Tiranossauro ‘Ceifador da Morte’ Descoberto no Canadá

Este dinossauro demonstra como o T. Rex e os seus parentes se transformaram em predadores de topo.

Publicado 18/02/2020, 12:16 WET, Atualizado 5/11/2020, 06:02 WET
Para as pessoas menos informadas, os tiranossauros podem parecer todos iguais. Mas o ‘Thanatotheristes’ tem várias ...
Para as pessoas menos informadas, os tiranossauros podem parecer todos iguais. Mas o ‘Thanatotheristes’ tem várias características distintas que o diferenciam do grupo, incluindo um conjunto de saliências proeminentes na cabeça.
Fotografia de JULIUS CSOTONYI (ILUSTRAÇÃO)

Jared Voris está habituado à presença da “morte”. No início de 2018, este aluno de mestrado da Universidade de Calgary, no Canadá, passou mais de um ano debruçado sobre os ossos de coleções de museus, estudando a forma como os tiranossauros passaram de pequenas crias a bestas enormes. Durante uma visita às coleções do Museu de Paleontologia Royal Tyrrell, em Alberta, Jared reparou num armário com fósseis que não conseguia identificar.

Agora, dois anos depois de uma cuidadosa investigação, Voris e os seus colegas identificaram o primeiro Tyrannosauridae canadiano a ser encontrado em 50 anos. Com cerca de 8 metros de comprimento, este dinossauro dá pelo nome de Thanatotheristes – grego para “ceifador da morte”.

Com aproximadamente 79.5 milhões de anos, o Thanatotheristes degrootorum está perto da base da ascensão dos tiranossauros pelo domínio. Os fragmentos desenterrados do seu crânio – incluindo os maxilares superior e inferior, dentes e um osso malar parcial – esboçam as primeiras páginas sobre a forma como os Tyrannosauridae, o subgrupo de tiranossauros que inclui o T. Rex, subiram ao poder e dominaram a cadeia alimentar.

“Tentei ser muito meticuloso na identificação dos recursos que o tornavam único”, diz Jared, que agora é doutorando na Universidade de Calgary. “É interessante ter a oportunidade de nomear uma nova espécie – e espero que não seja sempre a piorar daqui para a frente.”

Por enquanto, os fragmentos do crânio são tudo o que resta do ‘Thanatotheristes’. Apesar de poderem existir mais fósseis preservados nos penhascos que se elevam perto de onde foi descoberto, as inundações recentes podem ter escoado essas partes para longe.
Fotografia de Jared Voris

Quando os tiranossauros surgiram, há cerca de 165 milhões de anos, não eram os gigantes que acabaram por reinar durante o período Cretáceo na Ásia e na América do Norte. Alguns até eram minúsculos – com menos de um metro e meio de altura – e caçavam na sombra de carnívoros mais maciços da época, incluindo os Allosauridae (do tamanho de autocarros) e os Megalosauridae (com garras enormes).

Há cerca de 80 milhões de anos, os outros predadores enormes desapareceram, dando aos tiranossauros a oportunidade de subir até ao topo da cadeia alimentar e de se transformarem em gigantes. Há 66 milhões de anos, pouco antes da sua extinção, o infame T. Rex cresceu até aos 12 metros de comprimento e pesava mais de nove toneladas. Mas o Thanatotheristes, revelado no dia 23 de janeiro na Cretaceous Research, não parece tão grande ou volumoso quanto o T. Rex, demonstrando a diversidade encontrada no topo da cadeia alimentar durante este período. (Descubra mais sobre o maior T. rex do mundo encontrado até agora.)

“Parece que os tiranossauros tiveram uma história evolutiva dinâmica”, diz por email o paleontólogo da Universidade de Edimburgo, Steve Brusatte, que não participou neste estudo. “Eles não eram todos superpredadores monstruosos como o T. Rex, mas havia muitos subgrupos mais pequenos que tinham os seus próprios domínios e corpos distintos.”

Caçar o “ceifador da morte”
Os tiranossauros eram provavelmente raros em vida e são ainda mais raros enquanto fósseis – fazendo com que o preenchimento da imagem evolutiva do grupo a partir de restos ósseos seja uma tarefa complicada. Os dinossauros do mesmo período que comiam plantas desenvolveram uma variedade impressionante de adornos no pescoço, e cristas na cabeça, que ajudavam os animais a identificar as suas espécies, e a identificar os rivais e potenciais parceiros. Mas os tiranossauros não tinham estas características.

“É difícil afirmar quando é que podemos ver novas espécies a surgir no registo fóssil”, diz Scott Persons, paleontologista na Faculdade de Charleston, que não integrou a equipa do estudo. “Quando tentamos chegar ao cerne da questão, precisamos de aperfeiçoar as observações taxonómicas.”

23 IMAGENS CAPTAM O MISTÉRIO DOS DINOSSAUROS

Todos os pedaços de osso de tiranossauro contêm pistas vitais – mesmo quando são encontrados por acaso, como acontece com o Thanatotheristes. John e Sandra De Groot descobriram acidentalmente os ossos em 2010, quando a sua família estava a caminhar ao longo da costa sul do rio Bow, em Alberta, no Canadá. O casal entrou em contacto com o Museu Royal Tyrrell e o museu enviou paleontologistas para recolher os fósseis e para procurar mais. E como uma forma de agradecimento à família, a equipa de Jared Voris deu ao Thanatotheristes o nome de espécie degrootorum.

“A sua descoberta é inestimável”, diz Jared Voris sobre a família De Groot. “Isto só demonstra que não precisamos de ser paleontólogos para ajudar a paleontologia.”

Quase uma década depois de os fósseis terem sido limpos, catalogados e armazenados, Jared e a sua equipa começaram a montar as peças do puzzle. A equipa concentrou-se nos ossos do maxilar, que tinham sulcos proeminentes distintos e que sugeriam estruturas faciais há muito perdidas. O osso malar também tinha uma forma oval na seção transversal, ao contrário de outros Tyrannosauridae intimamente relacionados.

Porém, o Thanatotheristes era parecido com os seus parentes de outras formas – de acordo com os dados, estas criaturas não eram amigáveis. As cabeças dos tiranossauros revelam frequentemente cicatrizes de lutas com outros dinossauros, incluindo com outros tiranossauros, e o Thanatotheristes não é exceção. Uma cicatriz esbranquiçada, com 10 centímetros de comprimento, serpenteia ao longo do seu maxilar superior. “É um Scarface”, diz Scott Persons.

Território de tiranossauros
Este fóssil oferece uma visão mais detalhada sobre a diversidade de tiranossauros na América do Norte, muitos dos quais viveram e morreram ao longo das costas ocidentais de um imponente oceano interior que se estendia desde o Oceano Ártico até ao Golfo do México.

O Thanatotheristes vem de uma formação rochosa pouco estudada e, com 79.5 milhões de anos, os fósseis revelam pistas sobre a forma como os primeiros Tyrannosauridae evoluíram para tamanhos gigantes. “É o Tyrannosauridae mais antigo de que há registo na América do Norte”, diz a coautora do estudo, Darla Zelenitsky, paleontóloga na Universidade de Calgary e orientadora de doutoramento de Jared Voris.

Com a adição do Thanatotheristes, os tiranossauros do oeste dos EUA e do Canadá parecem formar duas linhagens distintas: um grupo do norte com cabeças mais alongadas, e um grupo do sul com cabeças mais curtas, semelhantes às de um buldogue. Talvez esta divisão se deva a duas estratégias de alimentação distintas, cada uma modelada pelas diferentes presas e ambientes da região.

Apesar de ainda não se saber o que motiva este padrão na América do Norte, uma possibilidade recai sobre o tamanho dos animais que caçavam. O grupo de grandes tiranossauros asiáticos – que acabou por dar origem ao T. Rex – viveu ao lado de dinossauros herbívoros enormes, incluindo os saurópodes de pescoço comprido. É possível que esses tiranossauros tenham atingido tamanhos impressionantes para derrubar mais eficazmente as presas titânicas.

Ainda há muito para descobrir sobre este padrão. Existem muitas lacunas no registo fóssil de tiranossauros – sobretudo para o Thanatotheristes. Para além de um pequeno fragmento de maxilar encontrado noutro sítio de Alberta em 2018, os ossos do rio Bow são os únicos fósseis conhecidos deste predador. As expedições feitas ao local onde os De Groot descobriram o Thanatotheristes não encontraram mais ossos, e as recentes inundações podem ter levado o que restava.

Mas Jared Voris acredita que pode descobrir mais espécimes. Jared planeia explorar a mesma formação rochosa noutras regiões, no sul de Alberta, na esperança de encontrar mais ossos de Thanatotheristes. Ele não teme o “ceifador da morte”, antes pelo contrário, adora.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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