A Primeira Pessoa a ver a Imagem ‘Pálido Ponto Azul’ Ainda a tem Guardada

“Algures naquele pontinho brilhante, eu estava sentada na minha secretária.” quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Há 30 anos, no dia 14 de fevereiro, a sonda Voyager 1 da NASA já tinha viajado para além do reino dos planetas e estava a acelerar em direção ao espaço interestelar. Quase mil milhões de quilómetros para além de Neptuno, a sonda olhou para trás. Daquela perspetiva, contra um céu repleto de estrelas, havia uma variedade deslumbrante de planetas – Saturno com os seus anéis, Júpiter gigante, Vénus com um tom branco brilhante e uma Terra incrivelmente pálida, azul e aquosa.

Em 1990, no dia de São Valentim, a Voyager montou detalhadamente um retrato de família dos diversos mundos do nosso sistema solar. Carl Sagan já tinha proposto este tipo observação quase uma década antes, apenas para ver a sua ideia repetidamente rejeitada por várias razões, incluindo a preocupação de que as imagens não teriam valor científico. Mas a Voyager estava a acelerar em direção aos limites do sistema solar, e as suas câmaras estavam prestes a morrer. Quando a sonda estava a quase 6 mil milhões de quilómetros de distância da Terra, teve uma última oportunidade para captar uma fotografia do seu planeta natal.

“Esta era definitivamente a última oportunidade” diz Candy Hansen, do Instituto de Ciências Planetárias dos EUA, que ajudou a planear a sequência de fotografias. (Agora, Candy Hansen é responsável pela JunoCam, a câmara a bordo da sonda Juno da NASA que está a enviar imagens maravilhosas de Júpiter.)

Naquela altura, Candy Hansen fazia parte da equipa de imagens da Voyager, no Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA. O seu trabalho, enquanto representante da experiência, incluía o planeamento das observações da sonda e a verificação das imagens resultantes, para garantir que estava tudo a funcionar – o que significava que, dos milhares de milhões de pessoas na Terra, Candy foi a primeira humana a ver a imagem agora conhecida por Pálido Ponto Azul.

“Era realmente impressionante pensar que a nossa pequena sonda estava tão longe”, recorda Candy, “e que esta era uma fotografia de casa e que, algures naquele pontinho brilhante, eu estava sentada na minha secretária.”

Cerca de 34 minutos depois de captar a imagem da Terra, as câmaras da Voyager desligaram-se para sempre. Na imagem, agora icónica, um pequeno e discreto ponto de luz paira sobre raios solares dispersos, parecendo cosmicamente irrelevante. Mas o legado da fotografia inspirou o oposto: um reconhecimento profundo da importância da Terra, da sua fragilidade e singularidade.

“É ali, aquela é a nossa casa. Somos nós e todas as pessoas que amamos, todas as pessoas que conhecemos ou de quem já ouvimos falar. Todos os humanos que alguma vez existiram, viveram as suas vidas naquele monte de poeira suspenso num raio de sol”, escreveu mais tarde Carl Sagan no seu livro Pálido Ponto Azul. “Na nossa obscuridade, em toda esta vastidão, não existem indícios de que vamos receber ajuda para nos salvarmos de nós próprios.”

Candy Hansen falou com a National Geographic sobre o que Pálido Ponto Azul representou para si, o que significa agora e onde guardou a fotografia original.

Como é que acabou por ser a primeira pessoa a ver o Pálido Ponto Azul?
Comecei a trabalhar com a equipa de imagens da Voyager em 1977, e comecei como assistente do representante da experiência. A equipa de imagens era um grupo de cientistas espalhado por todo o país, mas que contava com um representante da experiência no JPL que fazia as implementações.

A minha função principal era planear todas as observações e comandos das câmaras. Eu ajudei o Carl com esta observação desde o início. Era a visão dele. Mas no JPL, o meu trabalho era preencher um formulário que dizia: “Este é o pedido, eis o que queremos fazer, participe nas reuniões e faça o trabalho”.

Os nossos pedidos já tinham sido recusados várias vezes, mas finalmente em 1989, percebendo que esta era a última oportunidade, obtivemos permissão para avançar com a observação. Eu estava envolvida no planeamento da observação e, eventualmente, estava a verificar as fotografias.

Como é que projetaram a observação?
Um dos projetistas da sequência e eu sentámo-nos e tentámos perceber o que conseguíamos fazer. A ideia de Carl era fazer mosaicos de todo o céu e ter todas as estrelas e planetas – mas não tínhamos espaço suficiente no gravador. Por isso, criámos uma imagem de cada planeta, a cores, e também de algumas estrelas. E fizemos um modelo rudimentar que ligava todos os planetas com imagens de grande angular, e captámos imagens do sol.

E depois, as fotografias começaram finalmente a chegar.

Portanto, você estava a verificar as imagens para ver se estava tudo a funcionar?
Sim. E como as primeiras imagens a entrar no gravador eram as primeiras a sair, e dado que tínhamos começado em Neptuno, estava tudo a decorrer normalmente. Eu estava a olhar para as imagens de Neptuno e pensei, ok, aqui temos Neptuno; e depois Urano, ok, temos Urano, e a seguir Saturno, e depois Júpiter – e estes são planetas relativamente grandes, eram pontos minúsculos relativamente grandes.

Eu conseguia reconhecer quase de imediato as manchas ou partículas de poeira presentes em todas as imagens, para conseguir abrir rapidamente uma imagem e identificar – “mancha, mancha, poeira, ok, aqui temos Neptuno” – e avançava de forma sistemática.

E quando cheguei à fotografia que devia ter o planeta Terra, ao início não o consegui ver.

Oh, não.
Verifiquei os outros dois filtros e fiquei surpreendida, como é que era possível falhar  a Terra? Temos todos os outros planetas, e o nosso objetivo era captar a Terra! Foi um momento de terror e pânico – depois de todos estes anos e agora que tínhamos finalmente esta oportunidade – algo tinha corrido mal.

Fiquei ali sentada a pensar: o que vamos fazer? O que vamos dizer? Mas depois reparei num raio de luz dispersa, e havia um ponto brilhante que eu não identificava como mancha ou poeira. Depois pensei, vou testar com os outros dois filtros. E claro, ali estava a Terra nas 3 imagens, e eu tinha a certeza de que não era um artefacto na imagem, ou qualquer outra coisa, porque conseguia reconhecer as diferenças.

Era o planeta Terra.
Fiquei apenas ali sentada. Sinceramente, foi arrebatador pensar sobre o que estava a acontecer. Pensar que a nossa pequena sonda estava tão distante, e que era uma fotografia de casa e que, algures naquele pontinho brilhante, eu estava sentada à minha secretária. E o facto de estar naquele raio disperso de luz era muito poderoso.

Logicamente, eu sabia que se tratava apenas de luz dispersa na ótica. Eu tinha essa noção. Mas no meu coração era diferente, parecia tão especial. O sol estava a brilhar sobre nós! Depois, quando me recompus, comecei a fazer telefonemos para avisar todas as pessoas que tínhamos conseguido, e que os resultados pareciam bons, nas três cores, e depois aconteceu o que se sabe.

Sabia que estava a olhar para uma imagem que teria um impacto tão grande?
Eu senti, sim. Senti sempre. De certa forma, tive de “vender” a observação. Ponderei bastante sobre isso. Mas ponderar sobre algo e o impacto emocional real são duas coisas diferentes.

Ao longo do tempo, apercebi-me de como esta imagem é verdadeiramente intemporal. Quando a captámos em 1990, ainda estávamos na Guerra Fria. Vivíamos numa realidade onde a União Soviética e os Estados Unidos tinham ogivas nucleares apontadas entre si. Portanto, a mensagem naquele momento era: não vamos destruir o nosso planeta, destruindo-nos uns aos outros.

E hoje, continua igualmente relevante. Não vamos estragar o nosso mundo com a destruição da atmosfera – as alterações climáticas. Nesse sentido, é realmente intemporal. É a sensação de que só temos um lar. Marte não é particularmente hospitaleiro. E a lua também não. Temos um mundo, e precisamos mesmo de cuidar dele.

Ver realmente a Terra – ou o Nascer da Terra – ver o planeta como um todo, acaba por passar a mensagem de forma mais emotiva?
Sim, e essa imagem, Nascer da Terra, meu deus, é incrivelmente importante para a forma como olhamos para nós.

Quando olha para o Pálido Ponto Azul, ainda sente o mesmo que sentiu quando o viu pela primeira vez?
Sim. Ainda me arrepio toda. E no geral, se uma imagem vale mais do que mil palavras, esta imagem em particular vale mais de um milhão.

Nós colocámos as imagens no auditório von Kármán do JPL, e ocupam uma extensão enorme de parede. As imagens foram montadas com ângulos amplos que se ligam aos ângulos estreitos dos planetas. E a pessoa responsável pelas imagens disse-me que estavam sempre a substituir a imagem da Terra, porque as pessoas estavam sempre a tocar nela. E isso é fantástico. É onde vivemos!

Quantas imagens da Terra foram substituídas?
Não faço ideia! Mas era engraçado descobrir.

E onde estão as imagens originais?
Oh, essas, posso dizer-lhe. Estão numa caixa, no meu roupeiro.

A sério?
Sim, a sério. Não os dados digitais, claro, esses estão arquivados. Mas todas as cópias originais que usámos, e que estavam espalhadas por todo o lado, essas estão todas guardadas dentro de uma caixa no meu roupeiro.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

 

 

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