Crânios Fósseis Reescrevem a História de Dois Antepassados Humanos

Encontrados numa caverna no topo de uma colina, os fósseis mais antigos de que há conhecimento de um Homo erectus e de um Paranthropus robustus revelam novas informações sobre um período crítico da evolução dos hominídeos.

Friday, April 17, 2020,
Por Tim Vernimmen
Fragmentos cranianos de um Homo erectus descobertos na África do Sul – a primeira vez que ...

Fragmentos cranianos de um Homo erectus descobertos na África do Sul – a primeira vez que a espécie foi encontrada na região.

Fotografia de HERRIES ET AL., SCIENCE 368:47 (2020).

No inverno de 2015, Jesse Martin e Angeline Leece estavam a extrair o que pensavam ser os restos mortais de um babuíno de um pedaço de rocha. Estes dois estudantes da Universidade La Trobe, na Austrália, faziam parte de uma expedição de recolha e estudo de fósseis na pedreira de Drimolen, a noroeste de Joanesburgo, na África do Sul. Quando estavam a limpar os fragmentos cranianos e a juntar os pedaços, perceberam que os fósseis não pertenciam a um babuíno – eram partes da caixa craniana de um jovem Homo erectus, uma espécie que nunca foi identificada na África do Sul.

“Acho que os nossos orientadores só acreditaram em nós quando vieram ver por eles próprios”, diz Martin.

A caixa craniana foi descrita na revista Science no dia 3 de abril, juntamente com a calota craniana de outro hominídeo antigo – Paranthropus robustus – encontrada no mesmo local. Foi usado um conjunto de técnicas diferentes de datação que indicou que os fósseis cranianos das duas espécies tinham mais ou menos a mesma idade – cerca de dois milhões de anos. De acordo com o novo estudo, do qual Martin e Leece são coautores, estes são os fósseis mais antigos alguma vez encontrados de ambas as espécies.

“Penso que eles apresentaram bons argumentos para o Homo erectus mais antigo de África e, de facto, do mundo”, diz por email Lee Berger, paleoantropólogo da Universidade de Witwatersrand e explorador da National Geographic Society (Berger não participou neste novo estudo).

As origens enigmáticas do Homo erectus
A idade dos fósseis é particularmente surpreendente para o crânio do Homo erectus. A maioria dos paleoantropólogos acredita que este antepassado humano surgiu na África Oriental, onde foram encontrados vários fósseis menos antigos do Homo erectus – assim como os restos prováveis das espécies Homo mais antigas. Alguns até levantaram a hipótese de o Homo erectus não ter originado em África, porque os fósseis mais antigos conhecidos da espécie – antes desta nova descoberta – foram encontrados em Dmanisi, na Geórgia.

Uma origem asiática para o Homo erectus parece agora extremamente improvável, diz Martin. “O primeiro problema para esse conceito está no facto de as primeiras evidências do Homo erectus estarem agora na África do Sul. Mas o maior problema é não haver um candidato antecessor do Homo erectus na Ásia. Se fizermos mais escavações nos sítios onde foram encontrados Homo erectus, não existem lá hominídeos.”

Porém, a descoberta da caixa craniana na África do Sul não significa necessariamente que o Homo erectus teve origem nessa região. “Com base nas evidências atuais, acredito que surgiu algures em África, mas num local que ainda não procurámos”, diz Martin.

Marcia Ponce de Léon, paleoantropóloga da Universidade de Zurique, na Suíça, que não participou neste novo estudo, concorda que “é razoável chamar o novo fóssil de Homo erectus”. Um estudo de 2013 feito por Ponce de Léon e seus colegas descrevia um crânio de um hominídeo com 1.8 milhões de anos, encontrado em Dmanisi, na Geórgia, e identificava-o como podendo pertencer a um dos primeiros Homo erectus a sair de África.

À medida que a espécie migrou pelos continentes, continuou a adaptar-se a novos ambientes. “Todas as populações de todas as espécies continuam a evoluir para onde quer que vão”, diz Ponce de Léon por email. O rastreio da propagação e adaptação do Homo erectus do outro lado do mundo pode ajudar os cientistas a aprender mais sobre a forma como este nosso antepassado sobreviveu nos diferentes ambientes que encontrou.

“Este foi realmente o primeiro humano a saber o que era a globalização”, diz Martin.

Três hominídeos na África Austral
Há dois milhões de anos, o Homo erectus não era propriamente abundante. “Aparentemente, eram superados num rácio de 10 para 1 pelo Paranthropus robustus”, diz Leece.

Como o próprio nome indica, o Paranthropus robustus – um dos “robustos australopitecos” – tinha um crânio muito vigoroso, dentes particularmente grandes e uma saliência no topo da caixa craniana onde os seus enormes músculos para mastigar se ligavam. “A teoria vigente é a de que comiam alimentos rijos – não necessariamente coisas que precisavam de ser trituradas, mas alimentos fibrosos que exigiam muita mastigação, como tubérculos ou gramíneas”, diz Leece.

E outra espécie ainda mais antiga – Australopithecus sediba – ainda vagueava pela região. O registo fóssil sugere que isto aconteceu quando os Australopitecos começaram a ser substituídos pelo Paranthropus e pelo Homo, um momento crítico na evolução das espécies que nos precederam.

Durante grande parte do ano, as espécies Homo, Paranthropus e Australopitecos tinham muitos recursos disponíveis, e os três provavelmente comiam coisas semelhantes. Mas os invernos conseguem ser muito difíceis nesta região, diz Martin. “De manhã, faz muito frio e, segundo as estimativas, naquela época fazia ainda mais frio. Portanto, era um clima muito difícil para um hominídeo.” Nessas circunstâncias, os maxilares poderosos e a capacidade do Paranthropus robustus em comer alimentos resistentes e fibrosos provavelmente concederam-lhe uma vantagem significativa.

Uma das teorias sustenta que o Australopithecus sediba pode ter sido um antepassado direto do género Homo, incluindo a espécie Homo erectus. Mas os autores do novo estudo questionam esta teoria, porque o recém-descoberto crânio do Homo erectus é mais antigo do que os restos do Australopithecus sediba encontrados num local próximo, em Malapa.

Berger, que em 2010 fez parte da equipa que encontrou os fósseis do Australopithecus sediba em Malapa, acredita que, apesar de o crânio do Homo erectus ser mais antigo, o Australopithecus sediba pode ter sido na mesma um antepassado da espécie. “As espécies-mãe podem facilmente existir ao mesmo tempo e no mesmo local que as espécies descendentes”, diz Berger.

Independentemente de qual foi a espécie que emergiu primeiro, uma coisa é clara: mais de um milhão de anos depois, só o Homo erectus é que ainda caminhava pela Terra.

Homo erectus conquista o mundo
Embora o crânio altamente especializado do Paranthropus robustus poder ter sido adequado para determinados ambientes, essa característica também pode ter sido a sua ruína, diz Leece. Quando o ambiente muda, as adaptações extremas podem tornar-se num obstáculo.

Comparando as duas caixas cranianas recentemente analisadas, percebe-se que o Homo erectus, apesar de inicialmente ter sido superado pelo Paranthropus robustus, estava a passar por uma adaptação revolucionária. A caixa craniana característica do Homo erectus em forma de lágrima sugere que este antepassado do género Homo estava a expandir e a reorganizar o seu cérebro.

O crânio do Homo erectus que Martin e Leece recolheram na rocha não pertencia a um adulto. E a julgar pela extensão com que os ossos do crânio já se tinham fundido, o fóssil pertencia a uma criança entre os dois e os seis anos de idade. Nessa tenra idade, o seu cérebro já era maior do que o da maioria dos Australopitecos e Paranthropus adultos. E as marcas presentes nos fósseis revelam que o cérebro da criança ainda estava em crescimento – estava a empurrar os ossos cranianos para fora. “Podemos até ver vasos sanguíneos”, diz Martin.

Enquanto que o Paranthropus robustus desenvolveu uma espécie de “pedra de moer portátil”, o Homo erectus “evoluiu para ser adaptável” e para resolver todos os tipos de problemas que pode ter encontrado ao longo da sua jornada desde África até à Ásia, e partes do sul da Europa, diz Martin. O cérebro cada vez mais ágil da espécie permitiu que fosse mais esperto do que os outros animais, criar ferramentas, colaborar com outros e talvez até pensar no futuro.

O Homo erectus sobreviveu durante quase dois milhões de anos, tornando-o na espécie Homo mais bem-sucedida alguma vez conhecida, diz Susan Antón, paleoantropóloga da Universidade de Nova Iorque que estudou fósseis de Homo erectus de África e da Ásia. Susan diz por email: “O Homo sapiens pode ser mais abundante agora do que o Homo erectus alguma vez foi. Mas será que vamos durar tanto tempo? Só o tempo o dirá.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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