Emissões de Carbono Caem a Pique Devido ao Coronavírus. Mas Não Por Muito Tempo.

À medida que o mundo abranda, as emissões de CO2 também começam a baixar, mas os especialistas dizem que, caso os governos não comecem a adotar energias mais limpas, esta situação não vai durar muito tempo.

Monday, April 13, 2020,
Por Madeleine Stone
Nesta imagem vemos a cidade de Los Angeles praticamente sem trânsito. As autoridades estão a implorar ...

Nesta imagem vemos a cidade de Los Angeles praticamente sem trânsito. As autoridades estão a implorar aos habitantes da cidade para respeitarem o distanciamento social e para ficarem em casa sempre que possível, para retardar a propagação de coronavírus.

Fotografia de David McNew, Getty Images

Cada vez fica mais evidente que a dimensão da disrupção feita na sociedade pelo novo coronavírus é diferente de tudo o que grande parte das pessoas no planeta alguma vez testemunhou. Um dos grandes indicadores do vasto impacto da pandemia é o efeito que tem no consumo de combustíveis fósseis e nas emissões de dióxido de carbono. Se tomarmos como base os dados preliminares de algumas das maiores economias mundiais, as emissões estão a cair a pique, ainda que temporariamente.

Na China, entre o início de fevereiro e meados de março, com a queda no consumo de carvão e na produção industrial, as emissões de carbono caíram cerca de 18% - de acordo com cálculos publicados pela primeira vez no site de ciência e política climática CarbonBrief. Esta desaceleração fez com que o maior poluidor mundial não emitisse cerca de 250 milhões de toneladas métricas de poluição de carbono – mais de metade das emissões anuais de carbono do Reino Unido.

Enquanto isso, na União Europeia, o declínio na demanda energética e o abrandamento das empresas pode provocar uma queda de quase 400 milhões de toneladas ainda este ano, um número que representa cerca de 9% da meta cumulativa de emissões da UE para 2020 – de acordo com uma previsão preliminar publicada no dia 27 de março. E apesar de os dados dos Estados Unidos ainda serem limitados, os especialistas acreditam que, à medida que a economia norte-americana continua em queda, os impactos do coronavírus também se vão repercutir na atmosfera.

Mas este suspiro planetário não é motivo de celebração e pode ser apenas uma anormalidade de curto prazo: na China, assim que o país começou a reiniciar as suas fábricas, as emissões começaram a regressar aos seus valores habituais. Sem um forte apoio governamental às energias limpas, os especialistas dizem que a pandemia não vai reverter a marcha ascendente das emissões globais de carbono, algo que é imperatório acontecer de imediato para ajudar o mundo a atingir as suas metas climáticas.

“Em termos de impactos físicos diretos, sim, estamos a assistir a uma desaceleração em algumas emissões”, diz Andrea Dutton, cientista climática da Universidade de Wisconsin-Madison. “Mas é claro que o que realmente importa são as emissões cumulativas. Se isto acontecer durante pouco tempo, não está realmente a tocar na ponta do icebergue.”

(Siga toda a nossa cobertura sobre o coronavírus.)
 

Emissões da China caíram, mas estão a recuperar
Foi na China, o epicentro inicial do surto de COVID-19 e o primeiro país a tomar medidas drásticas para a sua contenção, que o impacto do vírus nas emissões de carbono ficou visível pela primeira vez. De acordo com uma análise anterior, publicada no site CarbonBrief, as emissões caíram cerca de 25% nas primeiras quatro semanas a seguir ao Ano Novo Chinês, no final de janeiro, uma vez que o consumo de carvão e as atividades industriais como a refinação de petróleo e o fabrico de cimento abrandaram a seguir ao feriado anual do país.

“A razão para isso foi muito clara”, diz Li Shuo, consultor de política da Greenpeace no Leste Asiático. “Foi principalmente por causa da disrupção socioeconómica provocada pelo coronavírus.”

Com o país em confinamento obrigatório, os trabalhadores não podiam ir para as fábricas e a demanda por energia e por materiais como o aço e o cimento permaneceu baixa.

Batelões reunidos no rio Yangtze no momento em que a China se preparava para reiniciar a economia que parou devido à pandemia de coronavírus.

Fotografia de Qilai Shen, Bloomberg/Getty Images

Mas, no mês passado, assim que o número de casos de coronavírus começou a diminuir, a China enveredou todos os esforços para reerguer a sua economia. Em finais de março, o uso energético, os níveis de poluição do ar e as emissões de carbono pareciam estar a regressar aos seus níveis habituais, de acordo com Lauri Myllyvirta, do Centro de Pesquisa de Energia e Ar Limpo, organização sem fins lucrativos sediada na Finlândia, que liderou a análise da CarbonBrief. Isto reflete-se nos números mais recentes de Myllyvirta, que revelam um declínio nas emissões de apenas 18%, num período de sete semanas, a partir do início de fevereiro.

Contudo, as coisas não regressaram propriamente ao normal. Shuo diz que, curiosamente, o setor de serviços de Pequim está a cambalear, e muitas das pequenas empresas ainda estão encerradas. E alguns dos setores agora em funcionamento enfrentam um novo desafio: não existe procura pelos seus produtos no exterior.

Shuo diz que é “inevitável” que um futuro pacote de estímulo governamental inclua o financiamento de alguns projetos de infraestrutura em grande escala, salientando que o governo chinês prefere esta estratégia para combater o declínio económico no setor de serviços. Isto pode provocar um aumento na poluição de carbono, mas não se sabe se vai reverter por completo as quedas nas emissões relacionadas com as perturbações económicas generalizadas.

“Há um mês, a maioria das pessoas pensava que isto era uma queda temporária na curva de emissões”, diz Shuo. “Se a janela temporal se focar neste ano, é difícil saber. Globalmente, e sobretudo na China, o que está a acontecer com a economia é muito mais do que uma queda temporária.”

Declínios na Europa e nos EUA
À medida que a economia na China continua a sua ascensão atribulada, as economias dos EUA e da UE, os segundo e terceiro maiores emissores de carbono do mundo, estão a cair a pique. Os dados iniciais sugerem enormes quedas no consumo energético e nas emissões relacionadas com o trânsito automóvel, já que os governos ordenaram às pessoas para ficarem em casa e as indústrias não essenciais estão em hibernação.

De acordo com um memorando de 30 de março da empresa de consultoria Wood Mackenzie, em Itália, país que usa principalmente gás natural para gerar eletricidade, as demandas energéticas caíram constantemente depois de o país ter entrado em bloqueio no início de março. Até ao final do mês passado, a demanda caiu 27%, comparativamente com o período homólogo de 2019. Em França (que é maioritariamente nuclear), país que ordenou um bloqueio nacional cerca de uma semana depois de Itália, as demandas energéticas também estão em queda, enquanto que no Reino Unido (gás natural), a demanda está a começar a cair depois do pedido de confinamento.

De acordo com uma previsão de Marcus Ferdinand, analista da empresa de consultoria Independent Commodity Intelligence Services, “partindo do princípio que a recente queda no consumo de eletricidade em Itália é um sinal do que está por vir, as demandas energéticas em toda a UE podem cair 6.2% até ao final do ano – em comparação com um mundo em funcionamento normal sem pandemia”.

Combinando esta queda no consumo elétrico europeu com as quedas acentuadas projetadas para a atividade industrial e tráfego aéreo, Ferdinand prevê que este ano as emissões de toda a UE podem cair em cerca de 389 milhões de toneladas. São valores superiores às emissões anuais de França e quase 9% das emissões cumulativas da UE para 2020.

Ferdinand salienta que esta projeção é baseada em “algumas suposições que precisam de ser reavaliadas à medida que avançamos nesta crise”. Mas mesmo que algumas das suas previsões económicas, como um declínio de 50% na atividade industrial entre abril e junho, sejam pessimistas, a análise não leva em consideração outras fontes importantes de emissões de carbono, como os transportes terrestres, que também parecem ter caído nos lugares mais atingidos, como aconteceu em Itália. (A análise de Ferdinand observou apenas setores da economia cujas emissões são regidas pelo regime de comércio e emissões da UE.)

  

As emissões relacionadas com o trânsito automóvel também parecem estar a cair nos EUA. De acordo com Trevor Reed, analista da empresa de investigação de transportes INRIX, nos EUA, o tráfego de veículos de passageiros caiu cerca de 38% na última semana de março. Isto traduz-se numa redução semelhante, se não proporcionalmente maior, nas emissões de carbono, uma vez que os veículos tendem a operar com mais eficiência quando há menos congestionamento nas estradas.

O setor dos transportes aéreos, que é bastante intensivo em termos de emissões de carbono, também está com muitas limitações e Reed diz que, apesar de o tráfego de veículos pesados de longo curso ainda se manter, pode começar a baixar à medida que os bloqueios persistem, a recessão se agrava e a demanda por bens não essenciais começa a baixar.

Como o setor dos transportes é a maior fonte de emissões de gases de efeito estufa nos EUA, e os veículos de passageiros representam cerca de 60% dessas emissões, o efeito a curto prazo na pegada de carbono do país pode ser significativo.

Nos EUA, a demanda por eletricidade é um tema difícil de analisar. Uma pesquisa apresentada pelo Scotiabank no dia 31 de março constatava que, apesar de a demanda energética estar a “entrar em colapso” nos setores industriais e comerciais do país, este fator pode ser atenuado pelo aumento do consumo residencial – com milhões de americanos fechados em casa com as luzes, televisões e consolas de videojogos sedentas de energia ligadas mais horas por dia.

Porém, Adam Jordan, analista do setor energético da Genscape, filial da Wood Mackenzie, alerta que esta é uma “visão de curto prazo” e diz que o confinamento parece já estar a “reduzir o congestionamento na rede elétrica” em muitas regiões do país, sobretudo no litoral.

“A longo prazo, se isto se tornar numa recessão prolongada, acredito que a demanda geral vai cair mais do que a compensada pelo consumo residencial”, diz Jordan.

Incerteza a longo prazo
Analisados em conjunto, os dados sugerem que esta disrupção global sem precedentes, provocada pela pandemia de coronavírus, pode provocar uma queda acentuada nas emissões de carbono em algumas das maiores economias mundiais. Apesar de ser difícil determinar quanto tempo é que as economias podem demorar a recuperar – algo que depende sobretudo da eficácia das respostas dadas pelas nações à COVID-19 – a uma escala global, a pandemia pode já ter deixado a sua marca na pegada de carbono de 2020.

“A minha expectativa é a de que isto se vai arrastar durante alguns anos em termos de crescimento económico lento”, diz Glen Peters, diretor de investigação do Centro Internacional de Pesquisas Climáticas e Ambientais de Oslo, na Noruega.


Como o crescimento económico permanece intimamente ligado às emissões de carbono a uma escala global, Peters diz que isto pode potencialmente levar a um declínio mundial de 1% ou mais, comparável ao que aconteceu durante a crise financeira de 2009. No entanto, se a desaceleração económica acabar por ser pior do que a prevista atualmente, as emissões podem cair ainda mais.

Quando esta crise de saúde e a depressão económica subsequente terminarem, o mundo vai ter de optar. As emissões podem voltar a subir caso as nações continuem a depender maioritariamente de fontes energéticas antiquadas e poluentes – como o petróleo, que está atingir preços historicamente baixos – para reconstruírem as suas economias. A decisão do governo de Trump de reverter os padrões de economia de combustível, juntamente com o recente resgate de 50 mil milhões de dólares para estimular o setor dos transportes aéreos, sugerem que, por enquanto, o governo dos EUA não tem interesse em reduzir a utilização de combustíveis fósseis num futuro pós-coronavírus.

Mas, com uma liderança diferente, as coisas podem mudar. Nas últimas semanas, muitos especialistas salientaram que, com um forte apoio governamental às energias limpas – por exemplo, através de créditos de imposto sobre as energias renováveis e veículos elétricos, investimentos em infraestruturas de baixo carbono e eficiência na construção – é possível mudar o rumo das economias para uma rota mais ecológica depois da pandemia. E as alterações sociais que estão a acontecer devido aos confinamentos relacionados com o coronavírus, como o teletrabalho generalizado e a realização de conferências virtuais, podem dar um impulso extra ao mundo.

“Temos uma oportunidade para colocar no centro dos pacotes de estímulo medidas que acelerem a transição para energias limpas e potenciar a resiliência energética, para que os países e as indústrias consigam sair desta crise numa posição melhor do que estavam anteriormente”, diz Faith Birol , diretor executivo da Agência Internacional de Energia.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

Continuar a Ler