Fóssil de Dinossauro Minúsculo Encontrado em Âmbar

O pequeno dinossauro – Oculudentavis khaungraae – parece uma ave e provavelmente comia insetos numa floresta tropical do Cretáceo.terça-feira, 24 de março de 2020

Um fóssil espetacular descoberto em âmbar, em Mianmar, contém o crânio do dinossauro pré-histórico mais pequeno encontrado até agora: uma criatura parecida com um pássaro, que viveu há 99 milhões de anos, e cujo tamanho não ultrapassava o das aves mais pequenas da atualidade.

O fóssil, descrito no dia 11 de março na Nature, mede apenas 1.5 centímetros de comprimento – desde a parte de trás da cabeça até à ponta do bico – aproximadamente a largura de uma unha. As proporções do crânio sugerem que o animal tinha o tamanho de um beija-flor, sendo assim mais leve do que uma moeda.

A pequena criatura parece estar intimamente relacionada com os dinossauros plumados Archaeopteryx e Jeholornis, primos distantes das aves modernas. Os investigadores suspeitam que o pequeno dinossauro tinha asas com penas, mas sem mais fósseis para comparar, não é possível determinar como é que conseguia voar. E, apesar das proporções de beija-flor, o pequeno dinossauro não se alimentava de néctar. O seu maxilar superior tem 40 dentes afiados, e os olhos enormes – adequados para identificar presas no meio da folhagem – têm características diferentes das encontradas noutros dinossauros. O género da criatura tem o nome apropriado de Oculudentavis, derivado do latim para olho, dente e ave.

Atualmente, não existe nenhuma criatura viva com uma estrutura semelhante à do Oculudentavis. “Está a revelar-se um nicho ecológico completamente diferente, algo que nem sequer sabíamos que existia”, diz a coautora do estudo, Jingmai O’Connor, paleontóloga do Instituto de Paleontologia e Paleoantropologia de Vertebrados da China. “É engraçado, mas também é um enigma, tudo sobre este fóssil é estranho.”

“Esta é verdadeiramente uma das descobertas mais raras e espetaculares!”, diz Ryan Carney, paleontólogo na Universidade do Sul da Flórida, que não participou no estudo. “É como se capturasse relâmpagos do Cretáceo numa garrafa, este âmbar preserva uma imagem sem precedentes de um crânio de dinossauro em miniatura que tem características novas e interessantes.”

Bico com dentes afiados
Quando Lida Xing viu o fóssil pela primeira vez, pensou que era “demasiado estranho”. O paleontólogo da Universidade Chinesa de Geociências, e autor principal do novo estudo, achou que o bico longo e os olhos grandes sugeriam que o animal podia ser uma das primeiras aves. Mas Xing ficou surpreendido por ver tantos dentes, aparentemente mais do que em qualquer outra ave dentada do Cretáceo. Só o maxilar superior tem 23 dentes completos, cada um com menos de meio milímetro de comprimento.

Para observar melhor o crânio, Xing levou o pedaço de âmbar para uma instalação de raios-x de alta potência, em Xangai, para captar características tão pequenas quanto um glóbulo vermelho. E enviou as digitalizações para O’Connor, especialista em dinossauros parentes das aves, e o que O’Connor viu foi impressionante.

“Este fóssil estava tão impecável e tão bem preservado”, diz O’Connor. “Estava perfeito.”

Para determinar a idade relativa do dinossauro, O'Connor e os seus colegas examinaram as imagens digitalizadas do crânio e a forma como os ossos se fundiam, uma indicação da maturidade do animal. Os investigadores determinaram que o Oculudentavis morreu em idade adulta, ou quase – pelo que o seu tamanho diminuto é ainda mais estranho.

Olhos diferentes de qualquer outra ave
Os olhos desta criatura incomum eram tão grandes que até saiam pelas laterais da cabeça. Intrigada, O'Connor decidiu entrar em contacto com o “homem dos olhos” da paleontologia, Lars Schmitz, investigador do departamento de Ciências W.M Keck, na Califórnia, que estuda a evolução da visão.

Quando Schmitz viu pela primeira vez as digitalizações do crânio, percebeu que os olhos se pareciam com os olhos proporcionalmente grandes das aves mais pequenas, reforçando assim o facto de o fóssil de Oculudentavis pertencer a um adulto.

Os répteis e as aves têm pequenos anéis ósseos nos olhos que ajudam a apoiar os órgãos visuais. As placas que compõem estes anéis têm geralmente a forma de retângulos estreitos, mas no Oculudentavis, os pequenos ossos têm um formato arredondado, como se fossem bolas de gelado. “A forma que encontramos aqui não se encontra em nenhuma outra ave, ou em qualquer outro dinossauro”, diz Schmitz.

Atualmente, os únicos animais que têm ossos oculares com esta forma são os lagartos diurnos. E os investigadores acreditam que o Oculudentavis usava os seus olhos invulgarmente grandes para caçar durante o dia, capturando insetos com o seu bico dentado.

Hoje em dia, a ave com as características mais parecidas pode ser a Todus, uma ave das Caraíbas de corpo pequeno que ataca insetos, diz Jen Bright, bióloga e especialista em crânios de aves na Universidade de Hull. Mas os crânios de Todus têm o dobro do tamanho do fóssil de Oculudentavis. “Encontrar um fóssil de vertebrado tão pequeno é impressionante”, diz Jen. “É tão estranho, adoro-o!”

23 IMAGENS CAPTAM O MISTÉRIO DOS DINOSSAUROS

O’Connor especula que as características estranhas do Oculudentavis podem dever-se ao seu ambiente pré-histórico único. Em ecossistemas com recursos limitados, como nas ilhas, a evolução pode fazer com que os animais se miniaturizem. E os restos de uma criatura marinha chamada amonite sugerem que, em Mianmar, os depósitos de âmbar se formaram nas ilhas, ou pelo menos em regiões costeiras.

“Os vertebrados mais pequenos vivos atualmente são uns sapos minúsculos de Madagáscar, e são predadores, da mesma forma que supomos que o Oculudentavis era”, diz O'Connor.

Desenterrar fósseis – e controvérsia
O Oculudentavis apareceu pela primeira vez em 2016, quando Khaung Ra, um colecionador de âmbar birmanês, adquiriu dois espécimes encontrados numa mina, incluindo este minúsculo e misterioso crânio. Ra doou o fóssil ao Museu de Âmbar de Hupoge, em Tengchong, na China, museu que é gerido pelo seu genro, Guang Chen. O nome da espécie do dinossauro, khaungraae, homenageia a doação de Khaung Ra.

Este fóssil é a descoberta mais recente nas minas de âmbar no norte de Mianmar, cujos depósitos de resina de árvore fossilizados contêm os restos dos habitantes mais pequenos de uma antiga floresta tropical. Nos últimos anos, os paleontólogos encontraram insetos, uma cobra e até alguns restos de dinossauros plumados enterrados em âmbar. Xing fez mais para catalogar estes fósseis em âmbar do que qualquer outro, e a sua pesquisa é parcialmente financiada pela National Geographic Society.

À medida que o valor científico do âmbar birmanês cresce, as preocupações éticas em torno do seu estudo também aumentam. Muitos fósseis de âmbar importantes acabam nas mãos de colecionadores particulares, levantando questões sobre o acesso de futuros cientistas aos espécimes. Os mineiros também enfrentam condições de insegurança – as minas ficam no estado de Kachin, em Mianmar, lar de um conflito que já dura há muito tempo entre os militares de Mianmar e os rebeldes que lutam pela independência de Kachin. De acordo com o Kachin Development Networking Group, em 2018, uma ofensiva militar para controlar as áreas de mineração deslocou milhares de nativos de Kachin.

Segundo Xing, o Museu de Âmbar de Hupoge está a trabalhar para estabelecer um museu em Mianmar, e Xing e outros investigadores estão a tentar garantir o acesso científico aos espécimes de âmbar, devolvendo-os ao país quando o conflito na região desaparecer. “O melhor a fazer é deixar os fósseis de âmbar no país onde foram encontrados”, diz Xing por email.

Enquanto os esforços para devolver as peças de âmbar a Mianmar continuam em andamento, os cientistas vão permanecer atentos a novas descobertas de Oculudentavis. Xing ouviu rumores de uma “ligação perdida”. O âmbar que tem o crânio de Oculudentavis veio supostamente de um pedaço maior, que tinha penas preservadas, mas quando Xing viu os restos, as duas peças já tinham sido separadas, cortadas e polidas, impedindo-o de confirmar a sua origem.

Schmitz, por seu lado, está encantado com esta possibilidade. “Oh, eu nem o consigo descrever! O crânio é tão estranho... quem sabe o que vamos aprender para além do que já descrevemos até agora?”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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