Austrália: Fogos Podem Afetar Abastecimento de Água Potável

Quando enormes quantidades de cinza chegam aos rios, barragens e, eventualmente, ao mar, podem poluir o abastecimento de água e matar vida selvagem marinha.quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

SIDNEY, NOVA GALES DO SUL – Na sequência dos enormes incêndios que devastaram vastas áreas de uma Austrália atingida pela seca, os cientistas temem que, quando as chuvas caírem, podem escoar os detritos carbonizados para os rios, barragens e para o oceano, podendo matar vida selvagem e contaminar os abastecimentos de água das grandes cidades, sobretudo Sidney.

Durante muitas semanas, as cinzas, a fuligem e as folhas de árvores queimadas acumularam-se ao longo das margens das praias de Sidney, poluindo as águas. Os detritos, resultado dos incêndios nas áreas florestais a oeste, foram levados pela brisa juntamente com o fumo denso que cobriu a maior cidade da Austrália durante grande parte do mês de dezembro.

Mas o que foi transportado pelo vento é apenas uma amostra das enormes quantidades de detritos que podem acabar nos rios, isto em caso de fortes chuvadas. Até agora, arderam mais de 9.7 milhões de hectares – uma área maior do que Portugal – principalmente no sudeste do continente. Isto inclui áreas de terra conhecidas por bacias hidrográficas, onde as chuvas iniciam a sua jornada terrestre em barragens, rios e lagos específicos.

É um desastre ecológico sem precedentes na história da Austrália que cria problemas no abastecimento de água potável, problemas que se estendem aos ecossistemas costeiros e aos rios de água doce que sustentam a vida selvagem icónica do país – como o ornitorrinco.

“As perturbações a esta escala afetam certamente a biodiversidade. Estou muito preocupado com os efeitos nos ecossistemas de água doce”, diz Ross Thompson, ecologista de água doce na Universidade de Canberra.

“Dada a gravidade dos incêndios – desapareceu praticamente tudo nas paisagens queimadas – um dos grandes problemas é que, quando começar a chover, muita dessa cinza e 'porcaria' vai escoar para as nossas bacias hidrográficas”, acrescenta Ricky Spencer, conservacionista e ecologista na Universidade Western Sidney, em Nova Gales do Sul.

Proliferação de algas e morte de peixes
Um fluxo repentino de nutrientes nos cursos de água pode originar "eventos de águas negras", provocados pela proliferação de algas azuis-esverdeadas, também conhecidas por cianobactérias. Quando isto acontece, os níveis de oxigénio podem descer até níveis perigosamente baixos para as outras espécies aquáticas, levando potencialmente a mortes em massa de peixes e afetando espécies como as tartarugas de água doce.

No verão passado, as proliferações de algas provocadas pelos escoamentos vindos de terrenos agrícolas, e pela seca que ainda assola o país, ceifaram milhões de peixes – sobretudo percas-douradas e bacalhau-de-murray, que são espécies recreativas importantes de peixes australianos – nos rios da região oeste de Nova Gales do Sul. Mesmo sem os fogos, as proliferações de algas podem aparecer nos cursos de água afetados pela seca, mas Ricky Spencer teme que possam ser exacerbadas pelos efeitos dos incêndios florestais.

“Estas proliferações podem estar a acontecer, mas só saberemos quando começarmos a ver o seu crescimento ao longo dos sistemas fluviais, ou se cair uma forte chuvada”, diz Spencer.

Algumas investigações também revelaram que, durante o escoamento, o fogo mobiliza o mercúrio, acrescenta Katherine Dafforn, cientista ambiental na Universidade Macquarie e no Instituto de Ciência Marinha de Sidney.

“Foram encontradas concentrações mais elevadas de mercúrio nos peixes que vivem nos lagos das bacias queimadas, comparativamente com as bacias de referência”, diz Katherine, com potenciais impactos para a saúde humana, isto se os peixes no topo da cadeia alimentar forem comidos.

A proliferação de algas nas barragens pode dar origem a problemas consideráveis no abastecimento de água das principais cidades, como Sidney e Melbourne. A barragem de Warragamba, a oeste de Sidney, fornece água potável a 3.7 milhões de pessoas. Mas os vastos incêndios florestais na área de influência, e em torno da área, queimaram cerca de 60 mil hectares de floresta.

“As florestas perderam cerca de 80 a 90% das partes significativas da bacia hidrográfica", diz Stuart Khan, engenheiro na Universidade de Nova Gales do Sul, em Sidney, que estuda contaminantes em processos de tratamento de águas.

Água contaminada
Em 2006, um incêndio florestal na bacia hidrográfica foi provavelmente o que causou uma proliferação de algas que durou vários meses na barragem, mas os incêndios florestais atuais são bem mais extensos.

“Em situações mais raras, estas proliferações produzem cianotoxinas perigosas que exigem muita atenção e observação até serem detetadas e revelarem o que está a crescer nestes reservatórios.” Apesar de Khan acreditar que Sidney não vai ser afetada por problemas de saúde pública, está preocupado com o desafio de manter as estações de tratamento em funcionamento.

“Não estamos habituados a lidar com enormes quantidades de cianobactérias e cinzas... e os processos de tratamento podem ser significativamente mais lentos", diz Stuart Khan.

Com a seca atual, o abastecimento de água de Sidney já está sobrecarregado, exigindo o uso de uma fábrica de dessalinização. Se a taxa de produção de água tratada em Warragamba diminuir, pode originar uma escassez temporária, mas significativa, e restrições severas devido à seca. Por todo o sudeste australiano, as áreas florestais que compõem as bacias hidrográficas foram incineradas, e a crise dos incêndios pode prolongar-se durante vários meses, portanto, é possível que o abastecimento de muitos dos centros urbanos no sudeste possa vir a ser afetado até ao final do verão.

Ornitorrinco sob pressão
Os incêndios podem vir a afetar gravemente os sistemas fluviais da Austrália, aumentando o perigo para os ornitorrincos. A perda de vegetação que proporciona sombra em torno dos pequenos riachos habitados por estes animais pode fazer com que a temperatura da água suba até níveis intoleráveis – geralmente algo acima dos 28 graus.

"Os ornitorrincos são criaturas pequenas e estranhas, não têm forma de escapar ao calor. A sua única resposta a uma água mais quente é ficar na toca e esperar que arrefeça”, diz Thompson. “Há 20 anos, durante a terrível Seca do Milénio, muitos dos ornitorrincos ficaram simplesmente nas tocas e morreram.”

“Parece que a morte vem de todo o lado.”

por ROSS THOMPSON, UNIVERSIDADE DE CANBERRA

Mas a seca deste ano é ainda pior, e a Agência Australiana de Meteorologia divulgou recentemente que 2019 foi o ano mais seco e mais quente dos 120 anos de que há registo. É possível que os ornitorrincos se extingam localmente, não só em partes do norte, como a oeste do seu território no leste da Austrália – algo que a investigação de Thompson sugeriu poder vir a acontecer devido às alterações climáticas.

"Parece que a morte vem de todo o lado", diz Thompson. “A Seca do Milénio derrubou grande parte da nossa biota de água doce, que em muitos dos casos nunca chegou a recuperar, e agora temos estes incêndios de grande escala... é um problema real, e podemos acabar por perder espécies."

Vigiar o oceano
Eventualmente, as cinzas, a fuligem e os sedimentos presentes nos rios serão levados para o mar, mas os efeitos dos incêndios na vida marinha são pouco conhecidos – as incertezas são muitas.

“A escala destes incêndios não tem precedentes, e as imagens que estamos a ver de ondas cheias de cinza e fuligem ao largo das nossas praias indicam que existe uma densidade muito elevada de detritos na coluna de água, sendo possível que existam efeitos localizados nessas áreas”, diz Emma Johnston, ecologista marinha na Universidade de Nova Gales do Sul.

Os detritos não precisam de ser tóxicos para provocar problemas, as partículas minúsculas podem entupir as guelras dos peixes e os filtros alimentares de mexilhões, esponjas e corais.

E apesar de existirem poucos estudos que tenham analisado o impacto do carvão e das cinzas nos organismos marinhos – e possíveis toxinas geradas pelos incêndios – é provável que sejam nocivos, acrescenta Emma Johnston, e o fluxo de nutrientes para o mar pode dar origem à proliferação de algas no oceano.

Felizmente, a Grande Barreira de Coral da Austrália ainda não foi afetada, o foco dos incêndios tem estado mais a sul, e as correntes oceânicas também levam a água para sul, para longe dos recifes.

Recuperação lenta
Embora se saiba pouco sobre os efeitos da fuligem e das cinzas na vida marinha, podem existir vários impactos se os níveis de exposição forem elevados o suficiente, diz Andrew Negri, do Instituto Australiano de Ciência Marinha de Townsville, em Queensland, que estudou os efeitos negativos do pó de carvão da exploração mineira feita na Grande Barreira de Coral.

Por exemplo, as zonas poluídas limitam a luz que atinge as plantas marinhas, prejudicando o seu crescimento. E as partículas podem conter metais, enxofre e produtos químicos – chamados hidrocarbonetos aromáticos policíclicos – que se podem dissolver na água do mar e que são tóxicos para as espécies marinhas.

Independentemente dos danos provocados nos ecossistemas marinhos e de água doce da Austrália, a sua recuperação pode demorar várias décadas.

"O mais impressionante é a persistência dos efeitos destes incêndios", diz Thompson. “O tempo necessário para recuperar estes sistemas, sobretudo em termos de abastecimento de água, é na ordem dos 10 anos. Isto é importante porque as bacias hidrográficas de Sidney e de Melbourne estão a ser muito afetadas pelos incêndios da atualidade.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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