Pré-História: Cuidados Parentais Entre Animais Vão Mais Longe do que Pensado

Os fósseis encontrados na Nova Escócia pertencem a antepassados de mamíferos que morreram há 309 milhões de anos – com um adulto a proteger uma cria com a sua cauda.quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Atualmente, muitas das árvores que restam na Ilha Cape Breton, na costa da Nova Escócia, são típicas de uma floresta boreal. Porém, durante o período Carbonífero – que se iniciou há cerca de 360 milhões de anos e terminou há aproximadamente 300 milhões de anos – a região era um pântano subtropical dominado por plantas Lycopodiopsida, plantas vasculares sem sementes que, se existissem hoje, podiam ter mais de 30 metros de altura.

Os cepos e raízes petrificados que ainda existem, e que foram agora escavados, contêm corpos fossilizados de muitos dos animais que viviam naquela época na região. Alguns dos fósseis estão emaranhados, mas outros ficaram aparentemente congelados na posição em que estavam quando uma cheia repentina os cobriu de sedimentos.

Agora, os penhascos ricos em fósseis da ilha ofereceram uma nova criatura do Carbonífero, e também revelaram que os cuidados parentais complexos podem ter raízes muito mais antigas do que pensávamos.

Descrito no dia 23 de dezembro na revista Nature Ecology & Evolution, o fóssil de 309 milhões de anos inclui os restos de um Varanopidae adulto, um animal parecido com um lagarto que pertence a um grupo extinto – grupo tradicionalmente associado aos estágios iniciais da linhagem que conduziu aos mamíferos. Atrás das patas traseiras e rodeado pela sua cauda, o fóssil possui um crânio diminuto que aparenta ser de uma cria da mesma espécie.

"Acreditamos estar perante o exemplo mais antigo de cuidados parentais alguma vez documentado neste grupo", diz a coautora do estudo, Hillary Maddin, paleontologista na Universidade Carleton, em Ottawa, no Canadá.

Determinar tal comportamento a partir de um fóssil pode parecer um pouco exagerado, mas esta não foi a primeira vez que Varanopidaes de tamanhos muito diferentes foram encontrados preservados nas proximidades. Na África do Sul, um fóssil descoberto anteriormente revelou um adulto deste grupo com o seu membro anterior em torno de várias crias, no que parece ser uma postura protetora. O fóssil canadiano é semelhante, mas é cerca de 40 milhões de anos mais antigo.

"É óbvio que devemos ser cautelosos quando determinamos comportamentos complexos sem uma observação direta", diz Geoffrey While, ecologista evolucionário que estuda cuidados parentais em lagartos na Universidade da Tasmânia. "Mas este fóssil pode certamente ser interpretado como uma evidência da associação entre pais e filhos, um requisito essencial para as formas mais complexas de cuidados parentais."

Árvore mãe carinhosa
Os autores não conseguem determinar se o adulto e a cria são relacionados, ou se o adulto é do sexo feminino. Ainda assim, apelidaram a nova espécie de Dendromaia unamakiensis, usando as palavras gregas para "árvore" e "mãe carinhosa", para além do nome original de Mi'kmaq da Ilha Cape Breton.

"Demonstrar um comportamento complexo no registo fóssil é muito difícil", diz David Varricchio, paleontólogo na Universidade Estadual do Montana que encontrou evidências de cuidados parentais em dinossauros. Mas David concorda que o fóssil contém jovens e velhos juntos, bem preservados, no que parece ser um bom lugar para se esconderem, e que oferece boas evidências de possíveis cuidados parentais.

"Este fóssil sugere que os cuidados parentais tiveram uma origem precoce entre os prováveis antepassados dos mamíferos", diz David. “E existem cada vez mais evidências de cuidados parentais em alguns dinossauros que também foram transmitidos para as aves. Portanto, para ambos os grupos, este comportamento remonta a dezenas, senão a centenas de milhões de anos.”

“Quando pais e crias começam a passar tempo juntos, pode ser um passo evolutivo crucial em direção a formas mais complexas de cuidados”, diz Geoffrey While. Atualmente, muitas aves, mamíferos e répteis fornecem uma variedade de cuidados às suas proles, tanto na proteção dos ovos e das crias como na alimentação ativa, incluindo ensinar a procurar comida.

"Quando estas associações se transformam numa característica regular na biologia de uma espécie, existem mais oportunidades de desenvolvimento de cuidados adicionais, incluindo a evolução da proteção e sustentos parentais", diz David. Porém, este fóssil não determina com exatidão se este tipo de cuidados parentais já tinham evoluído na espécie recém-descoberta.

David acrescenta que, “embora os lagartos não sejam amplamente considerados pais carinhosos, a extensão dos cuidados parentais neste táxon já foi subestimada anteriormente. Agora temos provas das associações entre pais e filhos de quase uma centena de espécies diferentes de lagartos e cobras.” Dada a natureza muitas vezes enigmática destas associações, David acredita que este número vai aumentar ainda mais.

“Tal como acontece com a espécie Dendromaia, acredito que os répteis da atualidade oferecem uma perspetiva crucial sobre os estágios iniciais da evolução dos cuidados parentais.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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