A Erupção do Vesúvio Transformou Um Cérebro em Vidro

Os estudos mais recentes revelam detalhes sobre o que aconteceu às vítimas do infame evento de 79 d.C.

Wednesday, February 5, 2020,
Por Robin George Andrews
Estes fragmentos de material semelhante a vidro foram extraídos da cavidade craniana de uma vítima da ...
Estes fragmentos de material semelhante a vidro foram extraídos da cavidade craniana de uma vítima da erupção do vulcão Vesúvio – em 79 d.C. – que destruiu as cidades de Pompeia e Herculano.
Fotografia de Paolo Patrone, University of Naples Federico II


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Quando o Monte Vesúvio libertou a sua fúria em 79 d.C., a cidade de Herculano foi apenas uma de várias cidades sufocadas pelas cinzas e avalanches vulcânicas. Agora, três séculos depois do início das escavações, os especialistas ainda não sabem concretamente o que matou os habitantes desta metrópole movimentada.

Juntamente com o colapso de edifícios, os detritos no ar e o pânico das pessoas em fuga, vários estudos culparam a inalação de cinzas e de gases vulcânicos, o choque térmico repentino e até a vaporização dos tecidos moles dos corpos pessoas para as causas de morte.

Agora, dois estudos acrescentam algumas reviravoltas a esta história.

Um dos estudos conclui que as pessoas que se esconderam nos armazéns de barcos da cidade não foram realmente queimadas ou vaporizadas, mas sim assadas como se estivessem dentro de um forno de pedra. E o outro estudo encontrou uma vítima, numa zona diferente da cidade, cujo cérebro parece ter derretido antes de se ter transformado em vidro, como se tivesse sido alvo de algum tipo de feitiçaria.

Mesmo que estas transformações biológicas se venham a verificar em investigações futuras, isso não significa que fiquemos finalmente a saber como é que estas pessoas morreram. Para já, só sabemos o que aconteceu na hora das suas mortes.

Factos sobre Vulcões

“Como muitas das provas se perderam ao longo do tempo, provavelmente nunca ficaremos a saber toda a verdade sobre a forma como morreram”, diz Elżbieta Jaskulska, osteoarqueóloga na Universidade de Varsóvia. Mas tentar resolver este quebra-cabeças vale a pena porque preenche alguns dos capítulos ausentes de uma história icónica e não só.

“Os desastres vulcânicos não se limitam ao passado”, diz Janine Krippner, do Programa Global de Vulcanismo do Instituto Smithsonian.

Existem muitos vulcões pelo mundo inteiro capazes de produzir explosões semelhantes, o que significa que a história pode voltar a repetir-se. Compreender a forma como estas avalanches vulcânicas afetaram as pessoas no passado pode permitir aos socorristas uma preparação adequada para tratar aqueles que, apesar de feridos, podem sobreviver à ira de um vulcão no futuro.

Se for verdade, é espantoso
Naquele dia de verão em 79 d.C., as avalanches vulcânicas de cinzas e gás, que se moviam a cerca de 80 km por hora, eram inquestionavelmente a característica mais mortífera do Vesúvio. Estas avalanches são frequentemente denominadas de fluxos piroclásticos, mas as versões gasosas que inundaram a cidade de Herculano chamam-se correntes piroclásticas.

Acredita-se que muitas das vítimas atingidas pela erupção tenham morrido devido a asfixia provocada pelas cinzas e gases tóxicos. Nas últimas duas décadas, um conjunto de estudos feitos com a coautoria de Pier Paolo Petrone, paleobiólogo no Hospital Universitário Federico II, em Nápoles, sugeriu que as temperaturas da corrente eram tão elevadas que os órgãos internos de muitas das pessoas pararam repentinamente, mortes atribuídas a choques térmicos extremos.

Em 2018, Paolo Petrone e os seus colegas encontraram compostos avermelhados e ricos em ferro nos ossos quebradiços de muitas das vítimas de Herculano. Estes salpicos, disseram os investigadores, surgiram da destruição dos glóbulos vermelhos, quando as correntes escaldantes vaporizaram os tecidos moles das vítimas – como os músculos, os tendões, os nervos e a gordura. A temperatura dos fluidos no cérebro também pode ter criado pressão e fazer com que os crânios explodissem. Estas alegações foram recebidas com ceticismo por parte de alguns especialistas que observaram que, quando se faz a cremação de um corpo a temperaturas muito mais elevadas, não existe vaporização.

Este debate tem permanecido inconclusivo – mas um novo estudo feito por Petrone e pela sua equipa, publicado no dia 23 de janeiro no New England Journal of Medicine, vem juntar mais combustível à discussão.

Sopa e vidro
Nas descobertas arqueológicas, encontrar tecidos cerebrais é extremamente raro. E mesmo quando são descobertos, muitas vezes não estão preservados – parecem uma sopa de compostos de glicerol com ácidos gordos. Petrone decidiu analisar uma das vítimas em particular, encontrada na década de 1960 dentro do Collegium Augustalium, um edifício dedicado ao culto do imperador Augusto, que governou Roma desde 63 a.C. até 14 d.C.

Surpreendentemente, foi encontrada uma substância semelhante a vidro dentro do crânio rachado – uma descoberta inesperada porque a erupção em si não produziu material vulcânico vítreo. O vidro presente neste crânio continha proteínas e ácidos gordos comuns no cérebro, para além de ácidos gordos que normalmente são encontrados nas secreções oleosas do cabelo humano. E não foram detetadas fontes vegetais ou animais para estas substâncias nas proximidades.

Petrone explica que os fragmentos de vidro podem ser os restos do cérebro da vítima – para além de serem o primeiro exemplo deste tipo alguma vez encontrado em qualquer contexto, tanto antigo como moderno.

Este tecido transformado em vidro só pode ter sido criado através de vitrificação, um processo onde um material aquece até que se liquefaz, e depois arrefece muito rapidamente sob a forma de vidro, em vez de sólido comum. A madeira carbonizada nas proximidades sugere que as temperaturas dentro do edifício podem ter atingido os 520 graus Celsius. Aparentemente, esta temperatura é suficiente para inflamar a gordura corporal, vaporizar os tecidos moles e derreter o tecido cerebral. A matéria cerebral foi arrefecida de forma súbita, mas Petrone diz que, para já, a forma como isto aconteceu ainda permanece um mistério.

“Pensar que o calor intenso pode transformar o nosso cérebro em vidro, é espantoso e aterrador ao mesmo tempo”, diz Miguel Vilar, antropólogo biológico da National Geographic Society.

Mas o processo de vitrificação aqui presente ainda não está completamente desenvolvido, e como não se sabe exatamente porque é que o cérebro desta pessoa é (para já) o único deste género entre as vítimas do vulcão, não se pode afirmar com certeza de que estamos perante matéria cerebral verdadeiramente vitrificada.

Cozido sem queimar
O outro estudo, também publicado no dia 23 de janeiro, desta feita na revista Antiquity, examinou restos mortais que apontam para um desfecho diferente para as pessoas que morreram ao longo da orla marítima de Herculano. Os homens reuniram-se na praia, talvez na tentativa de organizar uma evacuação marítima, ao passo que as mulheres e as crianças se esconderam maioritariamente em câmaras de pedra – chamadas fornici – destinadas aos barcos. Todas as pessoas morreram e, até agora, foram escavados 340 corpos nessa área.

Os ossos destas vítimas eram há muito tempo encarados como restos sem nada para oferecer. Mas, durante a última década, as novas técnicas científicas foram capazes de analisar os fragmentos humanos queimados e assim oferecer uma janela temporal para a hora das mortes.

“É possível descobrir muita coisa sobre a vida de uma pessoa a partir dos seus restos cremados”, diz Tim Thompson, antropólogo biológico na Universidade de Teesside, em Inglaterra. Thompson e os seus colegas pensaram em aplicar estas técnicas às vítimas do Vesúvio.

A equipa examinou os ossos das costelas de 152 indivíduos que estavam em 6 dos 12 fornici. Analisaram a qualidade do colagénio, uma proteína essencial que é bastante robusta ao longo de enormes períodos de tempo, mas que se pode deteriorar na presença de temperaturas elevadas.

Um grupo de pessoas estuda os corpos na Casa de Cryptoporticus enquanto percorre as ruínas de Pompeia. Para além desta cidade, que fica perto de Nápoles da atualidade, a cidade portuária de Herculano e muitos outros locais perto do Monte Vesúvio foram soterrados pelos fluxos e correntes piroclásticas em 79 d.C.
Fotografia de David Hiser, Nat Geo Image Collection

Entre as 152 pessoas examinadas, apenas 12 tinham o colagénio altamente deteriorado. Grande parte destas 12 amostras pertencia a crianças, cujo esqueleto menos mineralizado deixaria o seu colagénio mais vulnerável ao longo do tempo. E também existe uma correlação comprovada entre o grau a que um osso é cristalizado e a sua exposição a altas temperaturas. Mas a equipa descobriu que os ossos destas vítimas tinham níveis baixos de cristalização.

Ambas as descobertas indicam – de forma convincente, diz Jaskulska – que as vítimas nos fornici não estiveram expostas às temperaturas extremamente elevadas das correntes piroclásticas, no momento da morte ou imediatamente a seguir.

Os diversos estudos que analisaram as propriedades magnéticas dos materiais na zona, como os danos no reboco, na madeira, nas argamassas e assim por diante, obtiveram uma estimativa para as temperaturas das correntes piroclásticas da erupção. Estas variam entre máximas de 800 graus Celsius e mínimas de 240 graus.

O novo estudo sugere que o limite das temperaturas mínimas é o mais plausível. Mesmo com temperaturas mais baixas, os ossos das vítimas deviam ter sofrido mais danos. A ausência destes danos significa que os cadáveres tinham uma proteção adicional contra as correntes piroclásticas.

Os danos provocados pelo calor foram provavelmente atenuados pelas paredes intactas dos fornici. Os tecidos externos inchados e a água acumulada em torno dos ossos mais longos também significa que os esqueletos foram cozidos em vez de queimados.

Crucialmente, as vítimas não foram incineradas; em vez disso, a corrente piroclástica aqueceu o ar circundante, processo que é menos eficaz na destruição de tecidos humanos do que um fogo real.

Morte na escuridão
Thompson diz que não encontraram vaporização de tecidos moles. Nos estudos controlados de cremação, mesmo com temperaturas superiores a 650 graus, demora pelo menos 40 minutos até que o tecido humano seja totalmente destruído. E as correntes piroclásticas não conseguem replicar estas condições.

“É uma teoria que não tem muita sustentação”, diz Thompson.

Petrone concorda que as pessoas amontoadas teriam mais proteção contra os danos provocados pelo calor. Mas discorda de que as temperaturas eram baixas dentro dos fornici, referindo a vítima com o cérebro de vidro dentro do Collegium, cujo esqueleto estava carbonizado e fraturado, e o crânio aparentemente explodiu devido às altas temperaturas.

Divisões científicas à parte, ninguém tem duvidas de que os momentos finais destas pessoas foram um pesadelo, diz Thompson. As pessoas morreram na escuridão, devido a uma exposição extrema ao calor ou por asfixia. Plínio, o Jovem, um advogado e escritor romano que observou a erupção à distância, diz numa carta que algumas das pessoas estavam tão assustadas com o evento que rezaram para morrer. Muitas pediram ajuda aos deuses, escreveu Plínio, mas muitas mais acreditaram que não já restavam deuses e que a noite eterna tinha caído sobre o mundo.

Apesar de poder ser macabro refletir sobre tudo isto, a forma como estas pessoas morreram pode revelar características importantes das correntes piroclásticas – que ainda não são completamente compreendidas – diz Krippner. E isto, por seu lado, pode ajudar os cientistas nos seus esforços para prever e mitigar uma futura catástrofe vulcânica. De facto, 2 mil anos após a sua morte, as vítimas em Herculano podem estar a ajudar a proteger da vida de outras pessoas.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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