Asteroide que Matou Dinossauros Pode Ter Preparado a Terra Para a Vida Moderna

Novos dados revelam que as mortes generalizadas de espécies marinhas que aconteceram no rescaldo do impacto podem ter criado oportunidades para as formas de vida que sobreviveram.

Thursday, January 30, 2020,
Por Tim Vernimmen
Pterossauros a sobrevoar uma paisagem vulcânica durante o evento de extinção em massa que matou os ...
Pterossauros a sobrevoar uma paisagem vulcânica durante o evento de extinção em massa que matou os dinossauros não-aviários.
Fotografia de STOCKTREK IMAGES, NAT GEO IMAGE COLLECTION (ILUSTRAÇÃO)

Um manto de morte cobriu o planeta há 66 milhões de anos, depois de um asteroide gigante ter colidido com a Terra, deixando uma cratera com mais de 175 km de diâmetro na Península de Yucatán, onde atualmente fica a cidade mexicana de Chicxulub. Este impacto lançou mais de 50 mil km cúbicos de material para o ar, provocou um inverno que durou décadas e acidificou os oceanos. Quando o manto se dissipou, cerca de 75% de todas as espécies da Terra, incluindo muitos dos dinossauros, tinham morrido.

Porém, olhando para o panorama geral, as consequências até podem ter sido positivas.

De acordo com uma investigação feita por uma parceria internacional de mais de 30 cientistas, a extinção em massa que marcou o final do período cretáceo pode ter permitido aos oceanos suavizar os efeitos uma erupção vulcânica gigante que aconteceu na mesma época da colisão. O asteroide preparou os mares para absorverem parte da enorme quantidade de gases de efeito estufa emitida por um planalto vulcânico, na Índia da antiguidade, conhecido por Planalto do Decão, mitigando assim o aquecimento que, de outra forma, seria nocivo para os primeiros mamíferos e para muitas das outras espécies que persistiram após o impacto.

Os estudos sugerem que, quando o asteroide colidiu com a Terra, esta erupção de magnitude épica já estava a decorrer há cerca de 400 mil anos, e alguns cientistas argumentam que os gases vulcânicos podem ter sido parcialmente responsáveis pela extinção em massa. Mas, com base nas novas estimativas das temperaturas globais para essa época – publicadas no dia 17 de janeiro na Science – parece pouco provável que estes vulcões gigantes tenham contribuído para o desaparecimento dos dinossauros.

O asteroide teve efeitos próprios, a sua influência dramática no plâncton oceânico pode ter suavizado o aquecimento global que se seguiu – e as erupções vulcânicas continuaram durante mais 300 mil anos.

Palmeiras de plâncton
“Pelas amostras dos sedimentos recolhidas no fundo do oceano, o súbito desaparecimento de espécies de plâncton com conchas de calcário coincide com uma chuva de pequenas esferas de vidro que se sabe terem caído depois do impacto do asteroide”, diz Pincelli Hull, especializada em paleoceanografia na Universidade de Yale e uma das coautoras do estudo.

"Dado que estas espécies parecem ter sido as mais atingidas pela colisão do asteroide, acreditamos que o enxofre e o óxido nitroso libertados pelo impacto podem ter acidificado o oceano, dissolvendo as conchas das criaturas", diz Hull. É semelhante ao que acontece quando colocamos um bocado de giz – que consiste em restos de plâncton calcário – num copo com vinagre. O oceano nunca chegou a ter tanta acidez como no exemplo do vinagre, pelo que as conchas de plâncton podem ter-se dissolvido muito mais lentamente.

Estes sedimentos também podem revelar como é que as temperaturas globais se alteraram com o passar do tempo, explica Hull – alterações que devem refletir os efeitos dos gases emitidos pelos vulcões de Decão, incluindo o dióxido de carbono.

“A lama que encontramos nestas amostras tem uma consistência semelhante à das pastas dentífricas”, diz Hull. “Não é granulosa como a lama que encontramos em terra – é composta por fósseis microscópicos de espécies de plâncton calcário que assentaram no fundo do mar quando morreram.”

A simples identificação do plâncton incorporado nas várias camadas de sedimentos presentes no fundo do mar pode dar-nos uma indicação do clima oceânico daquela época. Pincelli diz que encontrar algumas das espécies é o mesmo que encontrar palmeiras no Polo Norte.

Mas as composições químicas das conchas contêm mais informações.

As temperaturas do oceano afetavam os tipos de isótopos de carbono e de oxigénio que o plâncton incorporava nas suas conchas protetoras. Combinando os dados apesentados pela lama recolhida no fundo do mar pelo mundo inteiro, os investigadores conseguiram reconstruir a forma como as temperaturas globais se alteraram ao longo de centenas de milhares de anos.

Tempos conturbados
Para fazer esta reconstrução, os investigadores adaptaram um modelo de computador com equações que revelam a relação entre as alterações de temperatura do planeta e o ciclo de carbono durante vários períodos de tempo, incluindo o presente.

Este modelo ajuda a esclarecer um debate que já dura há mais de 40 anos e que foi reacendido por dois estudos publicados na Science em fevereiro do ano passado.

Os cenários com melhor suporte sustentam que os gases de efeito estufa do Decão foram libertados sobretudo entre 200 a 350 mil anos antes da extinção do final do Cretáceo, ou aproximadamente antes e depois do evento. A possibilidade de uma divisão semelhante já tinha sido sugerida por Courtney Sprain, geocronologista na Universidade da Flórida, e pelos seus colegas, num dos artigos publicados em fevereiro do ano passado.

"É óbvio que estou muito entusiasmada por ver que este estudo suporta as nossas descobertas", diz Courtney, e acrescenta que os dois estudos do ano passado permitiam que metade dos gases tivesse sido expelida depois da colisão do asteroide. A principal diferença é a de que o outro estudo, liderado pelo geocronologista Blair Schoene, propunha um pulso de vulcanismo dentro de um período de 100 mil anos exatamente antes do evento de extinção. Este pulso teria perturbado o ambiente juntamente com o asteroide para impulsionar a devastação global das espécies do planeta.

Mas este cenário não é suportado pelo novo modelo de computador, que insiste que as temperaturas globais arrefeceram durante o período que antecedeu a colisão do asteroide.

Isto não responde à questão da quantidade de gases emitidos antes e depois da extinção em massa. A observação dos períodos de aquecimento mais pronunciados, cerca de 200 mil anos antes do evento de extinção em massa, revela um pico de cerca de 2 graus. Um segundo período de aquecimento, mais dissimulado, ocorreu cerca de 200 mil anos depois do evento.

Mas um aquecimento menos acentuado não significa necessariamente que os vulcões de Decão estivessem a emitir menos gás, diz Donald Penman, geoquímico em Yale e cocriador dos novos modelos. Pode haver uma explicação mais intrigante.

“Depois de grande parte do plâncton calcário ter morrido, o modelo sugere que a acumulação de compostos – que de outra forma seriam usados nas suas conchas –  permitiu aos oceanos absorver mais CO2 vulcânico, reduzindo o seu efeito no aquecimento global”, diz Penman.

Heather Birch, da Universidade de Bristol, especializada em micropaleontologia – que não participou na criação destes modelos – concorda que a composição do plâncton parecia muito diferente no período que se seguiu ao impacto do asteroide, e isso pode ter afetado a absorção de carbono. Mas Birch adverte que "apenas uma pequena fração do plâncton fossiliza, pelo que são necessárias mais investigações para descobrir como é que estas enormes quantidades de CO2 foram absorvidas".

Agora que os oceanos estão a acidificar novamente, desta vez devido ao aumento de CO2 provocado pelo homem, será que outra extinção em massa de plâncton calcário nos pode salvar dos piores efeitos das alterações climáticas?

Hull diz para não sustermos a respiração. Depois da morte maciça de plâncton no final do Cretáceo, as temperaturas subiram durante milhares de anos, até que os oceanos começaram a absorver novamente mais CO2. Numa escala de tempo relevante para a sociedade humana, isto significa que vamos ter milénios de tempos conturbados pela frente.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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