As Temperaturas Quentes da Primavera Podem Abrandar o Coronavírus?

A época gripal geralmente termina em março ou abril, mas será que vai acontecer o mesmo com o COVID-19? Os surtos de coronavírus do passado podem oferecer respostas.segunda-feira, 16 de março de 2020

Ainda não se sabe se o novo coronavírus, que se está a disseminar rapidamente pelo mundo inteiro, vai seguir a época gripal e desaparecer com a chegada da primavera. Muitos cientistas dizem que ainda é muito cedo para se saber como é que este vírus vai reagir à subida das temperaturas.

Na família dos coronavírus existem dezenas de vírus, mas só sete afetam os humanos. Sabe-se que quatro provocam constipações ligeiras, mas existem outros vírus mais recentes e mortais que aparentemente são transmitidos por animais como morcegos e camelos. As autoridades de saúde denominaram este novo vírus de SARS-CoV-2, e a doença tem a designação de COVID-19.

A ideia de que o verão pode abrandar a pandemia é muito tentadora. Em fevereiro, o presidente dos EUA, Donald Trump, falou sobre os esforços da China na contenção do vírus, dizendo que iriam ser bem-sucedidos, “sobretudo quando o tempo começar a aquecer”.

Os vírus que provocam gripe ou constipações ligeiras tendem a diminuir nos meses mais quentes, porque são vírus que têm o que os cientistas chamam de “sazonalidade”, pelo que, de certa forma, os comentários do presidente norte-americano têm algum suporte científico. Mas não se sabe se a SARS-CoV-2 vai reagir da mesma maneira. Os investigadores que atualmente estudam a doença dizem que os trabalhos ainda estão numa fase inicial, pelo que ainda é cedo para prever como é que o vírus vai reagir aos dias mais quentes.

“Espero que venha a demonstrar sazonalidade, mas é difícil saber”, diz Stuart Weston, estudante de pós-doutoramento na Faculdade de Medicina de Maryland – onde o vírus está a ser estudado.

No dia 16 de março registavam-se mais de 164.000 casos confirmados de coronavírus em 146 países, e os especialistas dizem que é provável que a doença continue a infetar mais pessoas.

O que sabemos sobre os vírus?
A um nível mais básico, podemos pensar na gripe e nos coronavírus como uma coleção de proteínas e lípidos que passam de pessoa para pessoa através do contacto físico, mas também podem existir em superfícies ou nas gotículas respiratórias da tosse de uma pessoa doente.

Fora do corpo humano, existem fatores externos que provocam a deterioração do vírus. O álcool no desinfetante para as mãos, por exemplo, decompõe estas proteínas e lípidos e ataca a estabilidade do vírus, diminuindo assim as probabilidades de infeção. (Descubra o que o coronavírus faz ao corpo humano.)

As investigações sobre a sazonalidade dos vírus têm-se focado geralmente nas vertentes que provocam gripe, uma doença há muito associada aos meses de inverno. A “época gripal” geralmente dura de outubro a abril, ou março, e os cientistas têm várias teorias sobre o que pode provocar esta situação.

Alguns cientistas colocam as suas atenções nos espaços confinados – para escapar do clima frio, as pessoas fecham-se dentro de casa, onde a transmissão entre humanos é mais provável. Para compreender porque é que as latitudes do norte assistem a um aumento nos casos de gripe durante o inverno, os investigadores analisaram a forma como o vírus se espalha em diferentes níveis de temperatura e humidade.

E as investigações relativamente recentes sugerem que o ar frio e seco também pode ajudar os vírus a permanecerem intactos no ar, ou a percorrerem distâncias maiores pelo ar.

Um dos primeiros estudos a testar como é que as condições ambientais afetam a transmissão viral foi publicado em 2007 e analisou a propagação da gripe em porquinhos-da-índia infetados em laboratório. As temperaturas elevadas e, em particular, os índices elevados de humidade abrandaram a propagação do vírus. Com níveis muito elevados de humidade, o vírus parou por completo a sua disseminação. O ar mais quente retém mais humidade, impedindo que os vírus transportados pelo ar consigam percorrer as mesmas distâncias que fariam com o ar seco. Em condições de humidade, as pequenas gotículas de líquido presentes na tosse ou nos espirros acumulam mais humidade à medida que são expelidas. Eventualmente, estas gotículas ficam demasiado pesadas para permanecerem no ar e caem no chão.

Os estudos feitos fora do laboratório apresentam resultados semelhantes, embora algumas regiões tropicais tenham mais casos de gripe durante a época das chuvas, quando as pessoas se aglomeram dentro de casa.

Os cientistas levantam a hipótese de a baixa humidade, que geralmente acontece no inverno, poder prejudicar as funções do muco no nosso nariz – que o nosso corpo usa para aprisionar e expulsar corpos estranhos, como vírus ou bactérias. O ar frio e seco pode secar este muco, que perde assim a sua eficácia na captura de um vírus.

Ian Lipkin, diretor do Centro de Infeção e Imunidade da Universidade de Colúmbia, está a estudar o novo coronavírus. Lipkin diz que a luz solar, que é menos abundante no inverno, também pode ajudar a enfraquecer os vírus presentes em superfícies artificiais.

“A luz ultravioleta decompõe o ácido nucleico. Quase que esteriliza as superfícies. O ambiente fora de casa está geralmente mais limpo por causa da luz ultravioleta”, diz Lipkin.

A luz ultravioleta é tão eficaz a matar bactérias e vírus que até é utilizada nos hospitais para esterilizar equipamento.

O que significa para este coronavírus?
Apesar de o coronavírus e a gripe serem ambos infeções respiratórias, não se sabe o suficiente sobre a SARS-CoV-2 para prever se vai ter os mesmos padrões sazonais.

Para compreender melhor este surto, os cientistas estão a analisar outros surtos comparáveis, como a SARS e a MERS. A SARS, que se começou a espalhar no final de 2002, partilha quase 90% do seu ADN com o vírus atual. O surto de SARS começou em novembro e durou até julho, indiciando alguma sazonalidade, diz Weston, e a sua contenção pode ter resultado da intervenção precoce. Por outras palavras, desapareceu com o clima mais quente, ou os esforços de tratamento e prevenção resultaram.

A MERS começou em setembro de 2012 na Arábia Saudita, onde as temperaturas são geralmente elevadas. Ao contrário da SARS, a MERS nunca foi contida na totalidade, e ocasionalmente surgem novos casos. O novo coronavírus também começou a circular localmente no Médio Oriente, principalmente no Irão e nos Emirados Árabes Unidos.

“Não encontramos muitas evidências de sazonalidade na MERS”, diz Weston.

Não se sabe ao certo se a SARS e a MERS eram realmente sazonais, ou se este novo vírus vai agir como a SARS. Weston diz que o laboratório está focado no desenvolvimento de tratamentos e vacinas para o vírus, mas alerta que provavelmente os medicamentos não estarão disponíveis pelo menos durante um ano ou mais.

E agora?
Marc Lipsitch, epidemiologista de Harvard, não acredita que as mudanças no tempo afetem muito a forma como o vírus se propaga. O COVID-19 já foi documentado no mundo inteiro. Se o vírus for semelhante a um vírus típico da gripe, pode piorar nas regiões do Hemisfério Sul com a mudança das estações do ano.

David Heymann, da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, diz que não se sabe o suficiente sobre este novo vírus para prever como é que vai reagir às mudanças no tempo.”

“O risco de fazer previsões sem uma base sólida de evidências, caso se venha a provar que estavam erradas, é o de que podem ser consideradas verdadeiras e oferecer uma falsa sensação de segurança”, diz Heymann por email.

“A ênfase hoje deve continuar a ser, sempre que possível, a contenção e erradicação.”

De acordo com o Centro de Controlo de Doenças dos EUA, as pessoas são mais contagiosas quando apresentam sintomas. No entanto, alguns especialistas suspeitam que as contagens oficiais podem estar a subestimar o número verdadeiro de infetados – e as autoridades alegam que nem todas as pessoas infetadas vão desenvolver uma doença grave.

“Estamos apenas a ver os casos mais severos”, diz Weston. “Podem existir mais infetados que estão a passar despercebidos.”

Muitos especialistas dizem que a SARS-CoV-2 pode vir a tornar-se endémica, juntando-se aos outros quatro coronavírus que provocam constipações ligeiras, ou pode transformar-se num problema de saúde sazonal como a gripe.

Para evitar a contração de uma doença por qualquer vírus, a Organização Mundial de Saúde recomenda a lavagem frequente das mãos, evitar os contactos de proximidade, sobretudo com pessoas que apresentem sintomas como tosse ou espirros, e procurar ajuda médica em caso de doença.
 

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Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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