Desflorestação Pode Gerar Mais Doenças Infecciosas

À medida que mais e mais florestas vão sendo dizimadas pelo mundo inteiro, os cientistas temem que este tipo de desflorestação possa dar origem à próxima pandemia mortal.

Monday, December 9, 2019,
Por Katarina Zimmer
Clareiras abertas para a pecuária na floresta tropical ao longo da autoestrada Trans-Amazónica. Este tipo de ...
Clareiras abertas para a pecuária na floresta tropical ao longo da autoestrada Trans-Amazónica. Este tipo de desflorestação está ligado à disseminação de doenças infecciosas como a malária.
Fotografia de Richard Barnes, Nat Geo Image Collection

Em 1997, colunas de fumo pairavam sobre as florestas tropicais da Indonésia, enquanto uma área do tamanho da Áustria era queimada para dar lugar à agricultura. Estes incêndios foram exacerbados pela seca; e as árvores, abafadas pela cortina de fumo, não conseguiam dar frutos, deixando os morcegos-da-fruta sem outra opção a não ser voar para outro lugar em busca de comida, transportando consigo uma doença mortal.

Pouco tempo depois, estes morcegos fixaram-se em pomares na Malásia e os porcos da região começaram a adoecer – presumivelmente depois de terem comido frutas mordiscadas pelos morcegos – assim como os criadores de porcos locais. Em 1999, 265 pessoas tinham desenvolvido uma inflamação cerebral grave e 105 morreram. Foi a primeira ocorrência conhecida do vírus Nipah em humanos que, desde então, provocou uma série de surtos recorrentes no Sudeste Asiático.

Esta foi uma de várias doenças infecciosas, geralmente confinadas à vida selvagem, que transbordaram para os humanos em áreas submetidas a desflorestações repentinas. Nas últimas duas décadas, um número crescente de evidências científicas sugere que a desflorestação, que despoleta uma complexa cadeia de eventos, cria condições para que uma série de patógenos mortais – como os vírus Nipah e Lassa, e parasitas que provocam a malária e a doença de Lyme – se disseminem pelos humanos.

Apesar de atualmente as queimadas generalizadas continuarem nas florestas tropicais da Amazónia e em algumas partes de África e do Sudeste Asiático, os especialistas têm demonstrado a sua preocupação com a saúde das pessoas que vivem junto às zonas de desflorestação. E também temem que a próxima pandemia mortal possa surgir destes atos.

"Está bem estabelecido que a desflorestação pode ser um fator muito forte de transmissão de doenças infecciosas", diz Andy MacDonald, ecologista de doenças no Instituto de Pesquisa da Terra da Universidade da Califórnia. "É um jogo de números: quanto mais degradamos e dizimamos habitats florestais, mais probabilidades temos de assistir a casos de epidemias infecciosas.”

Ligação direta
Suspeita-se que a malária – que mata mais de 1 milhão de pessoas por ano devido à infeção de parasitas Plasmodium transmitida por mosquitos – acompanha os atos de desflorestação. No Brasil, apesar de os esforços de controlo terem reduzido drasticamente a transmissão de malária no passado – reduzindo 6 milhões de casos por ano, na década de 1940, para apenas 50.000 na década de 1960 – os casos têm novamente aumentado de forma constante, em paralelo com o rápido desflorestamento e expansão da agricultura. No virar do século, existiam mais de 600.000 casos de infeção por ano na bacia amazónica.

O trabalho realizado no final dos anos 1990 por Amy Vittor, epidemiologista no Instituto de Patógenos Emergentes da Universidade da Flórida – e outros trabalhos – sugeriu um motivo para este aumento de infeções. A desflorestação parece criar um habitat ideal ao longo das margens das florestas para o mosquito Anopheles darlingi se reproduzir. Esta espécie de mosquito é a maior transmissora de malária na Amazónia. Através de investigações detalhadas feitas na Amazónia peruana, Amy encontrou um número mais elevado de larvas em poças de água mornas e parcialmente à sombra, o tipo de poças que se formam ao lado de estradas florestais e onde a água já não é absorvida pelas árvores.

“É nestes locais que o Anopheles darlingi gosta de estar”, diz Amy.

Um homem a pulverizar inseticida em Matadi, na República Democrática do Congo, para matar o mosquito Aedes que transmite o vírus da febre amarela.
Fotografia de William Daniels, Nat Geo Image Collection

Numa análise complexa feita com dados saúde e informações de satélite, publicada recentemente na Proceedings of the National Academy of Sciences, Andy MacDonald e Erin Mordecai, da Universidade de Stanford, revelaram que a desflorestação da bacia amazónica tem um impacto muito significativo na transmissão de malária, informações que se alinham com investigações feitas anteriormente.

Os estudos apontam que, entre 2003 e 2015, o aumento anual de 10% na perda de floresta levou a um aumento de 3% nos casos de malária. Por exemplo, num dos anos do estudo, uma área adicional de floresta desmatada de 1600 km quadrados – o equivalente a quase 300.000 campos de futebol – foi associado a 10.000 casos de malária adicionais. Este efeito foi mais pronunciado no interior da floresta, onde alguns trechos de floresta intocados proporcionam habitats húmidos favoráveis aos mosquitos.

Com os incêndios que continuam a arder na Amazónia, estes resultados não são um bom sinal. Os dados mais recentes, divulgados em novembro, revelam que, só este ano, já foi destruída uma área 12 vezes maior do que a cidade de Nova Iorque.

"Estou preocupado com o que vai acontecer quando os incêndios terminarem", diz MacDonald.

É difícil generalizar sobre a ecologia dos mosquitos, que varia de acordo com a espécie e região, sublinha Amy. Em África, os estudos descobriram pouca associação entre a malária e a desflorestação – talvez porque no continente africano as espécies de mosquitos gostam de se reproduzir em corpos de água iluminados pelo sol e preferem as terras agrícolas abertas em vez de áreas sombreadas de floresta. Mas em Sabá, uma região do Bornéu malaio, os surtos de malária acompanham o desflorestamento desenfreado que visa criar espaços para as explorações de óleo de palma e outras plantações.

Febre da selva
Os mosquitos não são as únicas criaturas capazes de transmitir doenças aos humanos. Cerca de 60% das novas doenças infecciosas emergentes em humanos – incluindo o HIV, o Ébola e o Nipah, todas com origem em animais que vivem na floresta – são transmitidas por uma variedade de outros animais, a grande maioria animais selvagens.

Num estudo feito em 2015, investigadores da Ecohealth Alliance, uma organização sem fins lucrativos sediada em Nova Iorque que rastreia doenças infecciosas a nível global, descobriram que, “quase 1 em cada 3 surtos de doenças novas e emergentes está relacionado com alterações na utilização da terra, como o desflorestamento” – informações publicadas no Twitter pelo presidente da organização, Peter Daszak, no início deste ano.

Nas florestas, muitos dos vírus coexistem de forma inofensiva com os seus animais hospedeiros porque evoluíram em conjunto. Mas os humanos, quando se aventuram na floresta ou alteram o habitat florestal, podem tornar-se hospedeiros involuntários de patógenos.

"Estamos a mudar completamente a estrutura da floresta", diz Carlos Zambrana-Torrelio, ecologista de doenças na Ecohealth Alliance.

Atração fatal
As doenças também podem surgir quando novos habitats atraem espécies portadoras de doenças vindas da floresta.

Por exemplo, na Libéria, as clareiras florestais feitas para as plantações de óleo de palma atraem hordas de ratos, que geralmente vivem na floresta, e que são atraídos pela abundância de frutos de palma em torno das plantações. Os humanos podem contrair o vírus Lassa quando entram em contacto com alimentos ou objetos contaminados com fezes ou urina de roedores portadores do vírus, ou fluidos corporais de pessoas infetadas. Nos humanos, o vírus provoca febre hemorrágica – o mesmo tipo de doença desencadeada pelo vírus Ébola – e na Libéria matou 36% das pessoas infetadas.

Os roedores portadores de vírus também foram encontrados em áreas desflorestadas no Panamá, na Bolívia e no Brasil. Alfonso Rodriguez-Morales, investigador médico e especialista em doenças tropicais da Universidade Tecnológica de Pereira, na Colômbia, teme que o alcance dos ratos aumente depois do ressurgimento dos incêndios na Amazónia.

Estes processos não estão limitados às doenças tropicais. Algumas das investigações de MacDonald também revelam uma associação curiosa entre o desflorestamento e a doença de Lyme no nordeste dos Estados Unidos.

A bactéria Borrelia burgdorferi, que provoca a doença de Lyme, é transmitida por carraças que dependem de veados – que vivem nas florestas – para procriar e obter sangue suficiente para sobreviver. Porém, a bactéria também é encontrada em alguns ratos que prosperam em florestas fragmentadas por povoações humanas, diz MacDonald.

A repercussão de doenças infecciosas nos humanos tem mais probabilidades de ocorrer nos trópicos, onde a diversidade de vida selvagem e patógenos é maior. Nestas regiões, muitas das doenças que são transmitidas por uma enorme variedade de animais – desde insetos que sugam sangue a caracóis – foram ligadas ao desflorestamento. Para além das doenças conhecidas, os cientistas temem que muitas das doenças mortais ainda desconhecidas possam estar ocultas nas florestas, e que podem ficar expostas à medida que as pessoas dizimam mais áreas florestais.

Zambrana-Torrelio observa que a probabilidade de transbordo de doenças de animais para pessoas pode aumentar à medida que o clima aquece, empurrando os animais, juntamente com os vírus que transmitem, para regiões onde nunca existiram antes.

Saber se estas doenças ficam confinadas aos limites florestais ou se os ultrapassam, desencadeando uma possível pandemia, depende da sua forma de transmissão, diz Amy Vittor. Alguns vírus, como o Ébola ou o Nipah, podem ser transmitidos diretamente entre pessoas, permitindo teoricamente que os vírus viajem pelo mundo enquanto existirem humanos.

O vírus Zika, que foi descoberto nas florestas do Uganda no século XX, só conseguiu viajar pelo mundo e infetar milhões de pessoas porque encontrou um hospedeiro no Aedes aegpti, um mosquito que vive em zonas urbanas.

“Detesto pensar que outro, ou outros, patógenos podem fazer algo semelhante. Devemos encarar esta possibilidade e pensar em formas de prevenção”, diz Amy.

Um novo serviço
Os investigadores da Ecohealth Alliance dizem que a contenção doenças pode ser considerado um novo serviço ecossistémico, ou seja, um benefício adquirido pelos humanos de forma gratuita a partir dos ecossistemas naturais, tal como acontece com o armazenamento de carbono e a polinização.

Para sustentar este argumento, a equipa tem estado a trabalhar no Bornéu malaio para especificar os custos da malária – incluindo cada cama hospitalar e cada seringa usada pelos médicos. Em média, descobriram que o governo da Malásia gasta cerca de 5 mil euros por cada novo paciente com malária – muito mais do que gastam para controlar a malária em algumas regiões, diz Zambrana-Torrelio.

Com o passar do tempo, os custos vão acumulando e superam os lucros que podem ser obtidos com o desflorestamento. É um argumento financeiro convincente para deixar algumas florestas de pé.

Daszak e a sua equipa estão a começar a trabalhar com o governo da Malásia para incorporar este aspeto no planeamento de utilização de terrenos, e estão a fazer um projeto semelhante com as autoridades da Libéria para calcular o custo dos surtos da febre de Lassa no país.

MacDonald diz que esta é uma ideia com mérito. "Se conseguirmos preservar o ambiente, talvez seja possível proteger a nossa saúde. Creio que esse é o objetivo correto a ter em mente."
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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