Coronavírus: Como se Propaga num Avião – e o Lugar Mais Seguro

As viagens globais abrem novos caminhos para surtos, como o coronavírus e a gripe – mas onde está o maior perigo e como nos podemos manter em segurança?

Wednesday, February 5, 2020,
Por Amy McKeever
Passageiros que voaram da cidade chinesa de Wuhan, o epicentro do novo coronavírus, em quarentena no ...
Passageiros que voaram da cidade chinesa de Wuhan, o epicentro do novo coronavírus, em quarentena no aeroporto de Narita, perto de Tóquio, no dia 23 de janeiro de 2020. Nesta imagem, em primeiro plano, vemos um monitor termográfico configurado para verificar a temperatura corporal.
Fotografia de Kyodo via AP Images

Quando ocorre um surto, ficamos naturalmente com receio de entrar num avião. E quando dois vírus sérios circulam ao mesmo tempo, a situação é ainda mais alarmante.

O mundo está a enfrentar um novo coronavírus que surgiu na China, e que já se alastrou a mais 15 países, incluindo os Estados Unidos. Para além disso, também estamos na época gripal, que até agora já provocou 8.200 mortes nos EUA.

Os principais aeroportos começaram a fazer o rastreio do coronavírus entre os passageiros, e mais de uma dezena de companhias aéreas – incluindo a Delta, a American e a United – interromperam os seus voos para a China continental. Mas estas medidas não servem de muito para quem precisa de embarcar num voo.

Nós podemos evitar a pessoa que está a espirrar no café, por exemplo, mas ficamos de certa forma nas mãos do destino quando apertamos o cinto de segurança dentro de um avião.

Embora ainda exista muito para descobrir sobre o surto de Wuhan, os cientistas estão munidos de algum conhecimento sobre coronavírus semelhantes, e sobre outras doenças respiratórias, como a gripe. Portanto, como é que estes vírus se propagam – principalmente nos aviões? E qual é a gravidade da ameaça do coronavírus em comparação com as gripes como a influenza?

Como se propagam as doenças respiratórias em geral?
Quem costuma espirrar para o braço, ou já se afastou de um colega com tosse no trabalho, já tem um conhecimento básico de como é que as doenças respiratórias se espalham.

Quando uma pessoa infetada tosse ou espirra, expele gotículas de saliva, muco ou outros fluidos corporais. Se alguma destas gotas cair sobre outra pessoa – ou se outra pessoa tocar nesses fluidos e, por exemplo, tocar no rosto – também pode ficar infetada.

Estas gotículas não são afetadas pelo ar que flui através de um espaço, e geralmente caem perto da sua fonte de origem. De acordo com Emily Landon, diretora do departamento de controlo de infeções do Centro Médico da Universidade de Chicago, as diretrizes do hospital para a influenza definem que a exposição ocorre quando estamos a pouco menos de 2 metros de uma pessoa infectada, durante 10 minutos ou mais.

“O tempo e a distância são importantes”, diz Emily.

As doenças respiratórias também se podem propagar através das superfícies onde as gotículas caem – como os lugares e os tabuleiros de comida de um avião. Quanto tempo estas gotículas sobrevivem depende tanto da gotícula como da superfície – por exemplo, se é muco ou saliva, ou se a superfície é porosa ou não. Os vírus podem ter variações enormes relativamente ao tempo que perduram nas superfícies, podem ser horas ou meses.

Também existem indícios de que os vírus respiratórios podem ser transmitidos pelo ar, em pequenas partículas secas conhecidas por aerossóis. Mas, de acordo com Arnold Monto, professor de epidemiologia e saúde pública global na Universidade do Michigan, este não é o principal mecanismo de transmissão.

“Para ser sustentado, sob a forma de aerossóis verdadeiros, o vírus precisa de sobreviver nesse ambiente durante o tempo que está exposto à secagem”, diz Arnold. Os vírus preferem a humidade e muitos perdem as suas propriedades infecciosas se secarem durante muito tempo.

O que significa para as viagens de avião?
A Organização Mundial de Saúde define que o contacto com uma pessoa infetada acontece quando duas pessoas estão sentadas com duas fileiras de distância uma da outra.

Mas as pessoas não permanecem completamente sentadas durante os voos, sobretudo em voos que duram várias horas. As pessoas vão à casa de banho, esticam as pernas e acedem aos compartimentos superiores. Em 2003, durante o surto de coronavírus da síndrome respiratória aguda grave (SARS), um passageiro que estava a bordo de um voo de Hong Kong para Pequim infetou pessoas muito para além dos limites das duas fileiras mencionadas pela OMS. O New England Journal of Medicine refere que os critérios da OMS “não contabilizam 45% dos pacientes com SARS”.

Uma equipa de investigadores de saúde pública, inspirada em parte por este caso, decidiu estudar a forma como os movimentos aleatórios dentro de um avião podem alterar as probabilidades de infeção dos passageiros.

Passageiros sentados à janela têm menor probabilidade de estar em contacto com uma pessoa infectada. As doenças têm maior hipótese de serem transmitidas apenas a passageiros sentados nas filas à frente ou atrás da pessoa infectada. Na legenda, os passageiros sentados nos lugares com tom magenta mais escuro têm maior probabilidade de estar em contacto com uma pessoa infectada.

A Equipa de Investigação FlyHealthy observou o comportamento de passageiros e tripulantes em 10 voos intercontinentais dos EUA, voos com cerca de três horas e meia a cinco horas de duração. A equipa, chefiada por Vicki Stover Hertzberg e Howard Weiss, da Universidade Emory dos EUA, não só analisou a forma como as pessoas se movimentavam pela cabine, mas também como isso afetava a duração dos contactos entre as pessoas. Os investigadores queriam descobrir a quantidade de encontros de proximidade capazes de permitir a propagação durante os voos intercontinentais.

“Suponhamos que uma pessoa está sentada junto ao corredor, ou num dos lugares do meio, e eu preciso de ir à casa de banho”, diz Howard Weiss, professor de biologia e matemática na universidade Penn State. “Entramos em contacto de proximidade, o que significa que estamos a uma distância de um metro. Por isso, se eu estiver infetado, posso infetar outra pessoa. O nosso estudo foi o primeiro a quantificar este tipo de situação.”

O estudo revelou que a maioria dos passageiros acabava por sair do seu lugar – geralmente para ir à casa de banho ou para verificar os compartimentos superiores – durante voos de médio curso. No geral, 38% dos passageiros saíram dos seus lugares apenas uma vez, e 24% mais de uma vez. Os outros 38% permaneceram nos seus lugares durante todo o voo.

Este tipo de atividade ajuda a identificar os lugares mais seguros. Os passageiros com menores probabilidades de se levantarem estavam nos lugares junto à janela: nestes lugares, apenas 43% dos passageiros se levantaram, mas nos lugares junto ao corredor este número subiu para os 80%.

Desta forma, os passageiros junto à janela tiveram menos contacto de proximidade do que os passageiros nos outros lugares – com uma média de 12 contactos em comparação com os 58 dos passageiros nos lugares do meio, e 64 dos que ficam junto ao corredor.

A escolha de um lugar à janela e a permanência no local reduzem claramente as probabilidades de se entrar em contacto com uma doença infetada. Mas o modelo da equipa mostra que os passageiros nos lugares do meio, e junto ao corredor – mesmo os que ficam dentro da faixa das duas fileiras referidas pela OMS – têm probabilidades bastante baixas de infeção.

Howard Weiss diz que isto acontece porque grande parte dos contactos que as pessoas têm nos aviões são relativamente curtos.

“Se estivermos sentados junto ao corredor, certamente haverá muitas pessoas que passam por nós, mas movem-se relativamente depressa”, diz Weiss. “O que mostramos é uma probabilidade de transmissão bastante baixa para qualquer passageiro em particular.”

Mas a história muda se a pessoa doente for um membro da tripulação. Como os comissários de bordo passam muito mais tempo a andar pelos corredor e a interagir com os passageiros, é provável que tenham encontros de proximidade adicionais – e mais longos. De acordo com o estudo, um membro doente da tripulação tem uma probabilidade de infetar 4.6 passageiros, “portanto, é imperativo que os comissários de bordo fiquem em terra quando estão doentes”.

O que significa para o novo coronavírus?
Weiss salienta que ainda não sabemos como é que o novo coronavírus se transmite. Pode ser principalmente através de gotículas respiratórias, contacto físico com saliva ou diarreia, seguido pelo consumo oral de material viral, ou talvez até de aerossóis.

Mas este modelo não inclui a transmissão por aerossóis, embora a equipa da FlyHealthy deseje investigar esse tópico no futuro. No estudo, os investigadores também alertam que este modelo não pode ser extrapolado diretamente para os voos de longo curso, ou para aviões com mais de um corredor.

Emily Landon concorda que ainda não sabemos como é que o coronavírus se transmite, mas acredita que os resultados deste estudo são aplicáveis. Todos os coronavírus anteriores foram transmitidos através de gotículas, por isso, seria incomum se este novo patógeno fosse diferente. E, de facto, o novo coronavírus comporta-se como a SARS em muitos aspetos. Ambos os vírus são zoonóticos, o que significa que começaram em animais antes de darem o salto para os humanos, e ambos parecem ter originado em morcegos. E também se transmitem de humano para humano com um longo período de incubação – até 14 dias para o coronavírus de Wuhan, e cerca de dois dias para a influenza – o que significa que as pessoas podem estar doentes e transmitir a doença sem saberem que têm os sintomas.

Levando estas informações em consideração, Emily Landon sugere que, quando estamos num avião, devemos seguir as orientações do Centro de Controlo de Doenças dos EUA para doenças infecciosas.

Isto inclui lavar as mãos com um sabão normal, ou usar um desinfetante à base de álcool, depois de tocar em qualquer superfície, sobretudo porque existem evidências de que os coronavírus duram mais tempo nas superfícies do que outras doenças – uma média de 3 a 12 horas.

E também devemos evitar, na medida do possível, tocar na cara ou entrar em contacto com passageiros com tosse.

O que é pior, o coronavírus ou a influenza?
Existem várias formas de estimar o risco apresentado por uma doença, mas vamos concentrar as nossas atenções em dois números frequentemente utilizados pelos investigadores de saúde pública: reprodução e taxa de mortalidade.

O número de reprodução – R0 – refere-se ao número de pessoas adicionais que um doente pode infetar. Maia Majumder, membro do corpo docente do Hospital Pediátrico de Boston e da Faculdade de Medicina de Harvard, faz este tipo de acompanhamento.

Os resultados preliminares de Maia indicam uma taxa de transmissão para o novo coronavírus que varia entre as 2.0 e 3.1 pessoas. Estes números são mais elevados do que os da gripe influenza – 1.3 a 1.8 – mas semelhantes aos da SARS, que tem um número de reprodução básico na faixa das 2 a 4 pessoas. Portanto, os coronavírus são um pouco mais propensos à propagação entre pessoas.

Por outro lado, a taxa de mortalidade é o número de pessoas que morrem devido a uma doença, dividido pelo número de pessoas infetadas. A gripe sazonal influenza, apesar de ser considerada um flagelo global, tecnicamente mata uma proporção relativamente pequena de pessoas, com uma taxa de mortalidade a rondar os 0.1%. A razão pela qual esta gripe é uma emergência anual de saúde pública deve-se ao facto de infetar muitas pessoas – entre 2018 e 2019, infetou 35.5 milhões nos EUA, levando a 490.000 hospitalizações e 34.200 mortes. É por esta razão que as autoridades de saúde salientam de forma incansável a importância da vacinação contra a gripe.

A taxa de mortalidade também ajuda a explicar porque é que as agências de saúde pública emitem alertas sobre surtos emergentes de coronavírus. A SARS teve uma taxa de mortalidade de 10%, cerca de 100 vezes mais do que a gripe influenza, e a taxa para o novo coronavírus está atualmente perto dos 3% - comparável à pandemia de gripe espanhola de 1918.

Se a SARS ou o coronavírus de Wuhan atingirem milhões de pessoas, os efeitos podem ser devastadores. Emily Landon diz que, ao contrário da gripe influenza, toda a população humana está suscetível a este coronavírus, porque nunca foi contraído anteriormente – e não existe um tratamento específico, como uma vacina.

As autoridades de saúde e o público em geral dependem do controlo de infeções, seja lavar as mãos, reduzir o contacto com indivíduos afetados e os processos de quarentena. Arnold Monto diz que estas medidas de saúde pública podem fazer a diferença na luta contra este coronavírus, tal como fizeram com a SARS.

“É essa a nossa esperança, a de que o coronavírus de Wuhan possa ser controlado pelas medidas padrão de saúde pública – porque é o que temos de momento”, diz Arnold. “Para a gripe, temos vacinas e alguns antivirais. Mas não temos estes tratamentos para o novo coronavírus.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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