Degelo do Solo Ártico Está a Libertar Gases Perigosos

O “degelo abrupto” afeta 5% do pergelissolo do Ártico, mas o aquecimento provocado pelo mesmo pode vir a duplicar.

Friday, February 21, 2020,
Por Craig Welch
No leste da Sibéria, a cratera Batagaika, provocada pelo degelo do pergelissolo, tem 800 metros de ...
No leste da Sibéria, a cratera Batagaika, provocada pelo degelo do pergelissolo, tem 800 metros de largura e está a aumentar. A cratera contém os restos orgânicos de folhas, gramíneas e animais que morreram há milhares de anos.
Fotografia de Katie Orlinsky, Nat Geo Image Collection

Nas florestas de abetos ao longo do rio Tanana, na região centro do Alasca, as cientistas Miriam Jones e Merritt Turetsky observaram durante anos as árvores a inclinarem-se e a caírem no solo pantanoso. Com o passar do tempo, a terra começou a perder solidez e a ficar encharcada. Este solo, outrora firme, denso com gelo, estava a aquecer, a afundar-se e a ficar ensopado com as águas das chuvas e neve derretida.

Os cientistas sabem há décadas que, à medida que as temperaturas mais quentes degelam as latitudes do norte, o solo previamente congelado – chamado pergelissolo – liberta gases de efeito estufa, o que, por sua vez, acelera as alterações climáticas a nível global.

Mas no início de fevereiro, com base no que aprenderam a estudar as “florestas embriagadas” do Alasca, Turetsky, Jones e uma equipa de especialistas confirmaram outra coisa: o aquecimento de pequenas manchas de solo congelado, que contêm vastas quantidades de gelo, liberta emissões bastante acima do esperado.

Este processo, chamado “degelo abrupto”, pode atingir apenas 5% do pergelissolo do Ártico, mas pode ser o suficiente, de forma conservadora, para duplicar a contribuição geral do pergelissolo para o aquecimento do planeta. Foi esta a conclusão da equipa de investigadores liderada por Turetsky num estudo publicado no dia 3 de fevereiro na Nature Geoscience.

“É uma pequena mudança, mas pode ter um impacto enorme”, diz Turetsky, diretora do Instituto de Pesquisa do Ártico da Universidade do Colorado.

Os cientistas dizem que o degelo abrupto não é motivo para alarme. O pergelissolo continua a produzir menos emissões do que a queima de carvão, petróleo e gás natural. David Lawrence, cientista do Centro Nacional de Pesquisas Atmosféricas, em Boulder, no Colorado, disse que o degelo do pergelissolo pode amplificar as alterações climáticas provocadas pelos humanos em cerca de 10%.

O aumento deste número para o dobro é significativo porque o Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) – a organização mundial que estima a rapidez com que precisamos de parar com a queima de combustíveis fósseis para evitar um aquecimento maior – não levou em consideração o degelo do pergelissolo.

Por outras palavras, se quisermos manter o aquecimento global nos 1.5 ou 2 graus Celsius, temos de adotar energias renováveis muito mais depressa do que se pensava.

Congelador de carbono a deteriorar
Apesar de os resultados de Turetsky só terem sido publicados no início deste mês, os seus anos de investigação e os anos de investigação de muitos dos seus coautores formaram a base para um artigo publicado em setembro de 2019 na National Geographic.

O artigo revelou o que os cientistas já sabiam há muito tempo – o pergelissolo retém quase o dobro do carbono relativamente à atmosfera, sobretudo os restos parcialmente deteriorados de plantas e animais antigos. Ninguém espera que todo este terreno derreta, e a maior parte do degelo pode acontecer gradualmente ao longo de décadas, libertando lentamente a maior parte do dióxido de carbono. Uma parte deste CO2 pode ser absorvida pelas plantas – com a subida das temperaturas, a vegetação no Ártico também aumenta.

Mas uma pequena fração dos 23 milhões de quilómetros quadrados de pergelissolo do Ártico está repleta de gelo sólido. Quando este solo derreter, o gelo também derrete, alterando dramaticamente a paisagem. Para preencher o vazio deixado pela água descongelada, o solo abate, criando crateras que se transformam em lagos. E toda esta humidade acelera ainda mais o degelo.

O aquecimento do solo também expõe zonas de turfa ricas em carbono que estão aprisionadas neste congelador há milhares de anos. Isto pode provocar deslizamentos de terras e agitar solos antigos. E em muitas partes do Ártico, estas mudanças estão a acontecer muito mais depressa do que o esperado. Entre 1984 e 2013, numa ilha no norte do Canadá, os abatimentos de solo aumentaram cerca de 60 vezes.

Tudo isto é importante por uma simples razão: assim que o gelo sólido começar a drenar, muitas das alterações na paisagem poderão ocorrer praticamente da noite para o dia, em apenas dias, semanas ou meses. E quando estas mudanças acontecerem, muito do carbono retido nestas terras densas de gelo será libertado sob a forma de metano, que consegue ser um gás de efeito estufa até 25 vezes mais potente do que o CO2.

Por vezes, os cientistas até conseguem observar isto a acontecer. Katey Walter Anthony, da Universidade do Alasca, em Fairbanks, costuma sair no escuro do inverno Ártico para fazer buracos em lagoas cobertas de gelo. Com uma chama, Katey consegue documentar a libertação de metano.

Durante vários anos, na primavera, Jones e Turetsky, ambas especialistas em zonas húmidas do Ártico, visitaram o interior do Alasca para recolher amostras do pergelissolo. Uma vez, já há alguns anos, Jones – que trabalha para o Serviço Geológico dos Estados Unidos – examinou um buraco que ela tinha acabado de fazer com os seus instrumentos. Ao longo de vários metros, Jones viu um borbulhar. O chão estava tão quente que os micróbios se estavam a alimentar de matéria vegetal antiga, libertando metano através da humidade do solo. “Parecia que estava a ferver”, diz Jones.

Contagem de pergelissolo
O estudo publicado por Turetsky no início de fevereiro é o primeiro a tentar quantificar todas as formas pelas quais estas mudanças no pergelissolo podem contribuir para as emissões de gases de efeito estufa – e quão grande é essa contribuição.

“Muitos de nós pensámos que seria muito menor”, diz um dos coautores do estudo, David Lawrence. “Foi surpreendente.”

A conclusão, diz Lawrence, é a de que o pergelissolo vai dificultar bastante as nossas metas para as emissões.

Os modelos de computador que projetam a forma como as emissões afetam as alterações de temperatura globais estão agora a começar a simular o degelo do pergelissolo. A última avaliação importante do IPCC, feita em 2014, não incorporou as emissões do pergelissolo nas metas futuras para as temperaturas. Em 2018, o relatório especial do IPCC sobre o limite do aumento das temperaturas dizia que as emissões globais de combustíveis fósseis precisavam de ser cortadas em 45% até 2030, e completamente até 2050. Este relatório usava um modelo simplificado para estimar o degelo gradual – e não englobava o degelo abrupto.

Os cientistas sabem que é preciso definir metas políticas já, para começarmos a acelerar a transição para formas de energia mais limpas, diz Turetsky. Se os governos não levarem em consideração os dados apresentados pelo pergelissolo, quão realistas são as projeções?

Os investigadores também não sabem ao certo como se pode resolver isto. As paisagens do Ártico são vastas e pouco monitorizadas, e outros fatores – como o aumento de incêndios no Ártico – podem acelerar ainda mais o degelo.

Charles Koven, cientista da equipa do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, é um dos autores principais da próxima avaliação do IPCC que aborda um capítulo sobre o ciclo de carbono. E também é coautor do estudo de Turetsky.

“Estamos cientes destes resultados e vamos levá-los em consideração”, diz Kovens.

De uma forma quase surpreendente, Turetsky argumenta que os estranhos comportamentos paisagísticos que os investigadores estão a documentar, como o degelo do pergelissolo, podem ser considerados uma dádiva.

“As alterações no Ártico parecem assustadoras. Mas o Ártico está a revelar as suas lições enquanto ainda estamos no controlo do nosso futuro. O Ártico está a dizer-nos o que pode acontecer no mundo inteiro durante as próximas décadas.”

Só precisamos de ouvir – e responder de forma célere e adequada.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler