Está Fechado num Espaço Apertado? Este Astronauta Tem Alguns Conselhos.

Chris Cassidy está prestes a passar seis meses na Estação Espacial Internacional e sabe o que é viver num espaço confinado.

sexta-feira, 27 de março de 2020,
Por Michael Greshko
Chris Cassidy, astronauta da NASA e engenheiro de voo da Expedição 36, observava a Terra em ...
Chris Cassidy, astronauta da NASA e engenheiro de voo da Expedição 36, observava a Terra em agosto de 2013 através da cúpula da Estação Espacial Internacional, durante a sua passagem a bordo do laboratório orbital.
Fotografia de NASA

Chris Cassidy vai ficar de quarentena – mas para um astronauta da NASA que se está a preparar para partir para a Estação Espacial Internacional (EEI), isto faz parte da rotina. Com ou sem pandemia, os astronautas da NASA ficam sempre em isolamento durante duas semanas, antes do lançamento, para garantir que não levam bactérias indesejadas para a estação espacial, um processo que a NASA chama de “estabilização de saúde”. A agência espacial afirma ainda que está a considerar testar Chris Cassidy e os seus colegas para a COVID-19 antes do voo, para se certificarem de que está tudo bem.

No dia 9 de abril, Chris Cassidy, capitão da Marinha dos EUA e antigo Comando Naval de Operações Especiais, vai juntar-se aos cosmonautas Anatoli Ivanishin e Ivan Vagner a bordo de um foguetão russo Soyuz para o lançamento que os vai levar até à EEI. O trio vai viver e trabalhar a bordo da estação espacial durante 6 meses, integrados na Expedição 63 comandada por Cassidy. Esta viagem será a terceira de Cassidy ao espaço, que já tem um registo total de 182 dias em órbita – um voo no vaivém espacial em 2009 e uma estadia a bordo da EEI em 2013.

Em entrevista telefónica a partir de Star City, na Rússia, onde Cassidy se está a preparar para o lançamento, o astronauta falou sobre a sua próxima missão – e sobre a forma como uma pandemia, como a de COVID-19, pode afetar a sua estadia no laboratório orbital da Terra. (Esta entrevista foi editada para fins de clareza e extensão.)
 

Esta é a primeira vez que regressa à EEI desde 2013. Quais são as suas expectativas?
Estou realmente ansioso para ver rostos familiares – flutuar pela escotilha e ver o Drew e a Jessica (os astronautas da NASA Andrew Morgan e Jessica Meir) e dar-lhes um grande abraço. É um daqueles momentos. Estas emoções, para quem as vê na televisão – os sorrisos e as gargalhadas – são reais. Somos amigos e colegas de trabalho, mas também somos humanos que estão a viver juntos uma coisa extraordinária. Nas primeiras horas, mal posso esperar para sentir isso.

E claro, olhar pela janela é sempre fantástico, mas o tempo de entrega vai ser limitado (antes de Morgan e Meir regressarem à Terra), por isso, quero aproveitar a experiência de estar com eles naquela semana, antes de partirem.
 

Devo imaginar que, perante a pandemia de COVID-19, este é um momento fora do normal para se preparar para o lançamento. Para si e para os seus colegas, quais são os desafios apresentados por esta situação?
Curiosamente, os preparativos não têm sido diferentes, e para nós, enquanto tripulantes, a quarentena tem sido muito semelhante ao que estamos habituados. O que é realmente estranho é o mundo inteiro também estar de quarentena. O conceito de distanciamento social não se refere apenas aos três tripulantes, mas a todas as pessoas.

A outra parte que não é tão operacional, mas mais em termos de apoio, é tentar navegar através de todas as incertezas pelas quais as pessoas vão passar até ao lançamento: os nossos amigos, familiares, e as equipas de suporte na NASA. Isto tem sido tudo muito dinâmico, e acredito que todas as pessoas têm passado pelo mesmo nos últimos dias.
 

O distanciamento social está a obrigar muitas pessoas a trabalhar a partir de casa pela primeira vez. A EEI pode ser o ambiente de teletrabalho mais extremo, seja em Terra ou em órbita. Tem algum conselho para dar às pessoas?
(risos) Bem, estabelecer uma rotina, creio eu, é o mais importante. Não temos escolha sobre esta matéria; as equipas de controlo da missão dizem-nos qual é a nossa rotina. Mas eu passei por isto nas forças armadas enquanto estive mobilizado. Passei por momentos nas minhas missões na Marinha em que tive pausas nas atividades operacionais, e descobrimos que de facto era saudável para o grupo manter algum tipo de rotina normal.

Se estivermos todos relaxados e não nos levantarmos até às 11 da manhã, e se ninguém se pentear ou lavar os dentes, não só ficamos com mau aspeto, como também nos sentimos mal, por isso temos de encontrar algum ritmo. Manter uma rotina de segunda à sexta é provavelmente a recomendação mais básica que posso dar às pessoas.
 

Dado que vai estar na EEI até outubro, o que lhe passa pela cabeça? Como é que vai lidar com a separação dos eventos na Terra?
Muito provavelmente estarei de regresso à Terra em outubro e, espero eu, a pandemia já ficou para trás e as pessoas estarão a tentar regressar a uma existência normal, como aconteceu nos meses pós 11 de setembro. Demorou algum tempo, mas eventualmente a vida regressou à “semi-normalidade”, ou a uma nova definição de normal.

Vai ser uma primavera e um verão muito interessantes para mim. Vou estar muito ocupado, é claro. Vou estar em grande parte por minha conta na estação espacial e espero dar as boas-vindas aos meus colegas Doug Hurley e Bob Behnken, da missão SpaceX (Crew Dragon). Portanto, vou estar de mãos cheias e com a mente ocupada, mas vou continuar a conversar e a comunicar com a minha família, e a enviar emails aos meus entes queridos e amigos. Vou viver de forma indireta através deles.

Certamente não me vou distanciar e pensar que não é um problema meu. É claro que é um problema meu, porque a minha família, os meus amigos e colegas de trabalho estão passar por isto em tempo real.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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