Lagartixa com Olhos de Serpente Descoberta em Angola

A rica diversidade de espécies de répteis das zonas desérticas do sudoeste de Angola continua a ser descrita por equipas Portuguesas e Angolanas.

Publicado 5/03/2020, 10:57
Panaspis mocamedensis, uma nova espécie de lagartixa
Panaspis mocamedensis, a nova espécie de lagartixa descrita.
Fotografia por Ishan Agarwal

O sudoeste de Angola é uma das áreas mais biodiversas do país. Devido a uma combinação única de factores fisiográficos e geológicos, as três províncias que compõem o sudoeste de Angola – Namibe, Huíla e Cunene – têm sido um autêntico chamariz para naturalistas de todo o mundo. O fim dos conflitos armados em 2002 e o rápido desenvolvimento das infraestruturas básicas na região têm permitido que equipas de cientistas angolanos e os seus parceiros internacionais revisitem aquele que é o deserto mais antigo do mundo – o deserto do Namibe – e se deslumbrem com a grande barreira ecológica que separa o deserto das savanas de miombo do planalto Angola, iconicamente marcada pela serpenteante estrada da Serra da Leba, ou estudem o severo impacto das alterações climáticas na província do Cunene.

No que toca à sua biodiversidade, o sudoeste de Angola é uma das zonas mais bem estudadas do país, fruto de várias dezenas de expedições e trabalhos realizados por uma plêiade de naturalistas e exploradores desde o século XIX. No entanto, isso não significa que esteja hoje ainda suficientemente bem estudada. Prova disso é a constante descoberta de espécies de animais e plantas que nunca para lá haviam sido citadas. Muitas destas são mesmo espécies novas para a ciência.

Dois dos grupos faunísticos que mais têm contribuído para este aumento considerável de espécies têm sido os anfíbios e os répteis. Só nos últimos oito anos, já foram descritos um total de três novas espécies de anfíbios e cinco novas espécies de lagartos. Esta é também uma das áreas do país que a minha equipa tem dedicado uma especial atenção. Desde 2013 que tenho liderado expedições à região, no âmbito de uma parceria científica entre o Instituto Nacional da Biodiversidade e Áreas de Conservação (INBAC) do Ministério do Ambiente de Angola e várias instituições parceiras (norte-americanas e Portuguesas). Algumas das nossas descobertas na região têm sido amplamente difundidas pelos media – tais como a descoberta de dois lagartos espinhosos – o Cordylus namakuiyus e o Cordylus phonolithos – ou do único sapo sem ouvidos da região – o Poyntonophrynus pachnodes.

Zona subdesértica do Maungo, província do Namibe, onde foi encontrada a nova espécie de lagartixa.
Fotografia por Luis Ceríaco

Desta vez, a novidade surgiu debaixo dos nossos pés, movimentando-se rapidamente debaixo das folhadas e escassa manta-morta presente no leito dos rios secos da província do Namibe. De forma a não destoar do exotismo e estranheza que causaram a descoberta de lagartos-espinhosos e sapos sem ouvidos, a nova espécie descoberta pertence a um grupo de répteis que em inglês são conhecidos por “Snake eyed skinks”, ou seja, lagartixas de olhos de serpente. Estes curiosos animais são membros do género Panaspis, e apresentam-se como pequenas lagartixas (geralmente com menos de 10 cm da ponta do focinho à ponta da cauda), com membros anteriores e posteriores bastante rudimentares, e, na sua grande maioria sem pálpebras, o que faz com que o olho esteja sempre aberto tal como o das serpentes.

Em duas expedições distintas, uma em 2016 e outra em 2018, foram colectados alguns espécimes pertencentes a este género nas zonas desérticas da província do Namibe. Estes seriam os primeiros registos de animais do género Panaspis nesta zona do país – os registos mais próximos situavam-se já na escarpa da serra da Leba ou no planalto, em áreas ecologicamente completamente distintas daquelas onde agora se encontravam. Conhecendo a complexa história evolutiva deste género, esta descoberta deixou os investigadores em alerta para a possibilidade de os exemplares do Namibe serem representantes de uma espécie diferente daqueles que se encontravam no resto do país. Mas qual seria? Seria a mesma que aquela que descrevi em 2018 do noroeste da Namíbia – a Panaspis namibiana? Ou seria algo completamente novo? Infelizmente, a análise da morfologia externa dos membros deste género é por si só insuficiente para distinguir as espécies entre si. São, na gíria científica, apelidadas de espécies crípticas – espécies de tal forma semelhantes do ponto vista morfológico, que apenas o estudo das suas sequências de ADN permitem a sua identificação.

Rio Cunene, fotografado do lado Angolano. Fronteira política e natural de Angola com a Namíbia.
Fotografia por Luis Ceríaco

Para resolver esta questão, a equipa levou a cabo um estudo de taxonomia integrativa de todos os membros do género Panaspis em Angola. Para isso sequenciaram-se vários genes chave para cada uma das espécies, estudou-se a fundo a sua morfologia externa, comparando espécimes recentemente colectados com outros existentes em museus de história natural de todo o mundo, e mapeou-se a distribuição das várias espécies no país. Os resultados deste estudo, agora publicados na revista científica Zootaxa, demonstram que existem cinco espécies de Panaspis em Angola, e que os exemplares do deserto do Namibe eram de facto uma espécie nova para a ciência. Esta nova espécie, baptizada de Panaspis mocamedensis, em referência ao nome da capital da província do Namibe (Moçâmedes), é geneticamente muito próxima da espécie que ocorre na vizinha Namíbia, a Panaspis namibiana, da qual difere apenas em pequenas diferenças na coloração e algumas características das suas escamas.

Osga de cauda plumada, Kolekanos plumicaudus, género endémico da província do Namibe.
Fotografia por Luis Ceríaco

Endémica da província do Namibe, ou seja, a sua ocorrência conhecida cinge-se a esta província, a nova espécie vem reforçar a ideia de que esta região é um autêntico hotspot de biodiversidade, e em particular, daquela adaptada a zonas desérticas e sub-desérticas. São várias as espécies de répteis endémicas desta região. Uma delas é talvez uma das espécies de osgas mais bizarras do mundo – a Osga de Cauda Plumada, Kolekanos plumicaudus. Conhecida apenas de uma área inferior a 50 km2 na província do Namibe, este género de osga, para o qual a espécie plumicaudus é a única que se conhece, é mais um fantástico exemplo da antiguidade do deserto do Namibe e dos seres que aí habitam, mas também uma prova inequívoca das forças da paisagem que isolam esta província da região envolvente. Isolada pelo rio Cunene a sul e pela grande parede de quase 1000 metros que se ergue a este – a escarpa que separa a província do Namibe da província da Huíla – e ainda o oceano Atlântico que bafeja constantemente as magníficas dunas que se estendem no limite oeste da província, o Namibe Angolano e os seus habitantes encontram-se quase que isolados dos seus parentes mais próximos. E é esse isolamento, como enunciava Charles Darwin na Origem das Espécies, um dos mais importantes mecanismos que conduzem à especiação.

Esta não será certamente a última espécie endémica que vamos conhecer do Namibe. Esta mesma equipa internacional encontra-se neste momento a trabalhar na descrição de pelo menos oito novas espécies de répteis da região, e outras tantas do resto do país. O estudo da biodiversidade de Angola encontra-se neste momento numa altura incrível de renascimento, e a empenhada parceria entre angolanos e os seus colegas internacionais é, de todas as formas, um exemplo para o mundo.

 

Luis M. P. Ceríaco é um herpetólogo português, curador-chefe do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto e curador das coleções de anfíbios e répteis do Museu Nacional de História Natural e da Ciência em Lisboa.

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