Marte: Encontrada Primeira Zona de Falhas Ativas

A atividade sísmica no planeta vermelho foi rastreada até Cerberus Fossae, sugerindo que esta região geologicamente jovem ainda está viva.

Tuesday, January 7, 2020,
Por Maya Wei-Haas
Nesta imagem, captada em janeiro de 2018 pela sonda Mars Express da Agência Espacial Europeia, várias ...
Nesta imagem, captada em janeiro de 2018 pela sonda Mars Express da Agência Espacial Europeia, várias fraturas profundas rasgam a superfície de crateras de Marte. Estas fendas fazem parte do sistema Cerberus Fossae, perto do equador marciano.
Fotografia de ESA

Na superfície de Marte, a milhões de quilómetros de distância, um geólogo robótico solitário está a escutar os ténues ecos sísmicos que agitam as profundezas do planeta. Os seus instrumentos têm sensibilidade suficiente para captar o zumbido do vento, os movimentos de poeira, o ranger das fendas tectónicas e muitos outros ruídos que vêm das entranhas de Marte.

Apesar de muitos destes sinais não serem passíveis de identificação, a sonda conseguiu registar dois que se destacam e que permitiram aos cientistas localizar a sua fonte de origem: revelando a primeira zona de falhas ativa encontrada no planeta vermelho.

De acordo com os dados da sonda InSight da NASA – apresentados em dezembro numa conferência da União Geofísica Americana – os sismos marcianos tiveram magnitudes a rondar os 3 e 4. Apesar de estes dois sismos serem pequenos para os padrões da Terra, estão entre os maiores alguma vez detetados em Marte. Os cientistas conseguiram rastrear os dois sismos até uma região conhecida por Cerberus Fossae, uma zona com uma série de fendas profundas que se estendem ao longo de 1600 km a leste do ponto de aterragem da InSight.

Os resultados deste trabalho ainda não foram revistos por pares e os cientistas associados à equipa da InSight não fazem comentários até que estes sejam publicados. Mas o anúncio desta zona de falhas ativa é um marco importante para o estudo do planeta vermelho. (Descubra pulsações magnéticas misteriosas em Marte.)

"Todas as expectativas que temos e todos os modelos que usamos para tentar explicar a atividade de Marte podem agora ser comparados com esta medição", diz Paul Byrne, geólogo planetário na Universidade Estadual da Carolina do Norte que não faz parte da equipa da InSight . "Com estes dados, Marte ganhou um pouco de vida.”

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Ainda não se sabe de que forma é que esta descoberta pode vir a influenciar as decisões sobre futuras habitações humanas no planeta vermelho. Esta atividade pode apontar para uma fonte potencialmente útil de energia geotérmica em Marte, mas o pequeno abalo sísmico – que parecia um enorme camião a passar – pode representar um problema para os instrumentos científicos mais delicados, diz Tanya Harrison, cientista planetária especializada em Marte que atualmente gere os programas científicos da empresa de satélites Planet Federal. Porém, no contexto geral, existem outros fatores que podem representar perigos maiores para os futuros exploradores de Marte, salienta Paul Byrne.

Para já, estes sismos revelam o potencial da missão InSight na compreensão da atividade tectónica de Marte. A sonda também usa estes pequenos tremores para mapear o interior do planeta, um processo semelhante ao dos ultrassons que conseguem observar o interior dos nossos corpos.

“Para a ciência de Marte é um marco assinalável”, diz Tanya. “É impressionante.”

Rasgos geológicos
O emissário robótico conhecido por InSight pousou em Marte em novembro de 2018 e levou consigo "o sismómetro mais sensível que alguma vez colocámos num planeta", diz Christine Houser, sismóloga no Instituto de Ciências Earth-Life do Instituto de Tecnologia de Tóquio. “O sismómetro, para além de detetar todos os rangidos e lamentos da crosta, também regista muitas alterações nas condições atmosféricas.” A sonda tem vários detetores que conseguem medir a pressão atmosférica, a velocidade do vento, a temperatura e muito mais, oferecendo pistas sobre os sismos marcianos.

Esta fratura de Cerberus Fossae estende-se ao longo de colinas e crateras já preexistentes, sugerindo que o sistema é relativamente jovem. Os cientistas acreditam que se formou há cerca de 10 milhões de anos ou menos. Esta imagem angular foi gerada através dos dados dos canais estéreo de uma das câmaras do orbitador Mars Express.
Fotografia de ESA, DLR, FU Berlin

Muito do que o sismómetro da InSight tem ouvido até agora é o rugido do vento, mas algumas horas depois do pôr-do-sol, quando a agitação acalma, existem outros sinais que emergem. A sonda detetou o seu primeiro tremor sísmico no interior do planeta, e não na sua superfície ruidosa, no dia 6 de abril de 2019.

Desde então, a frequência dos tremores aumentou – com mais de 300 já registados. Mas é necessária mais monitorização para se perceber porquê.

Os cientistas também não sabem exatamente qual é o mecanismo por detrás dos vários distúrbios internos de Marte. Na Terra, os terramotos originam frequentemente do movimento interminável das placas tectónicas. Esta dança geológica cria tensão na crosta do nosso planeta, atingindo eventualmente um ponto de rutura. Quando isso acontece, a terra pode mudar repentinamente, enviando uma onda de choque que se revela sob a forma de um terramoto.

Mas Marte não tem placas tectónicas. Quando se formou, o planeta era uma massa abrasadora de rocha derretida que acabou por arrefecer, processo que criou uma crosta estática em torno de um manto rochoso, mas não se sabe quão quentes são as entranhas do planeta. A paisagem marciana já teve vulcões a jorrar lava à superfície, mas estes vulcões silenciaram-se há muito tempo. Os cientistas suspeitam que ainda existem bolsas de magma debaixo do chão – a crosta estacionária do planeta pode agir como uma tampa sobre uma chávena de café fumegante, retendo o calor da formação do planeta, explica Christine.

Se assim for, alguns dos sismos podem dever-se ao arrefecimento e contração continuada do planeta. Esta compressão pode rachar a superfície na chamada linha-de-falha, onde um bloco de terra é empurrado sobre outro. E os outros abalos podem vir do magma ou da água que existe no subsolo marciano.

Atividade nas profundezas
Sem dados adicionais da equipa da InSight não é possível determinar o que está a provocar esta atividade mais recente, diz Paul Byrne, mas a história da região oferece algumas pistas.

Acredita-se que Cerberus Fossae esteja entre as zonas de falhas mais jovens do planeta vermelho, com 10 milhões de anos ou menos. Esta novidade geológica é evidenciada pelos vales profundos de paredes afiadas e quase verticais que ainda não foram desgastadas pelo tempo e que atravessam crateras mais antigas. E também existem evidências de atividades geológicas mais recentes: vários pedregulhos em torno da região parecem ter sido sacudidos da sua posição original, deixando as suas marcas na poeira marciana.

Estes cortes profundos podem ter surgido devido a uma bolha crescente de magma – talvez ligada aos imponentes vulcões adormecidos a noroeste – que forçou o terreno a esticar e a rachar. E algumas destas fendas parecem ter jorrado as suas próprias camadas de rocha derretida.

"Os eventos sísmicos detetados podem sugerir que a formação de fendas ainda está a decorrer", escreve Misha Kreslavsky, cientista planetário na Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, que não faz parte da equipa da InSight.

Existem outras secções da superfície rachada que se estendem até paisagens aparentemente esculpidas por cheias, pelo que é possível que algum tipo de água a borbulhar por baixo desta região seja a causa dos sismos, especula Byrne, embora o magma seja o responsável mais plausível.

Independentemente da sua origem, os sismos oferecem pistas muito interessantes sobre o facto de Cerberus Fossae não estar necessariamente morta. "A história desta região continua a ser escrita atualmente", diz Paul Byrne. "E isso é simplesmente impressionante."
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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