País das Caraíbas Pode Ser o Primeiro ‘À Prova de Furacões’

Em 2017, quando o furacão Maria destruiu Dominica, a devastação deu origem a um projeto ambicioso de adaptação total às alterações climáticas.segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Tudo começou na noite de 18 de setembro, há dois anos atrás. Os ventos ganharam força, as ondas começaram a rebentar com intensidade e o céu ficou negro.

Sem que o povo de Dominica soubesse, o furacão Maria estava lentamente a ganhar a força necessária para destruir mais de 90% das estruturas da ilha, afetar a sua economia e forçar um pequeno país com poucas responsabilidades nas alterações climáticas a considerar as consequências das mesmas.

No entanto, apesar dos sinais ameaçadores que pairavam sobre Dominica, muitos dos seus habitantes dizem que não estavam mais preocupados do que o habitual. Afinal, a pequena ilha das Caraíbas estava habituada a lidar com furacões. Dominica fica a pouco mais de 800 km a nordeste de Caracas, na Venezuela, e está situada entre uma série de ilhas que ligam o Mar das Caraíbas ao Oceano Atlântico. E apesar de a temporada de furacões de 2019 ter poupado o país, a ilha pode não vir a ter a mesma sorte no futuro.

Numa só noite, Dominica foi devastada. Mas, devido à destruição, o país estabeleceu um novo objetivo: tornar-se na primeira nação do mundo resistente ao clima, capaz de prosperar perante uma nova era de tempestades agravadas pelas alterações climáticas.

Tempestade em aproximação
Quando o furacão Maria se estava a aproximar, os habitantes da ilha depressa perceberam que a tempestade seria muito pior do que estavam à espera.

"Nós estávamos colados ao rádio para perceber o que se estava a passar", diz Ann Aeevieal, cozinheira no Hotel Tamarind Tree. "Eles disseram que era um furacão de Categoria 2, mas depois disseram que era de Categoria 3."

Enquanto os gases de efeito estufa continuam a ser libertados na atmosfera, aquecendo o planeta, furacões como o Maria devem crescer em número e intensidade. Os estudos demonstram que o Oceano Atlântico está a aquecer, fazendo com que este tipo de tempestades se tornem cada vez mais comuns, mais intensas e duradouras.

A água quente do oceano funciona como uma espécie de combustível para os furacões, alimentando-os como se fossem um motor. Quanto mais quente a água fica, mais o motor acelera, crescendo com mais rapidez – despejando assim mais água. Quando o Maria se aproximou do Mar das Caraíbas, ganhou vida, um processo que os meteorologistas descrevem como "rápida intensificação".

Stephanie Astaphan, funcionária do Hotel Secret Bay da ilha, diz: "Quando vivemos  no cinturão dos furacões, ficamos insensíveis. Mas quando Anderson Cooper, jornalista norte-americano, disse: ‘A ilha de Dominica está prestes a enfrentar uma tempestade de Categoria 5’, senti que estava a viver uma experiência fora do normal.”

Foi então que a tempestade atingiu a costa e o mar entrou pela casa de Sheila Jelviel, padeira que vive em Scott's Head, um bairro na região sudeste da ilha, uma das zonas onde o furacão teve efeitos mais devastadores. “A porta da frente foi destruída por um barco e tivemos de sair pela janela dos fundos para escapar", diz Sheila.

Pensar na resiliência
Apesar de este furacão ter sido o pior que Dominica alguma vez enfrentou, a economia do país já foi abalada várias vezes durante a última década, lidando com enormes furacões e tempestades tropicais em 2010, 2013 e 2015.

Em 2015, o furacão Erika arrasou cerca de 90% do PIB de Dominica. Em comparação, a Organização Mundial do Comércio estima que o furacão Maria custou a Dominica pouco mais de 2 anos de produção económica. Os especialistas financeiros preveem que Dominica demore cerca de 3 anos a recuperar a economia.

Cinco dias depois da tempestade, o primeiro-ministro de Dominica, Roosevelt Skerrit, dirigiu-se à Assembleia Geral das Nações Unidas.

"Venho diretamente da linha da frente da guerra contra as alterações climáticas", disse Skerrit no seu discurso. “Antigamente, preparávamo-nos para uma tempestade forte por ano. Agora, formam-se milhares de tempestades a partir de uma brisa no meio do Atlântico, e todas se alinham para nos atingir com força e fúria máximas.”

O discurso apaixonado de Skerrit foi um apelo para que os financiamentos fizessem de Dominica a primeira nação completamente resistente ao clima. Isto exige não só substituir o que se perdeu, mas também construir um futuro onde as alterações climáticas não produzam uma tempestade com a escala do furacão Maria. Dominica também está a fazer esforços para construir edifícios à prova de furacões e uma economia mais diversificada, incluindo um setor de turismo que atraia mais consumidores e um sistema agrícola que cultive uma variedade de frutas e vegetais para serem consumidos localmente, em vez de depender só da exportação bananas.

Mas a ilha também precisa de parecer imaculada. Apesar de a economia de Dominica ter crescido com a venda de produtos agrícolas e de madeira, a própria ilha é um produto em si. Com uma área de 750 km quadrados, a ilha tem 365 rios, o suficiente para qualquer pessoa nadar todos os dias num rio novo durante um ano. Existem vulcões ativos, florestas tropicais exuberantes, recifes de coral impressionantes e praias de areia negra. Nos sites das agências de viagens, é considerada a Ilha da Natureza, um destino para aventureiros ou praticantes de ioga abastados que procurem um refúgio.

“Os desafios não se cingem apenas à infraestrutura. Na nossa opinião, a resiliência depende do quão vulnerável estamos”, diz Pepe Bardouille, CEO da Agência de Execução de Resiliência Climática do governo de Dominica (CREAD).

No meio de novas políticas e regulamentos, Bardouille diz que existe uma nova consciência coletiva que se prepara agora para os futuros furacões como o Maria.

"Cabe a cada cidadão saber o que precisa de fazer por si próprio. Tomar decisões sobre o que estão a construir, saber se têm seguro, são decisões individuais – não são coisas que dependem do governo.”

Dominica forte
A agência CREAD foi criada no início de 2018 para garantir que todos os setores que estão em recuperação levam em consideração a resistência climática. Sejam códigos uniformizados de construção, produtos agrícolas variados, novas fábricas de energia geotérmica, instalações reforçadas de assistência médica, infraestruturas de transporte de confiança em terra e no mar – o trabalho da CREAD passa por descobrir uma forma de proteger tudo o mais depressa possível.

“Como é que mantemos a sociedade e a economia de um país pequeno, com uma base tributária limitada e um orçamento baixo, enquanto lidamos com diversas adversidades climáticas? São estes os desafios”, diz Bardouille.

Um dos componentes do plano de Dominica para se tornar resiliente ao clima envolve a proibição de plásticos. O raciocínio por detrás desta proibição resume-se à infraestrutura. O sistema de recolha de lixo de Dominica, administrado pela Dominica Waste Management Corporation – empresa criada pelo governo – recolhe lixo que acaba num aterro que já está pelas costuras. Mas e se os habitantes conseguissem fazer a compostagem individual dos itens descartáveis nas condições quentes e húmidas das Caraíbas? Provavelmente, conseguiriam diminuir ou evitar por completo a necessidade de máquinas de reciclagem que podem não sobreviver às próximas versões do Maria.

Nas suas estâncias e parques nacionais, Dominica faz jus ao título de Ilha da Natureza – é difícil encontrar lixo de qualquer tipo. Mas nas cidades da ilha, se conduzirmos pelas estradas ou se espreitarmos para dentro de uma vala de drenagem, o lixo plástico está por toda a parte.

Sem este lixo à vista, Dominica seria mais asseada, e uma ilha das Caraíbas imaculada seria um lugar onde os turistas iriam querer estar e gastar dinheiro.

“Dizer que se trata apenas de reconstruir é um bocado redundante”, diz Bardouille.

"Creio que se subestima gravemente o trauma e o impacto que isto provocou no tecido da nossa sociedade. Agora, precisamos de olhar para a força económica da nossa nação.”

Em 2018, Dominica aprovou a Lei de Resiliência Climática, que entrou em vigor no primeiro dia de 2019. No discurso sobre o orçamento da nação, feito em julho deste ano, o primeiro-ministro destacou o longo caminho percorrido pelo país – a economia cresceu 9%; o turismo está em ascensão e todas as escolas estão a funcionar; um novo hospital de última geração começou a receber pacientes em agosto e já foram construídas 500 habitações, com outras 1000 em construção.

E o governo tem esperança de que a produção de banana regresse aos níveis pré- Maria e, para garantir a segurança alimentar, distribuiu sementes aos agricultores para outras culturas básicas, como taro, inhame, batata e maracujá, que são vendidos localmente.

Progresso e estagnação
Estamos no fim de semana da Páscoa em Scott's Head e o céu está completamente limpo. O oceano banha a costa com uma tranquilidade meditativa e o vento mal se sente. É difícil imaginar o caos que desfez este bairro em pedaços e que deixou a ilha tão desfigurada ao ponto de ser descrita como uma zona de guerra.

Sheila Jelviel, cuja porta foi atingida por um barco durante o furacão, mostra-nos a sua casa, agora quase reconstruída. O governo ajudou-a com duas janelas e uma porta, mas esta mulher de 64 anos agradece sobretudo aos seus vizinhos pela ajuda na reconstrução da casa. A comunidade de Scott's Head é muito unida, diz Sheila, e cuidaram uns dos outros a seguir à tempestade.

Ali perto, Hidjes Adams, oficial de relações públicas de uma cooperativa de pesca local, encosta-se a uma estação de abastecimento de combustível de barcos de pesca, tentando conter as lágrimas enquanto pensa nos dias que se seguiram à tempestade.

“O furacão era um monstro. Os danos ainda persistem. Vi pessoas famintas a lutarem por água e comida. Enquanto falamos, ainda há muitas pessoas sem teto.”

É aqui que, por vezes, os cidadãos e o governo entram em conflito. A reconstrução é dispendiosa e a reconstrução de uma casa ou de uma empresa que consiga suportar um furacão de Categoria 5 é ainda mais cara. Muitos dos hotéis e estâncias de luxo beneficiaram do Programa de Cidadania por Investimento do país, que oferece um segundo passaporte a estrangeiros que invistam de forma significativa em empresas locais.

Algumas comunidades mais pequenas e com salários mais baixos, como acontece em Scott's Head, sentem-se negligenciadas. Sheila diz que, com alguma ajuda, podia comprar um fogão maior e fazer mais pão todas as manhãs. “Eu podia ganhar mais dinheiro e tinha mais possibilidades de fortalecer a minha casa.”

“Não conseguimos reconstruir o bairro, mas existe aqui muito potencial.”

Contudo, o que une o país é o sentimento de patriotismo que foi forjado a partir dos traumas partilhados. Nas roupas e nos prédios podemos ver o mantra da ilha: "Dominica forte".

É desta forma que todos os cidadãos parecem descrever a nação – forte no rescaldo da destruição.

“As pessoas estão a levar as coisas mais a sério e a construir tudo muito mais forte”, diz Aeevieal, do Hotel Tamarind Tree. "Eu penso que é um bom regresso. Fizemos um bom trabalho.”

Renascimento
A natureza também está a sarar as suas cicatrizes.

Quando o furacão Maria arrasou Dominica em 2017, os ventos eram tão fortes que as folhas foram arrancadas das árvores.

Foi algo que deixou Bertrand Jno Baptiste, o principal especialista em aves da ilha, muito preocupado. Será que as florestas ainda conseguiam acolher o papagaio-imperial? Esta ave, considerada o símbolo nacional do país, está em perigo e só existe nesta ilha. Baptiste passou horas à procura dos papagaios.

“Pensei que os papagaios não fossem regressar. Foi muito mau.” Mas, depois de 13 horas de observação, apareceu um, e depois outro e outro. Agora, as aves são normalmente avistadas a voar por cima do dossel da floresta tropical.

As árvores na orla da floresta ainda mostram as cicatrizes do Maria. As árvores despidas ainda lutam para recuperar o que perderam num abrir e fechar de olhos.

“Não há ninguém que pense que isto não vai voltar a acontecer”, diz Baptiste.

Tal como os seus famosos papagaios e florestas tropicais, Dominica também está a regressar à vida, embora com cicatrizes que alertam os dominicanos para o facto de que os furacões desta magnitude farão sempre parte da sua realidade. Ser realmente à prova de furacões é funcionar como o ecossistema tropical do país, capaz de recuperar – e até mesmo de prosperar – depois de uma catástrofe.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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