Alterações Climáticas Afetam Perspetivas de Paz no Afeganistão

Os peritos afirmam que o aquecimento global pode estimular mais catástrofes naturais, deslocações em massa, casamentos infantis e conflitos.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020,
Por Sophia Jones
Fotografias Por Solmaz Daryani
Tendas e abrigos improvisados espalhados pelo vasto campo de Shahrak-e-Sabz, um campo para deslocados internos do ...
Tendas e abrigos improvisados espalhados pelo vasto campo de Shahrak-e-Sabz, um campo para deslocados internos do país nos arredores de Herat, a terceira maior cidade do Afeganistão. Neste campo, muitas famílias sobrevivem com uma refeição por dia.
Fotografia de Solmaz Daryani, National Geographic

HERAT, AFEGANISTÃO – Com os meses secos a transformarem-se em anos secos, a agricultora Fatemeh observou as suas plantações a murchar e o gado a morrer de sede em Badghis, no noroeste da província afegã. A fome transformou-se em desespero e, há cerca de 18 meses, a sua família foi obrigada a implorar por um empréstimo a um homem abastado, empréstimo que os ajudaria a sobreviver à pior seca testemunhada no Afeganistão em décadas. O homem concordou e entregou ovelhas, arroz e farinha no valor de 1.135 euros.

Quando as chuvas regressaram na primavera, o homem também regressou, desta feita para exigir o reembolso. Mas as colheitas não foram lucrativas. “Dê-me a sua filha”, disse o homem. Ele queria levar Fariba, uma criança tímida de 5 anos, para casar com o seu filho.

“Ela teria morrido de desgosto”, diz Fatemeh, olhando para a filha, Fariba, que tinha os seus enormes olhos castanhos delineados com Kohl (um cosmético antigo para os olhos).

Fariba, de 5 anos, sentada ao colo da mãe, Fatemeh, na tenda improvisada da sua família, nos arredores de Herat. Esta família fugiu da guerra e da seca, em Badghis, depois de um homem ter exigido que Fariba se casasse com o seu filho como uma forma de reembolso para um empréstimo. “Se eu pudesse devolver o dinheiro ao homem”, diz Fatemeh, “podia ficar com a minha filha perto de mim”.
Fotografia de Solmaz Daryani, National Geographic

Dadas as circunstâncias, a família de Fatemeh decidiu fugir para salvar Fariba, e para procurar terras onde conseguissem sobreviver à próxima seca. E também para escapar dos ataques aéreos afegãos apoiados pelos EUA, que tinham como alvo os combatentes talibã que estavam nas aldeias vizinhas. Depois de três dias e três noites na estrada, encontraram abrigo num vasto campo deserto para pessoas desalojadas, nos arredores da terceira maior cidade do Afeganistão, Herat.

Nos 18 anos desde que os Estados Unidos lançaram a Operação Liberdade Duradoura e invadiram o Afeganistão, a luta contra o terrorismo dominou as atenções mundiais e gastaram-se milhares de milhões de dólares em empreendimentos de guerra e de reconstrução – num conflito implacável que já ceifou centenas de milhares de vidas. Porém, existe outro desafio potencialmente maior no horizonte.

O Afeganistão é um dos países mais vulneráveis às alterações climáticas e um dos menos equipados para lidar com o que se avizinha. Os especialistas dizem que as secas, as cheias, as avalanches, os deslizamentos de terras, as condições climáticas extremas, as deslocações de pessoas em massa, os conflitos e o casamento infantil – fatores que neste momento já atormentam o Afeganistão – podem piorar.

No Afeganistão, a atenção dada às alterações climáticas tem sido praticamente inexistente. A maioria dos afegãos são agricultores ou dependem da agricultura para subsistir, e o Programa das Nações Unidas para o Ambiente estima que 80% dos conflitos neste país são sobre terra, água e recursos. As vozes mais críticas dizem que a assistência dada aos afegãos, para lidarem com os efeitos da seca e com as dificuldades derivadas das alterações climáticas, não levam em consideração as necessidades reais das pessoas e são ajudas de curto prazo.

A seca extrema que afetou o Afeganistão em 2018 parece ter terminado, pelo menos para já. Mas Fatemeh é apenas uma dos cerca de 13.5 milhões de afegãos que vivem sem segurança em termos alimentares e não só. De acordo com a Organização Internacional para as Migrações, desde 2012 mais de 30% dos afegãos migraram ou ficaram desalojados. E as projeções revelam um Afeganistão ainda mais quente e com escassez de recursos.

De acordo com a ONU e a Agência Nacional de Proteção Ambiental do Afeganistão, as temperaturas podem subir, no pior dos cenários, até 7 graus Celsius até 2100, a não ser que se tomem medidas para limitar as emissões de gases de efeito estufa. Apesar de se projetar que os níveis de precipitação no Afeganistão podem permanecer relativamente estáveis até finais do século XXI, as temperaturas mais elevadas fomentam a evaporação, colocando em risco os imprescindíveis recursos hídricos.

Uma mulher percorre os exuberantes campos de trigo e de batatas na província central de Bamiyan, no Afeganistão, espalhando sementes e trabalhando a terra ao lado do seu marido.
Fotografia de Solmaz Daryani, National Geographic

Estes fatores podem significar uma sentença de morte em lugares como Badghis, onde Fatemeh e a sua família cavaram buracos no chão para recolher água da chuva e neve derretida, antes de terem sido forçados a fugir.

“Sem terra. Sem água. Sem vida”, diz Gul Dasta, irmã de Fatemeh. Debaixo do seu vestido verde esmeralda – que foi feito por ela – um bebé recém-nascido tenta alimentar-se em vão de um seio vazio.

Água em excesso – e inutilizada
A cerca de 725 km a leste de Herat, na província de Panjshir, no nordeste do Afeganistão, as comunidades locais também estão à mercê dos elementos. Nesta região, o rio Panjshir serpenteia por um vale verdejante entre montanhas imponentes.

Em julho de 2018, um glaciar nas montanhas derreteu demasiado depressa, excedendo os limites de uma represa natural em torno de um lago glaciar. Milhares de toneladas cúbicas de água escoaram pela montanha, provocando um deslizamento de terras que destruiu escolas, centenas de casas e campos de cultivo de feijão, batatas, oliveiras e trigo.

Os pastores na montanha tentaram alertar os seus entes queridos, mas para cerca de 10 pessoas, incluindo Bib Mazari, de 65 anos, foi tarde demais. “A água levou o corpo dele”, disse o irmão Niaz Mohamed.

Durante a primavera e no verão, o degelo dos glaciares sustenta comunidades inteiras com a sua água doce. Mas o degelo acentuado tem consequências mortíferas, aumentando o risco de inundações durante primavera, e períodos de seca no verão.

Seyed Jalil, um agricultor de 45 anos, no seu jardim inundado, na província de Panjshir, no nordeste do Afeganistão, onde um lago glaciar cedeu em julho de 2018. Milhares de toneladas cúbicas de água escoaram pela montanha, provocando um deslizamento de terras que matou várias pessoas, destruiu escolas, centenas de casas e campos de cultivo de feijão, batatas, oliveiras e trigo.
Fotografia de Solmaz Daryani, National Geographic

De acordo com o Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado de Montanhas, estima-se que os glaciares na extensa região da cordilheira Indocuche dos Himalaias podem diminuir cerca de 90% até 2100.

O governo afegão, sem financiamento, está a trabalhar para criar estações nas montanhas, para emitir alertas à população. Mas os habitantes locais, que dizem que a assistência governamental é inadequada, não estão confiantes nestas ações. Depois da inundação repentina de 2018, que varreu as terras férteis de cultivo, muitos dos habitantes locais abandonaram Panjshir para sempre. E não estão sozinhos, como Fatemeh e a sua família, que abandonaram o seu modo de vida tradicional para sobreviver.

Por todo o país, homens como o marido de Gul Dasta estão a dizer adeus aos seus familiares para procurarem trabalho no Irão, ficando as mulheres a chefiar famílias numa sociedade tradicionalmente patriarcal. Muitas das famílias estão a mudar-se para campos de desalojados e para cidades como a capital Cabul, uma das cidades de maior crescimento a nível mundial – onde esperam encontrar uma vida melhor.

Mas mesmo em Cabul, a cidade afegã mais desenvolvida, lar de centenas de embaixadas e bases militares, muitos dos habitantes enfrentam a sua própria luta pela sobrevivência. A população de Cabul aumentou subitamente nas últimas décadas, colocando ainda mais pressão sobre os recursos, como a água. Apesar da abundância de montanhas nevadas e rios do Afeganistão, a água limpa é um luxo para muitos dos afegãos, em grande parte devido à guerra, à corrupção e à má gestão generalizada da água.

O sistema de distribuição de água de Cabul abastece menos de 20% da população da cidade. E como a maioria das águas subterrâneas não é potável, os habitantes de Cabul cavam poços não regulamentados, ou compram água engarrafada dispendiosa, que obstrui os cursos de água e degrada os esgotos à beira da estrada devido ao plástico. Um projeto de 75 milhões de euros, apoiado pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), que visa expandir a infraestrutura hídrica de Cabul, pode ficar concluído em 2021. Mas estes projetos hídricos já foram criticados no passado por não cumprirem os seus objetivos.

Esquerda: Abdol Zaher, 55 anos, é um líder religioso na província central de Bamiyan, no Afeganistão. Parte das suas funções passam pela negociação de disputas nas aldeias, sendo que, segundo Abdol, as disputas mais comuns são sobre terras. Direita: Arefe, 17 anos, na sua casa em Bamiyan, no Afeganistão. Quando a seca chegou, o seu pai, um produtor de batatas, não teve condições para a manter na escola. “Eu queria ser médica e ir para a Austrália”, diz Arefe. Apesar de ser pouco provável que ela consiga regressar à escola, Arefe não perdeu a esperança. “Não desisti dos meus sonhos.” Quando Arefe não está a ajudar no campo, joga futebol com as suas amigas.
Fotografia de SOLMAZ DARYANI, NATIONAL GEOGRAPHIC
Rahmatullah na sua casa de argila, em Cabul, num assentamento improvisado para pessoas deslocadas internamente. As inundações destruíram os seus campos de trigo, de batata e de papoilas, numa aldeia controlada pelos talibãs em Helmand. Rahmatullah partiu para Cabul à procura de uma vida melhor. “Os talibãs não tiveram dificuldades em tomar a nossa aldeia durante as cheias.”
Fotografia de Solmaz Daryani, National Geographic

Atualmente, o Afeganistão não consegue armazenar ou utilizar grande parte da sua água, diz Faez Azizi, consultor de recursos hídricos no Ministério de Energia e Água do Afeganistão. A maior parte desta água flui para os países vizinhos.

“As pessoas precisam de água”, diz Azizi. “O Afeganistão precisa de construir barragens. Mas, para isso, é necessário um investimento enorme.”

Os projetos de grande escala, como as barragens, são controversos e complicados. A USAID e outras agências governamentais de desenvolvimento têm se esforçado para apoiar projetos de barragens, mas estas iniciativas representam riscos diplomáticos e de segurança, tanto no Afeganistão como em países vizinhos como o Irão.

Para as comunidades rurais no Afeganistão, as barragens são suportes de vida que podem produzir eletricidade, e podem irrigar os campos e desviar a água para consumo.

Em maio, uma pequena vila agrícola ladeada pela cordilheira Indocuche, na província central de Bamiyan, no Afeganistão – famosa pelos seus budas de pedra outrora imponentes, mas que foram destruídos pelos talibãs em 2001 – foi devastada quando as águas destruíram uma barragem e as suas linhas elétricas.

A seca desencadeou uma série de eventos devastadores. As raparigas e mulheres, que tradicionalmente vão buscar água para cozinhar e cuidar das lavouras, foram forçadas a caminhar longas distâncias durante a seca. Numa escola de raparigas, na zona rural de Bamiyan, 20% das estudantes – várias centenas de raparigas – foram retiradas da escola pelas suas famílias durante a seca, diz o diretor da escola, Abdul Qayoon Afshar.

E mesmo durante os períodos de chuva, a água não serviu de muito. Devido à seca, os terrenos não conseguiram absorver a água. E o desflorestamento na encosta da montanha criou uma superfície íngreme por onde a água escoou, destruindo a barragem, o moinho da comunidade e os campos recém-cultivados.

Raparigas afegãs à espera que a aula comece, numa escola secundária para raparigas, na província de Bamiyan. De acordo com o diretor da escola, Abdul Qayoon Afshar, durante a seca, cerca de 20% das estudantes – várias centenas de raparigas – foram retiradas da escola pelas suas famílias.
Fotografia de Solmaz Daryani, National Geographic

“Tem sido cada vez mais difícil”, diz Abdul Ghafur, de 41 anos, que tirou o filho mais velho da escola para o ajudar a replantar os campos. Com os pés metidos na lama, e empunhando uma enxada velha, Abdul suspirou, olhando para os campos de colheitas destruídas que a sua família tinha plantado dias antes. “E vai ficar mais difícil para os meus filhos.”

Abdul Ghafur conta os dias até que, também ele, seja forçado a abandonar Bamiyan à procura de trabalho – tal como os seus vizinhos.

Insegurança alimentar
Em Bamiyan, a geografia montanhosa oferece alguma proteção contra os grupos de milícias. Mas noutras províncias, como na casa de Fatemeh, em Badghis, a oeste de Bamiyan, as secas e os desastres naturais aumentam a insurgência e o recrutamento de militantes.

“Para os talibãs, foi muito fácil tomar de assalto a região”, diz Kamar Gul, de 40 anos, que deixou Badghis há duas décadas, durante uma seca anterior. Kamar ainda tem família em Badghis. “Estávamos todos a morrer de fome.”

Dois irmãos a trabalhar em vão para recuperar os seus campos de batata e trigo, depois de uma inundação ter destruído tudo na província de Bamiyan.
Fotografia de Solmaz Daryani, National Geographic

Em Badghis, região que depende inteiramente das chuvas para a agricultura, a insegurança alimentar ainda está em níveis de crise. Em 2017, cerca de 60% dos afegãos viviam da agricultura, mas quase metade vivia com insegurança alimentar. Só existe outro país, o Iémen, também devastado pela guerra, onde esta insegurança é ainda maior.

“Todas as noites tenho pesadelos onde os meus filhos estão a morrer de fome”, diz Fatemeh. E também diz que alguns dos membros da sua família se juntaram aos talibãs durante a seca. Existem poucas investigações sobre a forma como os efeitos das alterações climáticas, e o desespero que isso traz consigo, afetam as perspetivas de paz.

“As alterações climáticas agravam por completo a situação”, diz Jeremy Pal, professor de engenharia civil e ciências ambientais na Universidade Loyola Marymount, na Califórnia. “As terras aráveis são limitadas e as probabilidades de assistirmos ao aumento de refugiados são enormes.”

Nos últimos anos, a escassez de neve durante o inverno fez com que os talibãs entrassem mais facilmente em conflitos. E no ano passado, morreram mais civis afegãos do que em qualquer ano desde 2009, sobretudo às mãos de aliados afegãos liderados pelos EUA, para além dos ataques das milícias.

Beigom colhe legumes num campo junto aos penhascos de arenito, onde os icónicos budas de pedra foram destruídos pelos talibãs em 2001. Beigom e os seus filhos perderam a colheita do ano passado devido à seca.
Fotografia de Solmaz Daryani, National Geographic

Apesar de os Estados Unidos terem investido cerca de 744.9 mil milhões de dólares nesta região desde 2001, para além de outros milhões vindos da comunidade internacional, grande parte deste dinheiro teve como destino a guerra e os esforços tradicionais de segurança: treino de soldados afegãos, lançamento de bombas e apoio a milhares de tropas estrangeiras. Cerca de 16% do orçamento dos EUA no Afeganistão foram canalizados para a reconstrução – a maioria para financiar projetos de segurança, combate a narcóticos e governação. De todo este dinheiro, só uma pequena fração apoiou iniciativas que visam ajudar os afegãos a adaptarem-se às alterações climáticas e a responder aos desastres naturais.

“O sistema de desenvolvimento não funciona”, diz Anthony Neal, analista político humanitário que geriu a resposta à seca por parte do Conselho Norueguês para os Refugiados – Conselho que ajuda a gerir os campos de pessoas deslocadas internamente, como Fatemeh. “As doações para o desenvolvimento não são adaptáveis e, portanto, contamos apenas com financiamento a curto prazo para responder às emergências e às questões de desenvolvimento a longo prazo.”

Contra-atacar
Apesar de limitadas pela insegurança, pela corrupção e falta de financiamento sustentado, existem algumas iniciativas de combate às alterações climáticas no Afeganistão que surgiram nos últimos anos, algumas delas apoiadas pelos Estados Unidos e pela comunidade internacional. Foram criadas estufas para as mulheres agricultoras e as comunidades receberam formação e financiamento para plantarem culturas de açafrão, em vez de papoilas, que há muito tempo alimentam o comércio ilícito de heroína no Afeganistão.

E também foram desenvolvidos sistemas de alerta precoce para avisar as comunidades sobre a iminência de desastres naturais. Foram instalados poços e sistemas de água em áreas remotas e a sensibilização sobre as alterações climáticas e a ameaça que isso representa para a segurança nacional também aumentou.

Cerca de 725 km a leste de Herat, na província de Panjshir, no nordeste do Afeganistão, as comunidades locais também estão à mercê dos elementos. Nesta região, o rio Panjshir serpenteia por um vale verdejante entre montanhas imponentes. Em 2018, o degelo glaciar inundou terras agrícolas e matou pelo menos 10 pessoas.
Fotografia de Solmaz Daryani, National Geographic

Em setembro, apesar dos ataques terroristas quase diários na capital – e por todo o país – dezenas de jovens afegãos, muitos deles mulheres, saíram às ruas de Cabul para exigirem medidas de combate às alterações climáticas. Protegidos pelas forças de segurança afegãs, os manifestantes ergueram cartazes e protestaram. Muitos deles usavam máscaras para proteger a boca e o nariz do ar poluído pelo fumo denso dos tubos de escape dos veículos da era soviética e dos fogões a carvão. “Parem com a negação, o nosso mundo está a morrer”, dizia um dos cartazes erguido por um jovem.

Embora as iniciativas feitas por todo o Afeganistão se esforcem para promover a resiliência e a adaptação às alterações climáticas, estas iniciativas não conseguem reverter ou retardar os efeitos destas alterações, porque os afegãos não são os principais impulsionadores das alterações climáticas no seu país. Em vez disso, o ónus recai em grande parte nos Estados Unidos, na China e na Índia que, todos juntos, representam metade das emissões de CO2 mundiais. Nos últimos anos, os Estados Unidos reduziram os regulamentos sobre as emissões e reduziram o financiamento a programas de desenvolvimento, tanto no Afeganistão como noutras regiões.

Estas mudanças políticas coincidiram com as controversas negociações de paz com os talibãs, que exigem a retirada das tropas estrangeiras do Afeganistão, para além de outras exigências que deixaram muitos dos afegãos preocupados com o futuro da ajuda internacional.

Agricultores a colher trigo nos arredores de Herat. Para já, a seca extrema de 2018 no Afeganistão terminou. Mas a subida das temperaturas e a escassez de recursos pode piorar a vida de cerca de 13.5 milhões de afegãos que atualmente já lutam contra a insegurança alimentar.
Fotografia de Solmaz Daryani, National Geographic

Em Herat, durante os últimos meses, os campos onde estão Fatemeh e milhares de outras pessoas perderam grande parte do seu financiamento de emergência. Isto significa cortes na distribuição de alimentos, ou de água, e cortes nos programas de educação, levando a um aumento de casamentos infantis e a crianças a mendigarem nas ruas. Os financiamentos foram cortados porque, alegadamente, já não estamos perante uma situação de emergência, a seca acabou e as pessoas, em teoria, podem regressar a casa.

Ali perto, outro campo enorme cheio de afegãos que fugiram da seca e dos conflitos transformou-se numa cidade empobrecida. Estas pessoas, tal como Fatemeh, não planeiam regressar a casa.

Sentada na sua tenda fustigada pelo vento quente e arenoso, Fatemeh reflete sobre a breve infância que teve em Badghis, onde atravessava campos repletos de trigo, ria e brincava com os seus amigos, enquanto o gado pastava nas proximidades.

“Nós tínhamos liberdade”, diz Fatemeh, enquanto segura a pequena mão da sua filha, Fariba. “Queria que a minha filha soubesse o que era isso.”

A não ser que as coisas mudem drasticamente – e depressa – Fariba vai crescer num terreno baldio cheio de tendas de plástico, perto do leito de um rio seco que não serve de muito. Quando Fariba chegar à idade da menstruação, vai pagar a dívida da sua família casando-se com o filho do homem que lhes emprestou dinheiro. Esta família pode ter sobrevivido à seca, mas Fariba perdeu a sua liberdade.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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