Químicos Tóxicos ‘Eternos’ na Água Canalizada

Testes feitos por um órgão de fiscalização ambiental revelam que uma classe de produtos químicos chamada PFAS está presente na água de dezenas de cidades dos EUA. quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020


Quer receber a nossa visão única sobre os grandes temas da atualidade diretamente na sua caixa de correio? Subscreva a nossa newsletter aqui.


Muitas pessoas podem não reconhecer o nome PFAS – abreviatura para substâncias perfluoroalquil e polifluoroalquil – mas provavelmente entram em contacto com estas substâncias regularmente, talvez várias vezes ao dia. E podem até estar a consumi-las.

De forma simplificada: PFAS é uma classe de mais de 4 mil produtos químicos diferentes que está por toda parte, seja em itens domésticos ou em embalagens de fast food. E também já foi encontrado PFAS no nosso sangue. Uma nova investigação publicada no dia 22 de janeiro pela organização sem fins lucrativos Environmental Working Group (EWG) revela que o PFAS também prevalece na água canalizada.

O público e os legisladores estão atentos.

Em dezembro, uma lei sobre o orçamento militar incluiu novos regulamentos para o PFAS, embora os ambientalistas afirmem que estas medidas não são suficientes para combater de forma significativa a contaminação. No início deste mês, a Câmara dos Representantes dos EUA aprovou uma resolução (H.R. 535) que será votada no Senado ainda este ano. E em setembro do ano passado, o filme Dark Waters – Verdade Envenenada ofereceu uma visão fictícia baseada num artigo do New York Times de 2016 sobre um advogado, Rob Bilott, que enfrentou a DuPont, um dos maiores poluidores de PFAS.

“Se fizermos uma comparação entre o que sabemos sobre estes produtos químicos e o chumbo, posso dizer que o chumbo é mais perigoso. E se compararmos o que sabemos agora com o que sabíamos sobre o chumbo há 50 anos, é difícil dizer qual é o pior”, diz Cindy Hu, cientista de dados de Harvard que integrou uma equipa de investigação que, em 2016, descobriu que pelo menos 6 milhões de americanos estavam a consumir água contaminada com PFAS – água que excedia as recomendações da Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos Estados Unidos.

O que é – e onde se encontra – PFAS?
O PFAS, utilizado em produtos comerciais desde a década de 1940, é criado através da junção de carbono e flúor, uma das ligações mais fortes que podem ser feitas através de química orgânica. Este vínculo é o motivo pelo qual os produtos químicos PFAS são usados para tornar itens do nosso quotidiano mais resistentes à humidade, ao calor e às manchas. Alguns dos químicos PFAS mais usados, como o PFOS e o PFOA (ácido perfluorooctanossulfónico e ácido perfluorooctanóico), têm uma meia-vida longa, ficando assim com o apelido de “químicos eternos”.

Nos EUA, nos testes feitos em 44 sistemas de água canalizada de 31 estados, a EWG constatou que 43 excediam o limite considerado seguro.

“Acredito que esta é uma das maiores ameaças à água potável – que já existe há décadas – e as pessoas não têm noção”, diz David Andrews, cientista da EWG envolvido no relatório.

As pessoas entram em contacto com o PFAS através de coisas como o mobiliário ou roupa, mas, de acordo com a EPA, grande parte da contaminação da água potável é feita pelas instalações que lidam com o PFAS, como fábricas ou instalações de tratamento de águas residuais. Os filtros normais de água domésticos não conseguem eliminar o PFAS da água canalizada, mas existem filtros maiores e mais dispendiosos no mercado que, alegadamente, removem o PFAS.

Entre as áreas testadas pela EWG apenas duas – o condado de Brunswick, na Carolina do Norte, e Quad Cities, no Iowa – tiveram amostras de água que excediam os limites da EPA para a presença de PFOS e PFOA. A EPA emitiu um alerta de saúde para ambos os produtos químicos onde diz que estes não devem exceder as 70 partes por notação (ppt) nas bebidas. Estes alertas de saúde da EPA sobre produtos químicos oficialmente regulamentados são essencialmente uma forma de a agência reconhecer que um produto químico não deve estar na água potável – mas estes alertas não têm poderes executivos.

A organização EWG recomenda um limite muito mais baixo, afirmando que qualquer amostra que exceda 1 ppt pode ser potencialmente nociva. Este limite é baseado em vários estudos sobre o PFAS feitos em roedores e humanos.

Porém, Cindy Hu discorda da forma como a EWG fez a correspondência nas suas amostras. Os resultados da EWG englobam qualquer produto químico que se enquadre na classe PFAS, em vez de examinar químicos individualmente, como o PFOA ou o PFOS. Cindy acrescenta que os cientistas não chegaram a um consenso sobre a regulamentação do PFAS – seja individualmente ou como uma classe inteira.

Quem está em perigo?
Quando Wilbur Earl Tennant, um agricultor de Parkersburg, em West Virginia, perdeu mais de 100 cabeças de gado, suspeitou que a fábrica da DuPont estava a envenenar o solo e a água da região. Um processo judicial apresentado contra a empresa em 2017 revelou que a DuPont estava a despejar PFOA – o tipo de PFAS usado em frigideiras antiaderentes e casacos impermeáveis – num depósito adjacente à quinta de Wilbur Tennant.

O processo deu origem a um relatório de 852 páginas divulgado pelo CDC em 2018 que mostrava que a EPA tinha sobrestimado a quantidade de químicos PFAS passíveis de serem consumidos com segurança. O estudo mostrou uma ligação entre 14 produtos químicos PFAS e cancro, problemas congénitos, doenças da tiroide e danos no fígado. E outros estudos sobre o PFAS associaram o seu consumo a níveis de colesterol elevados e distúrbios nervosos.

Apesar de as pessoas que vivem perto dos principais fabricantes que usam PFAS correrem mais riscos, os produtos feitos com vários químicos PFAS são tão omnipresentes – produtos de limpeza, produtos antiaderentes, casacos impermeáveis, tapetes antinódoas, embalagens de alimentos entre outros – que praticamente todas as pessoas têm estes químicos no corpo. Os testes regulares feitos pela Agência de Substâncias Tóxicas e Registo de Doenças dos EUA encontraram estes químicos presentes em quase todas as amostras de sangue recolhidas.

Os níveis de PFOS e PFOA diminuíram desde 1999, ano em que a agência começou a recolher amostras. Isto acontece porque provavelmente não são fabricados nos EUA desde o início dos anos 2000, embora ainda possam ser encontrados em produtos importados, como têxteis, tapetes e plásticos. As alternativas ao PFAS – PFOA e PFOS – também têm sido associadas a problemas de saúde. Num relatório de toxicidade sobre estas alternativas, a EPA descobriu que ambas podiam originar danos nos rins, comprometer o sistema imunitário e originar problemas de reprodução.

Quando foi solicitado para comentar o último relatório da EWG, um representante da EPA destacou o Plano de Ação PFAS da agência que, segundo a mesma, “compromete a agência a tomar medidas importantes para melhorar a forma como investiga, monitoriza, deteta e aborda o PFAS”.

O que está a ser feito?
Em relação à prevalência dos químicos PFAS encontrados no estudo, Andrews diz: “É uma indicação clara de que a EPA e a sua capacidade em estabelecer padrões para a água potável estão fundamentalmente errados.”

Nos EUA, os químicos encontrados na água canalizada são regulamentados pela Lei da Água Potável Segura, lei aprovada em 1974. No entanto, existe um novo produto químico que não foi adicionado à lista desde 1996 devido a uma emenda que permitiu à EPA, e não ao Congresso, decidir quando adicionar o novo químico aos seus regulamentos. Esta emenda também tornou mais difícil provar que um determinado produto químico é uma ameaça irrefutável à saúde humana.

Em dezembro passado, a agência submeteu o PFOS e o PFOA a uma revisão interna, onde o seu destino regulatório ainda está a ser deliberado.

De maneira a contornar a inação federal, muitos dos estados adotaram os seus próprios limites ao PFAS. E algumas empresas comprometeram-se a remover os químicos conhecidos de PFAS dos seus empreendimentos.

“A EPA já tem o PFOS e o PFOA no seu radar há muito tempo. Temos várias evidências para estabelecer padrões para a água potável, e isso só demonstra o quão difícil é para a agência estabelecer diretrizes para a água potável ou eliminar gradualmente os químicos com efeitos nocivos para a saúde”, diz Laurel Schaider, cientista de investigação no Instituto Silent Spring.

Schaider não acredita que o projeto de lei sobre o PFAS receba votos suficientes para passar no Senado, mas tem esperança de que os estados continuem a definir as suas próprias diretrizes.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler