Icebergue Enorme Separou-se do Glaciar Mais Ameaçado da Antártida Ocidental

Os enormes blocos de gelo separam-se regularmente das plataformas de gelo da Antártida, mas as perdas estão a aumentar.

Friday, February 28, 2020,
Por Madeleine Stone
Esta imagem, captada no dia 11 de fevereiro pela missão Copernicus Sentinel-2, mostra em detalhe os ...
Esta imagem, captada no dia 11 de fevereiro pela missão Copernicus Sentinel-2, mostra em detalhe os icebergues recém-separados do Glaciar de Pine Island.
Fotografia de Copernicus Sentinel, European Space Agency

Na orla coberta de gelo de uma remota baía da Antártida Ocidental, os glaciares mais ameaçados do continente enfrentam condições que podem um dia vir a redesenhar as regiões costeiras da Terra. O Glaciar de Pine Island e o seu vizinho Thwaites são a via de passagem para uma enorme quantidade de água congelada. Toda esta água, caso seja libertada, pode elevar o nível do mar em cerca 120 centímetros. E este portal está a desaparecer perante os nossos olhos.

No início de fevereiro, os satélites Sentinel da Agência Espacial Europeia observaram uma separação significativa, ou evento de parto glaciar, na plataforma de gelo flutuante do Glaciar de Pine Island. Esta série de fendas é monitorizada por satélites desde o início de 2019 e cresceu aceleradamente nas últimas semanas. No dia 9 de fevereiro, um pedaço de gelo com 310 km quadrados – quase do tamanho de Malta – separou-se da face do glaciar. E rapidamente se partiu numa constelação de icebergues mais pequenos, sendo que o maior destes icebergues tem tamanho suficiente para adquirir um nome próprio: B-49. (Descubra porque razão a Antártida Ocidental está a derreter.)

Para Pine Island, este é apenas o evento mais recente de uma série de ocorrências dramáticas de parto. E os cientistas temem que isto represente o prelúdio de uma desintegração ainda maior – à medida que as alterações climáticas aceleram o degelo do continente. Com as temperaturas na Península Antártica a atingirem no início do mês um recorde de 18 graus Celsius, os sinais de rápida transformação tornam-se difíceis de ignorar.

“O que é perturbador é que o fluxo diário de dados apresentados pelos satélites revela o ritmo acelerado com que o clima está a redefinir a face da Antártida”, disse através de comunicado à imprensa Mark Drinkwater, cientista e especialista em criosfera na Agência Espacial Europeia.

Os glaciares são rios congelados que canalizam enormes camadas de gelo para o oceano. O Glaciar de Pine Island é o mais vulnerável da Antártica. Desde 2012, o glaciar escoou 58 mil milhões de toneladas de gelo por ano, tornando-se globalmente no maior contribuidor individual para a subida do nível do mar em termos de correntes de gelo.

De acordo com o programa Copernicus – programa de observação da Terra da União Europeia – o último evento de parto foi o sétimo para Pine Island, com partos anteriores registados em 2001, 2007, 2013, 2015, 2017 e 2018. Os intervalos entre estes eventos parecem estar a diminuir, mais um sintoma do estado pouco saudável do glaciar.

“Os eventos dos últimos 5 a 10 anos parecem ser excecionais nesta área, em comparação com o recuo verificado nos últimos 70 anos”, escreve por email Bert Wouters, especialista em deteção remota por satélite na Universidade Técnica de Delft, na Holanda, que monitoriza de perto o Glaciar de Pine Island.

“Apesar de os ‘partos’ dos icebergues das camadas flutuantes de gelo antártico serem processos naturais e contínuos, o evento recente de parto do Glaciar de Pine Island foi particularmente grande, e os eventos de parto deste glaciar parecem estar a aumentar de frequência”, diz Alison Banwell, glaciologista no CIRES, na Universidade do Colorado.

De acordo com Bert Wouters, esta separação mais recente, que foi maior do que as que aconteceram em 2017 e 2018, mas mais pequena do que o parto de icebergues verificado no início dos anos 2000, pode ter sido parcialmente provocada pelo clima ameno do inverno passado.

Mas, tal como aconteceu com outros partos recentes no Glaciar de Pine Island, e em outros glaciares da Antártida Ocidental, o fator principal foi o fluxo de água quente por baixo da superfície do Mar de Amundsen, que está a fazer com que o gelo derreta por baixo. Isto, por sua vez, está relacionado com as mudanças nos padrões dos ventos que estão a levar a água quente do oceano para a plataforma de gelo continental. E também está alinhado com o panorama geral das alterações climáticas.

Estes eventos de parto não contribuem diretamente para a subida do nível do mar, porque as camadas flutuantes de gelo já estão na água. No entanto, os glaciares como Pine Island atuam como um travão para o fluxo de gelo terrestre, que eleva o nível do mar à medida que desagua no oceano. E com o enfraquecimento da plataforma de gelo de Pine Island, este travão perde a sua força, podendo acelerar o fluxo de gelo a partir de terra.

De acordo com Mark, desde a década de 1990, o gelo de Pine Island tem entrado mais rapidamente no mar, e a corrente de gelo está agora a mover-se a uma taxa superior a 10 metros por dia. E antes deste parto mais recente, o glaciar estava a mover-se ainda mais depressa do que o habitual.

Alguns cientistas acreditam que o Glaciar de Pine Island e o seu vizinho Thwaites, que também desagua na Baía de Pine Island, devem a sua instabilidade a uma peculiaridade geométrica. A chamada linha de ligação à terra, onde os glaciares entram em contacto com a rocha-mãe, fica abaixo do nível do mar, o que significa que está vulnerável às investidas da água quente do oceano. Se os glaciares se soltassem desta linha, a água poderia infiltrar-se entre o gelo e a rocha.

Quando nos dirigimos para o interior do continente, a rocha-mãe inclina-se para baixo, e isso pode resultar numa plataforma de gelo cada vez mais espessa e instável, que produz icebergues cada vez maiores, levando finalmente a um colapso descontrolado. Este cenário, conhecido por instabilidade de gelo marinho-penhasco, tem potencial para desencadear perdas acentuadas de gelo na Antártida Ocidental.

E é um cenário de pesadelo glaciológico, mas as suas probabilidades são desconhecidas. Na esperança de encontrar respostas, os cientistas da Colaboração Internacional Glaciar Thwaites utilizaram recentemente uma broca para perfurar dezenas de metros de gelo e aceder à zona de ligação à rocha-mãe do Glaciar Thwaites.

Foram usados vários instrumentos, incluindo um pequeno robot em forma de tubo – chamado Icefin – para recolher dados e captar as primeiras imagens deste reino misterioso. Os dados vão ajudar a preencher lacunas na compreensão da dinâmica de degelo na zona de ligação, permitindo uma previsão mais apurada sobre futuras alterações, incluindo as probabilidades de colapso.

De acordo com o glaciologista da NASA, Christopher Shuman, o Glaciar de Pine Island parece ter estabilizado, pelo menos para já. As últimas informações do instrumento MODIS – a bordo do satélite Terra da NASA – sugerem que a porção oeste de gelo recém-separado, incluindo o icebergue enorme, fizeram uma rotação acelerada em direção à Baía de Pine Island. A porção oriental, incluindo muitos dos fragmentos mais pequenos de gelo, estão a fazer o mesmo.

Shuman diz que esta divisão do último icebergue de Pine Island em diversos fragmentos mais pequenos “sugere o quão fraca a língua de gelo de Pine Island se tornou”. E tudo isto, juntamente com a configuração atual e aparentemente instável da face de gelo, sugere que em breve poderemos vir a testemunhar mais desmoronamentos.

“Resumindo, não são boas notícias para o gelo terrestre que está a fluir do Glaciar de Pine Island”, diz Shuman.

Mark Drinkwater, do programa Copernicus, concorda.

“O evento vai sem dúvida evoluir.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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