Entrevista a Ann Druyan, Produtora de ‘Cosmos: Mundos Possíveis’

Ann Druyan é produtora executiva e autora da série e livro ‘Cosmos: Mundos Possíveis’, a continuação do admirável legado de Carl Sagan.

Monday, March 30, 2020,
Por National Geographic
Ann Druyan
Ann Druyan durante a produção da série 'Cosmos: Mundos Possíveis'.
Fotografia de National Geographic Channels

Ann Druyan foi coautora da icónica série ‘Cosmos’, lançada em 1980, e de seis êxitos de vendas do New York Times, com Carl Sagan, seu falecido marido. Foi também diretora criativa do projeto Voyager Interstellar Message da NASA e diretora do programa da primeira missão espacial a vela solar, lançada num míssil balístico intercontinental russo em 2005.

Em 2014 Ann Druyan estreou ‘Cosmos: Odisseia no Espaço’, a série que daria continuidade à viagem pela origem e maravilhas do universo, e que foi galardoada com os prémios Peabody, Producers Guild e Emmy. Este ano, lançou mais uma sequela desta magnífica odisseia - ‘Cosmos: Mundos Possíveis’, criada e produzida por si, e pelo coautor da série, Brannon Braga. A série de 13 episódios é emitida no canal National Geographic, segundas-feiras às 22:10, e o livro, editado pela Gradiva, já chegou às livrarias portuguesas e pode ser adquirido no site da editora.

Recentemente, tivemos a oportunidade de conversar com a autora sobre a produção da série e a exploração do universo.


A Ann e o Carl Sagan trouxeram o espaço para as salas de estar dos anos 80. Como foi produzir a série de televisão 'Cosmos: Mundos Possíveis', 40 anos depois?
A ideia foi, desde o início nos anos 80, transportar as pessoas para a realidade do cosmos. Recorremos a tecnologia de ponta na altura. Usámos por isso, pela primeira vez, uma câmara ligada a um computador com o objetivo de criar efeitos especiais.
Quarenta anos depois, a multiplicidade de possibilidades para simular a realidade natural ao longo do universo e de observar a Terra à mais pequena escala é impressionante. E creio que, nestes cinco anos de preparação da série e do livro, não houve nenhuma ideia, por mais extravagante que fosse, que eu e o coautor da série, Brannon Braga, não tivéssemos conseguido concretizar.
Hoje temos à nossa disposição um arsenal vastíssimo de efeitos para simular a realidade do cosmos como nunca tivemos antes. A ideia de levar o telespectador a um exoplaneta ou de o transportar até ao domínio do mundo quântico tornou-se tão fácil que me espanta e entristece o facto destes recursos à disposição de todos não serem mais utilizados para mostrar e compreender a grandiosidade, a beleza e a complexidade da Natureza e de tudo o que nos rodeia, e de serem mais usados para mostrar como se podem destruir cidades, países, etc.  Acho que isso é uma espécie de tragédia da nossa civilização.

Carl Sagan disse uma vez que "somos feitos de pó das estrelas". A exploração do cosmos ainda é uma viagem de autodescoberta? 
Que bonita e profunda formulação. Sim, sim, sim, definitivamente sim. Essa é uma das razões principais e talvez a mais profunda pela qual nós fazemos este tipo de ciência. É precisamente porque queremos saber de onde vimos. Para mim a mais bonita constatação que fizemos durante a preparação de ‘Cosmos’, e eu não sei se fui eu ou o Carl ou o Steve Soter que a formulámos, foi a de nós sermos um caminho para o cosmos se compreender a si mesmo. Esta é uma formulação profundamente espiritual. Procurar o sentido do cosmos, afirmar que o pó das estrelas ganhou vida e consciência para procurar as suas origens e o modo como tudo começou, se isto não é uma caminhada de descoberta espiritual então não sei o que será. Por isso, sim, é uma viagem de autodescoberta em todas as suas dimensões. Eu não sou uma cientista e não nasci com aquele fascínio inato pela ciência, mas tudo isto se transformou na minha busca pessoal. No momento em que eu percebi quão pessoal e universal pode ser este conhecimento do cosmos percebi também que queria dedicar o resto da minha vida à sua descoberta.

Numa época em que a tecnologia está a evoluir tanto, quase se diria à velocidade da luz, tem algum sonho 'interestelar'?
Sim! Tenho imensos sonhos interestelares. Primeiro, tenho sorte. Este pode parecer um tempo vazio e sombrio em que a nossa autoestima nunca esteve tão baixa como está agora, mas penso quão afortunados somos por viver numa época em que a ciência afastou a densa cortina da noite permitindo-nos ver e compreender as estrelas e tudo o que nos rodeia. Os inputs das descobertas científicas são tão poderosos como as quedas de água, trazem-nos tanto conhecimento. E, no entanto, ao mesmo tempo, parecemos uma civilização de zombies que parece não querer acordar para que possamos salvar-nos, salvar o nosso futuro, proteger os nossos filhos e netos… Neste período de quarentena devida ao vírus, as pessoas começaram subitamente a ouvir os cientistas e a levar finalmente a sério aquilo que eles dizem. E a minha esperança é que façam o mesmo com os avisos que eles andam a fazer há cerca de 20 anos acerca do aquecimento global, do aumento da temperatura média do planeta e acerca dos danos que estamos a provocar ao nosso habitat, ao ambiente de todo o planeta e às outras espécies… Que este seja o momento para despertarmos, para começarmos a pensar seriamente e para começarmos a viver de acordo com a escala de tempo dos cientistas, não apenas até às próximas eleições ou de acordo com os mais poderosos interesses corporativos, mas tendo em mente de forma muito séria o futuro dos nossos descendentes.
 

Cosmos: Mundos Possíveis - trailer
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