Pterossauro Dentado ‘Escondido’ no Grupo Errado

Este réptil voador da pré-história, com ossos estranhamente escuros, pertence a um género totalmente novo que tem a denominação de ‘Casa Targaryen’, nome inspirado na série ‘A Guerra dos Tronos’.terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Uma criatura fossilizada, com ossos surpreendentemente escuros, é a primeira da sua linhagem recém-descrita de pterossauros dentados – informações avançadas por paleontologistas na Historical Biology. Com a denominação de Targaryendraco wiedenrothi, em homenagem à fictícia Casa Targaryen da série A Guerra dos Tronos, este réptil é o pterossauro do cretáceo mais completo encontrado na Alemanha.

A equipa que trabalhou neste estudo também designou outros 6 pterossauros já conhecidos e que se acredita serem parentes próximos do recém-criado grupo Targaryendraconia. Os membros desta linhagem possuíam uma envergadura de asas a rondar os 3 e os 8 metros, e bicos muito estreitos que terminavam em dentes projetados para a frente a partir da ponta da mandíbula.

Encontradas em lugares tão díspares como Inglaterra, EUA, Brasil e Austrália, “todas estas espécies vêm de ambientes costeiros pouco profundos e provavelmente alimentavam-se de peixe”, diz o chefe do estudo, Rodrigo Pêgas, paleontologista na Universidade Federal do ABC, em São Bernardo do Campo, no Brasil. “A espessura da mandíbula é a característica principal partilhada com outras espécies... é a mandíbula mais estreita de qualquer pterossauro dentado."

Este renomear mostra a forma como a nossa compreensão sobre estas maravilhas aladas aumentou nos últimos anos, não só pela descoberta de novos fósseis, como pelos esforços de análise e comparação de materiais fósseis presentes nas coleções de museus, diz Taissa Rodrigues, especialista em pterossauros na Universidade Federal do Espírito Santo, no Brasil, que não participou neste novo estudo.

"O nome Targaryendraco coroa o reconhecimento de uma linhagem negligenciada de répteis voadores... que viveram durante milhões de anos no cretáceo.”

‘Não sabes (quase) nada’
O Targaryendraco, contemporâneo voador dos dinossauros, viveu há cerca de 130 milhões de anos, quando a região da Alemanha onde a criatura foi encontrada era uma zona costeira com um mar quente de pouca profundidade.

O fóssil inclui partes das costelas e asas, para além das mandíbulas. Isto pode parecer pouco, mas o espécime está relativamente completo, sobretudo quando comparado com os fragmentos de outros pterossauros alemães do mesmo período. Os ossos revelam que o Targaryendraco tinha um bico longo e estreito, com dentes afiados, perfeitos para capturar peixe na superfície do oceano.

“As asas eram longas e estreitas, um formato específico dos pássaros e morcegos modernos que se alimentam de peixe”, diz Rodrigo.

Kurt Wiedenroth, caçador amador de fósseis, encontrou os ossos fósseis em 1984, num poço de argila, em Engelbostel, perto de Hanover, no norte da Alemanha. Os ossos podem ter a tonalidade escura devido a uma peculiaridade existente nos minerais das rochas onde se formaram. Em 1990, Wiedenroth doou o espécime ao museu de história natural de Estugarda, onde foi estudado e designado como sendo uma nova espécie dentro do grupo de pterossauros Ornithocheirus, chamado Ornithocheirus wiedenrothi.

Porém, com a descoberta de novos pterossauros, a compreensão dos cientistas sobre estes répteis voadores também aumentou. Rapidamente se percebeu que algumas das espécies rotuladas Ornithocheirus não estavam intimamente relacionadas e que representavam pterossauros de tipos diferentes.

Na paleontologia, é comum nomear grupos que contêm espécies pouco conhecidas. Estes grupos formam o que se chama de táxons pendentes, onde se inserem as espécies recém-descobertas que são fragmentárias ou que não foram completamente examinadas, explica Darren Naish, paleontologista associado à Universidade de Southampton, no Reino Unido.

"As pessoas assumiram que as outras descobertas feitas pelo mundo inteiro pertenciam ao mesmo grupo, e continuaram a aplicar o mesmo nome", diz Darren. "Entre os pterossauros, o Ornithocheirus é o melhor exemplo."

Mas Rodrigo Pêgas e os coautores do estudo do Museu Nacional do Rio de Janeiro e do Institut Català de Paleontologia de Barcelona reexaminaram o Ornithocheirus wiedenrothi e renomearam-no de Targaryendraco wiedenrothi, visto que os verdadeiros membros do grupo Ornithocheirus têm uma mandíbula mais arredondada.

“Alguns especialistas em pterossauros acreditaram durante décadas que esta espécie não fazia realmente parte do grupo Ornithocheirus, diz Darren.

A Dança dos Dragões
Em relação ao nome escolhido, os autores do estudo dizem que os fósseis fazem lembrar os ossos negros dos dragões da Casa Targaryen. “Para além disso, os pterossauros inspiraram alguns dos aspetos biológicos dos dragões da série”, escrevem os investigadores no estudo.

Geralmente, quando aparecem dragões em livros, filmes ou ilustrações, têm seis membros: quatro patas e duas asas.

“Mas isto não faz sentido absolutamente nenhum em termos biológicos”, sublinha Rodrigo. Na natureza, não existe nenhuma criatura vertebrada conhecida com tantos membros nesta configuração.

Respeitando a anatomia dos pterossauros, que são criaturas reais e que viveram há milhões de anos, o criador de A Guerra dos Tronos, George R.R. Martin, imaginou que os seus dragões fictícios teriam quatro membros: duas asas para os membros posteriores e duas patas para os membros inferiores.

Rodrigo Pêgas diz que admira esta decisão. “Achei que era um toque muito especial, sobretudo porque trabalho com pterossauros. Para além disso, sou um fã acérrimo da série.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler