Com o Aquecimento do Ártico, a Poluição Luminosa Pode Ameaçar a Vida Marinha

Devido às alterações climáticas, existem cada vez mais humanos a atravessar o Ártico, e estas alterações também estão a tornar a noite polar mais clara.sexta-feira, 20 de março de 2020

No pico do inverno, o Círculo Polar Ártico é tão escuro que é quase impossível ver. Devido à forma como o topo da Terra se inclina para longe do sol, a estrela nunca se eleva acima do horizonte, e o céu escuro envolve o Ártico com o que se chama 'noite polar'.

“Parece que estamos sempre a trabalhar no turno da noite”, diz Finlo Cottier, oceanógrafo da Associação Escocesa de Ciências Marinhas.

Há 2 anos, Cottier e uma equipa de cientistas viajaram para o Ártico durante o inverno para estudarem a forma como a luz afeta as criaturas marinhas que vivem nas águas do norte. Tal como acontece com os humanos, os organismos marinhos também dependem da luz para as suas funções diárias. A luz indica quando se deve migrar pela coluna de água para encontrar comida, quando acasalar e onde caçar.

“Em junho e julho, há uma explosão de crescimento e de atividade”, diz Cottier. “O que provoca isto? O que é que acontece na noite polar que prepara as coisas para a primavera? Estamos a tentar compreender este ciclo completo.”

Compreender o ciclo na sua totalidade pode ser fundamental porque o Ártico está a lidar com os efeitos das alterações climáticas. Gelo mais fino significa que existe mais luz a penetrar nas águas escuras do oceano. E isto também pode possibilitar a passagem de mais navios, que trazem consigo ainda mais poluição luminosa. O aquecimento das águas que se verifica pelo mundo inteiro está a levar algumas espécies de peixes para as latitudes mais altas, perturbando a cadeia alimentar.

Ainda não se sabe quais são as consequências para a vida marinha, mas uma nova investigação, publicada no dia 5 de março na Nature Communications Biology, indica que a poluição luminosa pode alterar significativamente a forma como estes animais vivem, e os cientistas ainda estão a tentar compreender os seus ciclos de vida.

Testes de luz na noite polar
“À medida que avançamos para norte, as horas de luz diurna diminuem rapidamente”, diz Geir Johnsen, um dos autores do estudo e biólogo na Universidade Norueguesa de Ciências e Tecnologia. “Nas latitudes mais a norte, fica cada vez mais escuro. E a cerca de 80 graus (norte), não existe diferença entre o meio-dia e a meia-noite.”

Para perceber a forma como o aumento do tráfego de embarcações afeta os organismos marinhos, os investigadores fizeram experiências em três estações diferentes, a norte da Noruega, variando entre os 70 graus norte e perto dos 77 graus norte.

Em cada estação – rotuladas por A, B e C – as experiências foram conduzidas na escuridão total, quando os organismos marinhos não estão expostos à luz. Ligando e desligando as luzes do navio, a equipa usou ecobatímetros para detetar sonoramente a presença de organismos na água.

Nos testes com as luzes da embarcação acesas, a estação C mostrou uma ligeira diminuição no número de organismos na água, mas as outras duas estações revelaram alterações drásticas para a presença de criaturas marinhas. Na estação A, situada no extremo norte, com as luzes do barco acesas, o número de organismos detetados diminuiu para metade. Na estação B, aconteceu o oposto; com as luzes do navio acesas, o número de organismos aumentou pela metade.

A luz afetou significativamente o comportamento dos organismos, e os sinais acústicos revelaram que estes comportamentos se alteraram em profundidades de até 200 metros.

“Isto significa que é impossível discernir as implicações”, diz Jørgen Berge, autor principal do estudo e biólogo na Universidade Norueguesa do Ártico.

Enquanto descreve o zooplâncton – visto na imagem – o cientista Geir Johnsen diz: “O zooplâncton fornece alimento a todos os outros organismos, como peixes, aves marinhas, focas, baleias e ursos-polares. Cerca de 50% do oxigénio que respiramos vem destas algas microscópicas dos oceanos mundiais. É por isso que estamos aqui. Queremos realmente olhar para estes pequenos organismos importantes, porque são o grupo-chave nos ecossistemas. Sem este grupo-chave não existiria vida. É tão simples quanto isso.”
Fotografia de Michael O. Snyder

Por um lado, diz Jørgen, as avaliações científicas podem não ser exatas caso não levem em consideração as condições de luz em que os organismos são estudados.

E saber exatamente a quantidade de peixe presente na água também tem implicações comerciais.

“Sabemos que, à medida que o Ártico aquece, as espécies movem-se para norte. Para podermos gerir a pesca de uma maneira sustentável, precisamos de saber a quantidade de espécies aqui presente.”

Os estudos preveem que o aquecimento das temperaturas pode permitir exportações através do Ártico até 2050. Os investigadores estão a começar a monitorizar o tráfego de embarcações na região, para perceber como é que aumentam ao longo do tempo. Num estudo publicado em setembro do ano passado, os investigadores rastrearam tudo, desde navios de carga a navios de cruzeiro, e descobriram que, ao longo de dois anos, 5.000 embarcações fizeram um total de 132.828 viagens na região.

Um mundo brilhante... para alguns
“Os comportamentos que englobam saber onde é que se está na coluna de água, quando acasalar, e quando desenvolver – tudo isso é regulado pela luz”, diz Johnsen. “A luz é uma das orientações mais antigas da vida, mas nos últimos 100 anos os humanos começaram a usar luz artificial, e temos afetado os animais de formas que nunca ponderámos.”

Estima-se que 80% do planeta tem o céu poluído por alguma forma de luz artificial, e esta luz aumenta cerca de 6% anualmente.

Steven Haddock, do Instituto de Pesquisa do Aquário da Baía de Monterey, que não participou neste estudo, diz que a investigação é interessante, mas também diz que gostaria de a ver replicada noutras condições e com outros métodos.

A distinção entre espécies que se aproximam ou fogem da luz é um comportamento que Steven observou nas suas investigações.

“Também observámos isto em mergulhos noturnos, onde temos de desligar as luzes durante algum tempo para afastar os enxames de criaturas que nos visitam”, diz Steven. “Eu acredito completamente no resultado desta equipa. A luz tem um efeito profundo, sobretudo em locais onde durante vários dias não existe uma luz solar forte.”

Steven salienta que a poluição luminosa também está a afetar os organismos marinhos perto do equador. Porto Rico, por exemplo, construiu uma indústria de ecoturismo centrada no plâncton bioluminescente que vive nas várias baías da ilha, mas a poluição luminosa está a perturbar os organismos. E também se verificou que a poluição luminosa afeta negativamente a forma como as tartarugas marinhas encontram a direção do mar, afeta as migrações de aves e a reprodução nos pirilampos.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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