grécia ou até na Califórnia, que tem ecossistemas semelhantes, sobretudo quando as alterações climáticas geram períodos de seca cada vez mais longos.

“Portugal é o canário na mina”, diz Tiago Oliveira, diretor da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF). Em 2017, Tiago era um cientista que fazia a gestão do controlo de incêndios para a Navigator, a empresa portuguesa de celulose que cultiva eucaliptos em enormes extensões para produzir papel e celulose.

Em 1998, depois de quase ter perdido a vida num incêndio que deflagrou numa plantação, Tiago Oliveira centrou-se numa questão: porque razão os incêndios pareciam estar a piorar em Portugal. Esta pergunta iria conduzi-lo a um doutoramento e a uma série de artigos sobre a ciência do fogo, em colaboração com investigadores de universidades como o MIT.

A sua conclusão: Portugal, tal como o Mediterrâneo em geral, estava a sofrer de uma confluência de duas tendências a longo prazo: o abandono abrangente de uma paisagem rural que se tornara economicamente irrelevante, juntamente com uma forte relutância do governo em conseguir conviver com o fogo.

“Se o nosso objetivo é excluir o fogo deste ecossistema, estamos condenados ao fracasso”, diz Tiago.

Quando os humanos se erguem, as florestas caem
É a eterna relação entre civilização e floresta: onde uma se eleva, a outra acaba por recuar. Tiago diz que, desde a Idade do Bronze, até à década de 1950, a civilização e a indústria apoiaram-se nos recursos fornecidos pelas florestas.

“Os camponeses misturavam palha de pinheiro com estrume para fazer adubo; usavam lenha para a lareira; usavam pastagens florestais para o gado; e faziam resinas e cera para a indústria.”

Os comerciantes e artesãos fenícios que navegaram pelo rio Ebro, no final da Idade do Bronze, encontraram inúmeras madeiras primitivas perfeitas para fazer carvão, necessário para forjar espadas de qualidade, bem como os machados que alimentavam as forjas. Os seus descendentes cartagineses cortavam as pontas das lanças dos romanos com as suas falcatas afiadas, e com espadas feitas de carvão de carvalhos das montanhas. Os romanos que arduamente os derrotaram, limparam as florestas ibéricas que restavam para uma nova indústria: produção vinícola, cabras e ovelhas – laticínios e lã – e para fazer os andaimes e as fundições das suas gigantescas minas de prata trabalhadas por escravos.

“Na antiguidade (na época dos romanos)”, diz Pedro Bingre do Amaral, professor no Instituto Politécnico de Coimbra e investigador nas áreas do Ordenamento do Território e Ambiente, “a paisagem portuguesa quase não tinha árvores”, tinham sido cortadas por uma série de civilizações em desenvolvimento.

Por volta do século XIV, as terras mais elevadas ficaram tão desflorestadas que os reis mandaram plantar pinheiros para controlar a erosão. Quando os portugueses começaram a navegar pelo mundo inteiro, cada navio de madeira que fazia a ligação entre Lisboa e o Estado da Índia, ou a Capitania da Baía – transportando riquezas, escravos e soldados do Império Português – exigia cerca de 2000 carvalhos e pinheiros.

No início do século XX, e sobretudo a partir da década de 1950, este padrão alterou-se. Portugal tinha 2% de cobertura florestal, mas no final do século já tinha quase 30%. Tiago Oliveira diz que isto se deve ao facto de, na década de 1950, os materiais sintéticos feitos a partir de petróleo terem substituído as fibras vegetais e animais, e os solventes e fertilizantes químicos feitos a partir de petróleo e de produtos químicos inorgânicos substituíram os produtos florestais. A agricultura industrial substituiu a carne de caça ou os animais – vacas, ovelhas, porcos e cabras – que pastavam na floresta. À medida que as populações rurais começaram a abandonar os terrenos, visto que as suas necessidades básicas já estavam preenchidas, as árvores regressaram, e com elas o fogo.

Para Filipa Rodrigues, este padrão, que os geógrafos chamam de “transição florestal” – o regresso das florestas a terras agrícolas abandonadas – pode ser descrito com uma estatística: quando o pai se voluntariou nos bombeiros, na década de 1980, “dependíamos de 20 profissionais”. Agora, eram sete. Durante mais de um século, as terras altas de Portugal foram perdendo a sua população. Filhos, irmãs e primos mudaram-se para Lisboa e depois para o Canadá, para a África do Sul ou para o Brasil.

“Temos um problema nas terras altas, e esse problema são as pessoas”, diz o bombeiro voluntário Hugo Carvalho, que trabalhava como carteiro na cidade vizinha de Proença-a-Nova, e que assistiu ao desaparecimento da população mais velha.

As árvores começaram a surgir em terrenos e campos abandonados, aglomerando-se contra uma vegetação densa no meio de arbustos que secavam e se transformavam em combustível com o calor do verão. E as árvores também invadiram casas abandonadas em torno das cidades, como se fossem armadilhas prontas a serem ativadas. Muitas das sementes destas árvores vieram com os ventos fortes do Atlântico.

Porém, ao contrário das florestas primitivas encontradas pelos marinheiros fenícios há 3000 anos, estas novas florestas eram meio selvagens, com traços de pinheiro atlântico juntamente com acácias e eucaliptos australianos.

Por outras palavras, 3 espécies de rápido crescimento, repletas de óleos essenciais, que evoluíram para se espalharem com os incêndios florestais.

À medida que o interior do país foi sendo fustigado por incêndios cada vez mais graves, lavrando áreas cada vez maiores, Tiago diz que o governo “ficou preso numa armadilha de combate a incêndios”. Perante os protestos públicos, a legislação portuguesa aprovou novas leis, compraram-se novos equipamentos, e o governo começou a mexer-se rapidamente para "extinguir" as pequenas labaredas que se podiam transformar em algo maior.

Entretanto, os problemas de fundo – campos abandonados, bombeiros voluntários em regime de sazonalidade, terrenos cheios de vegetação pronta para entrar em combustão – continuaram presentes. No verão de 2017, depois de mais de uma década de combate agressivo a pequenos incêndios por parte dos bombeiros, o interior do país estava atestado de combustível, à espera de uma faísca.

Tempestade de fogo perfeita
No dia 17 de junho de 2017, a faísca apareceu. Vários incêndios deflagraram nos vales em torno de Pedrógão Grande, alimentados por ventos de uma tempestade estranha que parecia ter um efeito de fole, soprando as labaredas em 3 frentes ativas enormes.

Nessa tarde de junho, Filipa Rodrigues e a sua equipa de bombeiros tinham acabado de extinguir um pequeno incêndio com mangueiras de alta pressão. Quando estavam a subir a montanha em direção a Pedrógão Grande, Filipa percebeu que a noite estava a cair mais cedo: havia tanta fuligem no ar que o céu estava negro.

Apesar de ainda não saberem, estavam a colocar-se numa situação que poucas pessoas testemunharam na Europa. Uma das poucas pessoas que assistiu a algo semelhante foi Marc Castellnou, cientista de fogo. Enquanto cientista principal da força de 5000 bombeiros profissionais da Catalunha, Marc Castellnou, tal como Tiago Oliveira, ficou perturbado com o aparecimento de incêndios furiosos e com um poder destrutivo sem precedentes.

“O poder de um incêndio”, explica Marc – enquanto passamos de carro por pinheiros ensolarados perto de Tivissa, a sua cidade natal, em direção ao local onde um incêndio tinha lavrado no mês anterior – “reduz-se ao combustível e à sua capacidade de abastecimento de oxigénio, ambos a crescerem juntamente com as florestas”. Quando Marc está a orientar os seus bombeiros, usa a metáfora das 5 gerações de incêndios florestais. A primeira geração, quando as árvores começaram a cobrir por inteiro as paisagens ibéricas, no início do século XX, e originaram incêndios com dimensões sem precedentes (...); a quarta geração, quando o crescimento das árvores e a expansão dos subúrbios começaram a colocar mais pessoas no caminho das florestas, dificultando quaisquer planos de combate a incêndios que antigamente dependiam da triagem dos terrenos; e a quinta geração, onde vários incêndios de grandes dimensões esgotam em simultâneo os recursos das equipas de combate a incêndios.

Na quinta geração, diz Marc, começamos a perder devido aos incêndios que nos flanqueiam e para os quais não existem recursos de combate. Em janeiro de 2017, a Comissão Europeia enviou Marc ao Chile, onde assistiu a algo categoricamente pior do que alguma vez tinha visto: uma nova era de mega-incêndios. Um incêndio florestal é o produto de uma reação química não-linear poderosa, a libertação de energia aprisionada nas ligações de carbono das árvores. A sua capacidade de propagação é diretamente, ou até exponencialmente, proporcional ao combustível disponível e à quantidade de energia e reatividade presentes na atmosfera.

Os incêndios mais poderosos conseguem criar o seu próprio clima. Os bombeiros ibéricos com quem falei para este artigo descreveram a experiência como algo semelhante a enfrentar tornados de fogo, ou o temido cogumelo da nuvem de fogo, onde uma nuvem de ar quente sobe na atmosfera e depois colapsa, alimentando ainda mais o fogo que lhe deu origem.

Marc diz que o que aconteceu no Chile foi muito pior: tratava-se de uma nuvem pyrocumulonimbus, um sistema de incêndio que atingiu os limites da atmosfera.

"Nunca tínhamos assistido a algo destas dimensões, nunca na história do Chile", disse a então presidente Michele Bachelet, enquanto visitava as cinzas de uma área com 5000 quilómetros quadrados que tinha sido transformada em paisagem lunar no espaço de dois dias – matando 11 pessoas e deixando milhares sem habitação. Só na cidade de Santa Olga arderam mais de mil casas.

Houve uma colisão entre a nova instabilidade presente na atmosfera e as florestas que, devido à falta de gestão, estavam repletas de combustível, diz Marc. Mais tarde, cientistas como Craig Clements, da Universidade Estadual de San Jose, nos EUA, levantariam a hipótese de que a pluma de fumo tinha atingido proporções capazes de chegar à troposfera; e no terreno, a teoria deu lugar à prática.

"Era impossível lutar contra algo assim", disse Marc Castellnou. "Só podíamos fugir e tentar mudar as condições no terreno para sufocar o incêndio."

Quando regressou à Europa, disse à Comissão Europeia que provavelmente poderiam assistir a eventos semelhantes – aos quais chamou de "mega-incêndios de sexta geração" – na Europa dentro de 5 anos. "As condições atuais no Mediterrâneo", disse Marc, "são as de amanhã na Europa Central".

Mas Marc subestimou a rapidez com que as coisas estavam a mudar. Passados 5 meses, estava a assistir a uma transmissão ao vivo do quartel dos Bombeiros de Pedrógão Grande, enquanto as chamas engoliam a floresta, e para onde a equipa de Filipa Rodrigues se estava a dirigir.

Mais tarde, Marc viria a dizer que era uma repetição do Chile, uma repetição do "cenário de pesadelo" que acontece quando os ventos frios do Atlântico encontram o verão quente do Mediterrâneo. Nas terras altas portuguesas, os incêndios dizimaram florestas densas que estavam ao abandono sob uma atmosfera que vibrava com o calor acumulado, como uma coluna de ar instável e superaquecido que fluía para cima, como se existisse uma chaminé por cima da região. Centenas de turistas e pessoas que ali foram passar o fim de semana, acostumados aos incêndios regulares no interior, fugiram por estradas estreitas e cobertas de vegetação, rumo à segurança da costa.

Mas muitos fugiram diretamente para uma armadilha mortal. Geralmente, a noite acalma o fogo. Tiago Marques, Comandante dos Bombeiros Voluntários de Proença-a-Nova, diz que os bombeiros cercam um incêndio durante o dia para o extinguirem à noite, altura em que a descida das temperaturas e o aumento da humidade jogam a favor dos bombeiros.

Mas não foi o que aconteceu. Este incêndio, como o cientista Craig Clements viria mais tarde a concluir, aqueceu demasiado. Em vez de diminuir a intensidade do fogo, o orvalho fervia no meio das chamas, como acontece com as pedras de sauna quando levam com água, enviando um pulso de vapor superaquecido até aos limites da atmosfera. Este vapor, acumulado nos limites gelados da atmosfera terrestre, condensou e caiu como se fosse granizo, empurrando uma massa de ar gelado para baixo, em direção ao incêndio.

Em qualquer reação de combustão, mais compressão significa mais calor e potência: esta frente de descarga fez a diferença entre um incêndio normal e uma fornalha infernal. No vídeo de Pedrógão Grande, Marc Castellnou observou esta massa em queda a pressionar horizontalmente a coluna de fogo em direção às árvores. Ao anoitecer, 8 quilómetros quadrados de floresta, repletos de pessoas em fuga, explodiram em chamas.

Perdidos no fumo denso, os condutores chocaram contra as árvores, contra os rails  de segurança das estradas e uns contra os outros, criando bloqueios mortais – o fogo cresceu muito mais depressa do que alguém conseguia antecipar.

Era deste inferno que o casal que seguia aterrorizado no BMW estava a tentar fugir – e onde Filipa Rodrigues e restantes companheiros estavam agora presos. Os bombeiros cambalearam em direção ao BMW, a poucos metros de distância, mas foram forçados a recuar devido ao calor que lhes queimou a pele através dos fatos à prova de fogo. E observaram as chamas a engolirem o carro.

Os bombeiros tentaram chegar a um cruzamento, com a pele a borbulhar e os pulmões a ceder, sem o veículo, com os rádios destruídos, e o fogo a aproximar-se rapidamente. Um dos bombeiros acabou por falecer; e o destino dos outros podia ter sido semelhante – não fosse uma carrinha que foi forçada a recuar devido às chamas e que passou por ali.

Os que escaparam tiveram muita sorte. As imagens dos que ficaram presos no fogo deixaram traumas na consciência de todos os portugueses, sobretudo os relatos e as evidências forenses dos bloqueios mortais na Estrada Nacional 236, rapidamente apelidada de Estrada da Morte.

"Eles morriam se fugissem e morriam se ficassem nos carros", diz Nadia Araceli Piazza, uma advogada que perdeu o filho e o ex-marido nos incêndios.

A causa de morte, tal como as outras 65 pessoas que perderam a vida naquele dia de junho – a maior parte delas em estradas como a EN236 – foi “carbonização”. Muitas das pessoas foram encontradas envoltas nos seus entes queridos, com os músculos tensos devido ao calor das chamas nos momentos finais de vida.

Marc Castellnou e Tiago Oliveira dizem que, durante os últimos 3 anos, temos observado este tipo de dinâmica pelo mundo inteiro: incêndios de sexta geração a deflagrarem em climas mediterrânicos por todo o lado, englobando ecossistemas desde as Américas à Austrália. Ou seja, regiões onde os ventos frios do oceano sopram terras banhadas pelo sol, com montanhas secas repletas de vegetação pronta para entrar em combustão.

Em 2018, morreram 83 pessoas nos incêndios na Grécia, provocados por uma longa descida de ar semelhante. E pela primeira vez na história, todos os países europeus foram fustigados por incêndios. Este ano, uma pyrocumulonimbus, como a dos incêndios de outubro de 2017 em Portugal, desabou como se fosse uma queda de água sobre as chamas que se espalharam pelo sul da Califórnia – onde o desenvolvimento suburbano descontrolado bloqueou os trilhos de incêndio tradicionais – matando 90 pessoas e quase dizimando a vila de Paradise.

Viver com o fogo
Marc Castellnou e Tiago Oliveira fazem parte de uma nova vaga de bombeiros florestais que acreditam que a solução passa por uma nova forma de viver com o fogo.

Ambos os cientistas acreditam que a melhor estratégia recai sobre uma abordagem feita a tempo inteiro de defesa contra incêndios – ao contrário da abordagem sazonal dos bombeiros – com bombeiros a construir e a manter linhas de incêndio durante o ano inteiro, estando assim preparados para combater os incêndios quando necessário, e também manter o desenvolvimento fora dos trilhos de incêndio estabelecidos.

Mas o problema dos incêndios não vai ficar resolvido, diz Tiago Oliveira, sem a evolução de um novo tipo de paisagem rural, onde as pessoas valorizam de novo a floresta e defendem a terra do fogo, porque a usam novamente, seja para pastar ovelhas e cabras, para apicultura, turismo ou para gerar energia de biomassa a uma escala menor.

“Isto não é tão pomposo como comprar helicópteros novos”, admite tristemente, “e não tem o romance rural dos bombeiros”. Tiago também diz que “nunca ninguém foi chamado de herói por evitar uma crise antes de esta acontecer”.

Ainda assim, Tiago acredita que o modelo da chamada governação policêntrica, onde é concedida à população local a autoridade e os recursos para resolverem os seus problemas de incêndio localmente, em combinação com uma economia rural revitalizada, são o único caminho a longo prazo para o interior do país, e para outros ecossistemas semelhantes, como acontece na Califórnia, no Chile, na Grécia ou em Espanha. Só assim será possível gerir o enorme risco de incêndio – um risco que se está a mover para norte, para terras no resto da Europa que não estão preparadas para enfrentar incêndios.

E já é possível ver alguns exemplos das mudanças. A empresa de tecnologia Novatech mudou-se de Lisboa para Proença-a-Nova, e dezenas de jovens trabalhadores estão a constituir família e a regressar às suas casas no campo onde limpam vegetação e cultivam pomares. Na aldeia vizinha de Ferraria de São João, o hoteleiro Pedro Pedrosa levou os seus vizinhos a arrancarem os eucaliptos que invadiam a aldeia, e construíram terraços onde plantaram sobreiros nativos, cujas propriedades atuam como retardantes de fogo. Pedro Pedrosa diz que foram carvalhos com 200 anos de idade que quebraram o mar de fogo antes de este conseguir consumir a aldeia.

"Precisamos de nos afastar de uma abordagem que vem de cima para baixo", diz Tiago Oliveira. Durante muito tempo, as populações rurais confiaram na autoridade centralizada do estado, e nos inestimáveis bombeiros voluntários, para travar o problema dos incêndios. “Se conseguirmos usar o perigo de incêndio de forma a inspirar uma recolonização do nosso interior rural, Portugal pode tornar-se num caso de estudo para o resto da Europa.”

Mas Tiago Oliveira sabe que existe uma bomba relógio em pano de fundo. As alterações feitas em Lisboa não chegaram a grande parte do interior, onde pinheiros queimados ainda se erguem sobre colinas em cinzas, com eucaliptos cheios de óleo a nascer por baixo. De uma forma quase surreal, o governo não sabe quem são os proprietários de grande parte das terras no interior, algo que praticamente impossibilita o estabelecimento de políticas fundiárias, embora estejam a decorrer investigações.

Filipa Rodrigues diz que a população rural está mais fragilizada e desmoralizada do que nunca. Dois anos depois dos incêndios de 2017, as marcas continuam indeléveis.

"Nunca tínhamos falhado antes", diz Filipa na sua casa em Castanheira de Pêra. "Agora, quando vejo fogo" – apontando para a sua lareira – "começo a tremer. Vivemos com as consequências do que aconteceu, as pessoas que perdemos, todos os dias.”

“Parece fácil abandonar uma terra que os outros já estão a abandonar.” Filipa não quer sair, mas com uma economia local limitada, uma filha pequena e um enorme risco de incêndio, não sabe como poderá ficar. A maioria das suas amigas vive em Lisboa. Todos os dias, Filipa vê eucaliptos a crescerem de forma descontrolada e ilegal, num terreno a poucos metros da casa onde dorme.

Filipa não sabe quem é o proprietário, nem quando vai chegar a próxima faísca.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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