Entrevista a Zita Martins – a Primeira Astrobióloga Portuguesa

Entrevistámos Zita Martins, Astrobióloga e codiretora nacional do Programa MIT Portugal, que através da sua persistência e curiosidade, nos inspira a ir mais além. terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Por National Geographic

Foi a primeira Astrobióloga portuguesa e é uma das maiores especialistas em astrobiologia do mundo. Enquanto cientista convidada da NASA, resolveu um dilema que o qual a comunidade científica procurava resposta há mais de 40 anos: alguns meteoritos tinham sido analisados e tinham sido detetados os compostos que fazem parte do nosso material genético nesses meteoritos – mas a comunidade científica não sabia se esses compostos tinham sido fruto de contaminação terrestre ou extraterrestre. Zita Martins conseguiu descobrir que estes compostos presentes em meteoritos são formados fora da Terra e que já existiam antes da vida na Terra e foram trazidos por meteoritos para o nosso planeta.

Acumula o cargo de professora associada no Instituto Superior Técnico com a participação em várias missões espaciais e a codiretoria nacional do Programa Científico-tecnológico MIT Portugal. Em 2015, a especialista no estudo da origem, evolução e distribuição da vida no Universo foi condecorada com o título de Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada pelo Presidente da República pelo seu mérito e contributo científico.
 

Explique o seu trabalho numa frase.
Sou Astrobióloga, sou uma cientista que procura descobrir como surgiu a vida na Terra e se existe vida em outras partes do nosso sistema solar.

Como é que a série de televisão ‘Cosmos’ a influenciou a estudar Astrobiologia?
Quando estava no liceu, tinha 14/15 anos, tive uma professora de Biologia que nos mostrava nas aulas algumas cassetes de vídeo do Carl Sagan e dos seus programas de televisão, neste caso o programa Cosmos. Lembro-me que na altura fiquei muito fascinada pela maneira simples, acessível, mas cientificamente correta como falava. Fascinou-me porque ele falava um pouco de tudo, não falava só de Astronomia ou só de Espaço. Falava também de Geologia, Química e Física, de uma forma muito simples.
O Carl Sagan foi uma inspiração nesse sentido, não só para mim, mas para muitas pessoas da minha geração. Obviamente que aos 14/ 15 anos não pensava na palavra Astrobiologia ou na carreira de Astrobiologia. Anos mais tarde, quanto entrei na faculdade e tirei uma licenciatura em química no Instituto Superior Técnico de cinco anos, o nosso último ano era um estágio de um ano a fazermos o que quiséssemos. Lembro-me que no quarto ano andava à procura do que queria fazer. Gostava de Química, mas não queria fazer só Química para o resto da vida. E lembro-me de ler o livro do Carl Sagan ‘Contacto’ e ao mesmo tempo dar na televisão um filme com a Jodie Foster e lembro-me que me deu um clique e pensei “é mesmo isto que eu quero fazer para o resto da minha vida, é nisto que eu quero trabalhar”, é aplicar todos os conhecimentos que tenho de Química, mas a Química no Espaço.
O Carl Sagan teve um papel fundamental e se hoje sou Astrobióloga e estou a trabalhar nesta área, é devido a ele. Daí a importância da comunicação da Ciência e de inspirar as futuras gerações de cientistas.

Se pudesse viajar no tempo, o que gostaria de descobrir sobre a origem da humanidade?
Se for passado, o momento crucial da origem da vida. Porque é uma das grandes questões que ainda não resolvemos em Ciência e honestamente não sei se alguma vez conseguiremos descobrir. Temos dados e muita investigação a ser feita nessa área, mas obviamente não podemos viajar para trás no tempo e para tentar responder à curiosidade de tantos colegas na área, que no passado seria sem sombra de dúvidas o momento da origem da vida.

Quais as descobertas astronómicas das últimas décadas que destaca?
Começando talvez pela primeira vez que se detetou um exoplaneta e que ganhou o Prémio Nobel da Física em 2019. Isto foi nos anos 90, mas desde então exponencialmente descobrimos cada vez mais planetas a orbitar outras estrelas.
O ano passado celebrámos a ida do homem à Lua e isso para mim também foi um momento-chave, em termos científicos e históricos, pela corrida entre americanos e russos.
Depois, a primeira e até hoje, a única missão espacial de deteção de vida extraterrestre – a Missão Viking em 1976. Eu ainda não era nascida, mas quando se trabalha nessa área é uma missão fundamental. Já tivemos variadíssimas missões espaciais desde os anos 60, mas de deteção de vida extraterrestre só tivemos uma com sucesso. Isto mostra a dificuldade e os anos que se põe a nível de investigação.
Mais recentemente temos a missão Roseta - uma missão europeia de cometas - e a missão ExoMars, que já está na órbita de Marte. Há uma série de missões espaciais, mas estas são as que pessoalmente me marcaram mais.

Quais as coordenadas de Portugal no mapa astronómico?
Temos agora uma Agência Espacial Portuguesa que é um marco, porque uma série de países, nomeadamente na Europa, tinham agências espaciais, e Portugal não tinha. Houve uma grande luta da comunidade científica portuguesa e esse esforço ao longo dos anos, finalmente deu frutos. Estando inseridos na comunidade europeia, fazemos parte e contribuímos financeiramente para a Agência Espacial Europeia e temos um papel a desempenhar nas várias missões espaciais. Há muitos cientistas envolvidos em missões espaciais, temos o Pedro Machado, o Nuno Santos, …muitos deles a fazer belíssimo trabalho que tem de ser reconhecido e nomeado.
Estou envolvida em várias missões espaciais, como a Comet Interceptor. Sou a única cientista portuguesa, portanto, mais uma vez estamos a colocar Portugal no mapa numa muitíssimo importante missão espacial. Portugal também participa na missão que será lançada ao mesmo tempo, a Ariel – que irá analisar a atmosfera de planetas, onde temos o Pedro Machado que lidera a participação portuguesa na equipa, da qual também faço parte. Faço parte também de duas missões que irão para a Estação Espacial Internacional – a ExoCube e a OREOcube; e de uma missão espacial japonesa Hayabusa 2, que no fim deste ano esperamos que chegue inteira a Terra com as suas amostras de um asteroide.
Obviamente temos também um tecido empresarial que trabalha, contribui e desenvolve equipamento para missões espaciais e há que reconhecer novamente isso. Acho que vamos conseguir levar este barco da investigação a nível do espaço a bom porto. Vejo com um sorriso o ano de 2020 e os próximos anos nesta área.

Numa era em que a tecnologia evoluí a anos-luz, tem algum sonho espacial?
Os meus sonhos nesta área são sempre a longo prazo. As missões espaciais chegam a demorar décadas para ser preparadas e eu não me posso queixar porque faço parte de uma série de futuras missões espaciais, independentemente de tudo o que aconteça no futuro – porque nunca sabemos se uma missão espacial vai ter sucesso ou não.
Quem trabalha nesta área não pode ver apenas o objetivo final, só fazer parte de uma missão espacial já é um enorme privilégio. E eu faço parte de uma variedade enorme de missões espaciais e em adolescente, quando ouvia e via as cassetes do Carl Sagan nunca iria imaginar que estaria envolvida em tais missões espaciais.
Para mim o sonho de fazer parte de uma missão que vai a um cometa, a um asteroide ou a outro sítio qualquer do nosso sistema solar só por si já é uma grande alegria. Temos todo um sistema solar para analisar e até fora do nosso sistema solar, todo um universo, e para mim fazer parte de cada uma destas coisas já é uma enorme conquista e que me coloca um sorriso todos os dias na cara.

Se pudesse pedir um desejo para o Planeta, qual seria?
Numa altura em que estamos numa crise climática tão grande e em que estamos a abrir os olhos para o que temos estado a fazer ao nosso planeta, um desejo seria reforçar ainda mais a disciplina de cidadania nas escolas de todo o país.
Conhecimento só por si não tem grande valor. Enquanto cientistas sabemos que todo o conhecimento que nós adquirimos tem de ser para o bem da humanidade. Vejo isso por exemplos nas missões espaciais que faço parte. Tudo o que estamos a desenvolver em termos de tecnologia vai gerar spin-offs, vai gerar outros objetos que mais tarde têm utilidade e que melhoram a qualidade de vida dos seres humanos.
Esse seria o meu desejo: dar ferramentas para que o povo perceba a importância da educação e do conhecimento para o bem-estar do mundo em geral.
 

CURIOSIDADES
Cresceu em…
Lisboa.
O seu herói científico é… Carl Sagan.
Num dia típico… não há um dia típico!
Para se divertir… estou com a família, estou com os amigos, viajo, cozinho, ouço música, vou ao cinema, vou ao teatro, vou ao ballet, ...
O seu sítio preferido no mundo é… a minha casa – Portugal sem sombra de dúvidas!
Não consegue viajar sem… o passaporte e o telemóvel.
O seu melhor conselho para alguém que sonhe em trabalhar em Astrobiologia é… estudar muito, adquirir conhecimento interdisciplinar, ler muito e viajar para várias universidades.
 

Esta entrevista foi encurtada por motivos editoriais.

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