Fósseis Mais Antigos das Abelhas Modernas Encontrados na Argentina

Estes fósseis com 100 milhões de anos de idade confirmam que as abelhas se diversificaram juntamente com as primeiras plantas floríferas.sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Um novo achado fóssil provocou o alvoroço entre os paleontólogos: ninhos antigos que confirmam que as abelhas estavam vivas e bem de saúde na Patagónia de há 100 milhões de anos, assinalando também a evidência fóssil mais antiga das abelhas modernas.

Os ninhos, descritos recentemente na PLOS ONE, consistem em túneis esculpidos com pequenos nichos onde as larvas das antigas abelhas amadureciam em segurança. O único grupo de insetos vivos que constrói ninhos desta forma pertence à família Halictidae, um grupo global de abelhas altamente diversificado – estas abelhas também são conhecidas por abelhas sudoríferas. Algumas das abelhas Halictidae da atualidade constroem ninhos subterrâneos muito semelhantes aos dos fósseis recém-descobertos.

Dado que é improvável que um animal desconhecido construa a mesma arquitetura de ninho, os investigadores estão confiantes de que os ninhos fósseis foram construídos por abelhas Halictidae, e que ficaram preservados nas rochas que se formaram há 100 ou 105 milhões de anos. Estes ninhos são alguns milhões de anos mais antigos do que os ninhos de abelhas mais antigos conhecidos até agora, e que tinham entre 94 e 97 milhões de anos, e são muito mais antigos do que o fóssil de corpo definido mais antigo de uma abelha, que provavelmente não tem mais de 72 milhões de anos.

Esta descoberta acrescenta detalhes relevantes à história evolutiva das abelhas, um dos grupos polinizadores mais importantes, e ajuda a confirmar que as abelhas e algumas das primeiras plantas floríferas se diversificaram em conjunto, há cerca de 110 ou 120 milhões de anos, durante o início do Cretáceo.

“Isto solidifica ainda mais este período temporal... e chega a ser impressionante que, devido a este tipo de registo fóssil secundário, é como se fosse um prémio da lotaria que nós, enquanto paleontólogos, podemos aproveitar”, diz Phil Barden, biólogo evolutivo no Instituto de Tecnologia de Nova Jersey que não participou no estudo.

Marcas do passado
Os achados fósseis evocam geralmente imagens de um esqueleto ou os contornos do corpo de um animal morto há muito tempo. Mas existem muitos outros vestígios da vida antiga que conseguem sobreviver, incluindo pegadas, ninhos, tocas e até excrementos fossilizados (conhecidos por coprólitos). Estas estruturas preservadas, chamadas vestígios fósseis, ou icnofósseis, captam momentos específicos no tempo e revelam a atividade biológica de animais extintos.

“O fóssil de um corpo é como uma imagem parada. Mas um icnofóssíl é um filme em movimento”, afirma o autor do estudo, Jorge Fernando Genise, paleontólogo no Museu de Ciências Naturais Bernardino Rivadavia, em Buenos Aires. “Nós conseguimos ‘ver’ os insetos a mexer, a cavar, a visitar flores e a construir abrigo.”

Quando Jorge Genise era criança, era fascinado por vespas e, desde então, escreveu um livro sobre como estudar insetos pré-históricos a partir de vestígios fósseis. O seu foco principal é o Cretáceo, período em que a maioria dos insetos com vestígios preserváveis surgiu ou se diversificou.

Em 2015, Jorge Genise e os seus colegas visitaram a Formação Castillo, uma série de afloramentos rochosos no sul da Argentina que se formaram há 100 ou 105 milhões de anos, para procurar ninhos antigos de insetos. Mas chegar ao local não foi fácil. Durante o dia, o sol e o vento fustigam as infinitas e solitárias paisagens da Patagónia e, durante a noite, as temperaturas descem para temperaturas congelantes. “Neste contexto, o trabalho de campo é muito difícil, mas ao mesmo tempo também é gratificante, sobretudo quando encontramos este tipo de tesouro escondido nas rochas e o disponibilizamos à ciência”, diz Genise.

Quando a equipa caminhava ao longo de um penhasco, um dos investigadores, J. Marcelo Krause, paleontólogo no Museu de Paleontologia Egidio Feruglio, na Argentina, viu uma estrutura a sair das rochas, que acabou por ser o ninho fossilizado das abelhas. Para reconhecer a descoberta de Krause e as suas contribuições neste campo de investigação, Genise e a sua equipa nomearam o ninho fóssil de Cellicalichnus krausei.

A equipa de Genise regressou ao local em 2017, para recolher o maior número possível de fósseis, incluindo algumas evidências adicionais de besouros e vespas. E também recolheram dados químicos para compreender melhor os solos antigos escolhidos pelas abelhas para construirem os seus lares subterrâneos. Os insetos parecem ter se aninhado num ambiente de várzea, em solos formados a partir de cinzas vulcânicas.

Encontro de genes e fósseis
A equipa de Genise também desenvolveu um novo modelo de árvore genealógica para as abelhas, combinando o ADN de 64 espécies de abelhas vivas com o ADN encontrado nos ninhos fósseis e de outras descobertas fósseis anteriores. O ADN consegue gerar árvores genealógicas, mas estimar quando é que os diversos grupos viveram e divergiram uns dos outros pode ser complicado. Quando a equipa dispôs  os dados fósseis por camadas, Genise e os seus colegas conseguiram restringir as idades mínimas de alguns dos grupos de abelhas, e os novos ninhos fósseis revelaram que as Halictidae evoluíram desde há mais de 100 milhões de anos.

Este modelo demonstra que as abelhas modernas se começaram a diversificar a um ritmo vertiginoso, há cerca de 114 milhões de anos, exatamente na época em que as angiospérmicas – o grupo de plantas que compreende 75% das plantas com flores – se começaram a ramificar. Os resultados confirmam alguns estudos genéticos feitos anteriormente e reforçam o facto de as plantas floríferas e as abelhas polinizadoras terem coexistido e evoluído em conjunto desde o início.

Agora que Genise e os seus colegas revelaram os ninhos antigos, a equipa está a trabalhar para analisar outros icnofósseis notáveis, incluindo alguns que preservam o comportamento antigo de libélulas e um ninho fóssil de formigas que, aparentemente, foi atacado por um parente antigo do papa-formigas. “Com esta equipa, todas as investigações são possíveis”, diz Genise.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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