O Sabão é Melhor do que a Lixívia na Luta Contra o Coronavírus – Porquê?

A lixívia “é como usar um bastão para matar uma mosca”, explica uma virologista.

sexta-feira, 27 de março de 2020,
Por Sarah Gibbens
Um trabalhador com um fato protetor desinfeta o interior de um autocarro, numa estação de lavagem ...
Um trabalhador com um fato protetor desinfeta o interior de um autocarro, numa estação de lavagem de autocarros da empresa de transportes públicos da cidade de Bratislava. Esta ação, integrada nas medidas preventivas contra a propagação do novo coronavírus, foi feita na Eslováquia no dia 11 de março de 2020.
Fotografia de Vladimir Simicek, AFP via Getty Images

Há quase 5.000 anos que os humanos inventam produtos de limpeza, mas a simples combinação entre água e sabão continua a ser uma das armas mais fortes contra as doenças infecciosas, incluindo o novo coronavírus. Apesar disso, quando surgem surtos como o da COVID-19 e o pânico se instala, as pessoas correm para comprar todos os tipos de produtos químicos, muitos dos quais são desnecessários ou ineficazes contra o vírus.

Os desinfetantes para as mãos estão a desaparecer das prateleiras das lojas, embora muitos não tenham a quantidade necessária de álcool – pelo menos 60% em volume – para matar o vírus. Nos países mais atingidos pelo novo coronavírus, vemos imagens de equipas com fatos protetores a pulverizarem soluções de lixívia ao longo das vias públicas, ou dentro de edifícios de escritórios. Porém, os especialistas têm dúvidas sobre a eficácia destas medidas na luta contra a propagação do coronavírus.

Usar lixívia “é como usar um bastão para matar uma mosca”, diz Jane Greatorex, virologista da Universidade de Cambridge. A lixívia pode corroer metal e provocar outros tipos de problemas respiratórios se for inalada durante muito tempo.

“Com a lixívia, se a colocarmos numa superfície com muita sujidade, a sujidade consome a lixívia”, diz Lisa Casanova, cientista em saúde ambiental na Universidade Estadual da Geórgia. Lisa e outros especialistas recomendam o uso de sabonetes mais suaves, como detergente para a loiça, para higienizar facilmente uma superfície em ambientes interiores e exteriores.

Para compreendermos porque razão as autoridades de saúde continuam a referir o sabão, convém saber como é que o coronavírus existe fora do corpo humano, e o que as primeiras investigações nos dizem sobre o tempo que o vírus consegue permanecer nas superfícies comuns.

Coronavírus e superfícies
Uma das principais formas pelas quais as pessoas ficam infetadas com o coronavírus é através da transmissão de pessoa para pessoa. Este contacto de proximidade assume a forma de um abraço, um aperto de mão, ou de um espaço público lotado que permite aos indivíduos infetados espalharem facilmente as suas gotículas respiratórias, que normalmente são expelidas pela tosse ou espirros.

Mas como as gotículas respiratórias são pesadas, normalmente caem no chão com facilidade. Dependendo de onde estas gotículas caem, podem persistir numa superfície até que são tocadas por uma mão, levando eventualmente o vírus ao nariz ou à boca, provocando assim a infecção. (Descubra quais são as condições subjacentes que agravam os efeitos do coronavírus.)

Todos os vírus são pedaços de código genético agrupados numa coleção de lípidos e proteínas, e podem incluir um invólucro à base de gordura conhecido por envelope viral. Destruir um vírus deste género exige menos esforço do que outros vírus, como os norovírus que conseguem sobreviver durante meses numa superfície. Os vírus envelopados sobrevivem geralmente fora do corpo durante apenas alguns dias e são considerados os mais fáceis de matar – assim que o seu exterior frágil se quebra, começam a degradar-se.

No entanto, todos os vírus envelopados são diferentes, e cientistas do mundo inteiro estão a pesquisar de forma intensiva o SARS-CoV-2, o nome oficial do novo coronavírus, para compreenderem como é que este se comporta. Um estudo publicado no dia 17 de março no New England Journal of Medicine analisou o tempo que este coronavírus continua a ser detetado em vários materiais. Dylan Morris, biólogo evolucionário da Universidade de Princeton – e coautor do estudo – diz que o objetivo era investigar quais as superfícies presentes em ambientes médicos que podem servir como potencial foco de infeção para os pacientes.

Nas superfícies, descobriu-se que o SARS-CoV-2 dura 24 horas em papelão, dois dias em aço inoxidável e três dias num tipo de plástico rígido chamado polipropileno. O vírus foi detetado durante quatro horas no cobre, um material que decompõe naturalmente bactérias e vírus. O estudo também revelou que o novo coronavírus e o seu parente SARS, que provocou surtos em 2002 e 2003, sobrevivem nas superfícies durante períodos semelhantes. (Descubra como o coronavírus se propaga num avião – e qual o lugar mais seguro.)

As pessoas que encomendam coisas online para evitar multidões podem entrar em contacto com papelão contaminado, embora os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA enfatizem que as superfícies não são consideradas a principal forma de transmissão do vírus.

Morris não quer especular demasiado sobre as superfícies do nosso dia-a-dia, mas o seu conselho passa por lavarmos cuidadosamente os itens e as mãos.

Contudo, este estudo tem limitações. A equipa examinou o vírus num ambiente de laboratório altamente controlado. Os espaços que geralmente são muito tocados, como o corrimão de uma escada ou uma paragem de autocarros, contêm mais quantidades de vírus e podem apresentar um risco mais elevado de infeção. E as condições ambientais também podem influenciar a duração do vírus. Acredita-se que a humidade, por exemplo, dificulta a circulação das gotículas respiratórias pelo ar, e sabe-se que a luz ultravioleta degrada o vírus. (As temperaturas quentes da primavera podem abrandar o coronavírus?)

O estudo também descobriu que o novo coronavírus consegue persistir sob a forma de aerossóis – pequenas partículas transportadas pelo ar – até três horas, embora Morris esclareça que as gotículas respiratórias têm mais probabilidades de serem infecciosas. Os aerossóis virais são mais preocupantes em ambientes clínicos, onde determinados tratamentos, como a ventilação, podem produzir estas partículas. É pouco provável que estes aerossóis de coronavírus atuem em locais ao ar livre, ou em locais públicos como nos supermercados.

Madeira, roupa e comida
O estudo de Morris não incluiu itens mais generalizados, como a roupa ou outros tipos de produtos, mas não existem evidências de que o novo coronavírus se transmita pelos alimentos – de acordo com o Departamento de Saúde dos EUA.

Nos estudos feitos sobre os vírus da gripe, nos itens porosos, como a roupa e a madeira, o vírus desaparece passadas quatro horas. Isto acontece porque estes itens afastam a humidade do vírus e provocam a sua degradação.

Independentemente de onde tocamos, água e sabão continua a ser a melhor forma de remover qualquer potencial coronavírus das nossas mãos – antes de uma possível infeção. O coronavírus não penetra na pele porque a camada exterior é ligeiramente ácida, o que impede a maioria dos patógenos de entrar no nosso corpo, explica Jane Greatorex.

O sabão funciona eficazmente porque a sua química abre o envelope externo do coronavírus e faz com que este se degrade. As moléculas do sabão retêm os pequenos fragmentos do vírus, que são depois levados pela água. Os desinfetantes para as mãos funcionam de forma semelhante – separam as proteínas contidas num vírus.

Os especialistas dizem que a água da torneira também não é motivo de preocupação, porque qualquer tipo de contaminação precisaria de vir através de águas residuais. De acordo com o CDC, apesar de o coronavírus ter sido encontrado em fezes, o vírus ainda não foi realmente detetado em águas residuais. E mesmo que fosse esse o caso, a filtragem de água é robusta o suficiente para matar os coronavírus, diz Kyle Bibby, engenheiro ambiental da Universidade de Notre Dame.

“É tecnicamente plausível que alguém possa ficar exposto ao vírus através de uma via aquática? Sim. É realista as pessoas preocuparem-se com isso? Não.” diz Bibby.

“A última coisa que precisamos neste momento é ter pessoas com medo de beber água da torneira ou com receio de lavar as mãos.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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