Estamos a Conseguir Lidar com o Distanciamento Social? Os Psicólogos Estão Atentos.

O confinamento súbito de milhões de pessoas em casa pode ter sérios efeitos na saúde mental, e os cientistas já estão a estudar este evento inédito.

Monday, April 20, 2020,
Por Craig Welch
A fotógrafa Camilla Ferrari tira um autorretrato enquanto está de quarentena em Milão. Os psicólogos estão ...

A fotógrafa Camilla Ferrari tira um autorretrato enquanto está de quarentena em Milão. Os psicólogos estão agora a começar a estudar o impacto que este isolamento pode ter na saúde mental das pessoas.

Fotografia de Camilla Ferrari

Com grande parte do mundo a lidar com confinamento em casa em resposta à pandemia global, centenas de milhões de pessoas ficaram repentinamente – de forma involuntária – envolvidas num evento que se julgava inimaginável. Praticamente da noite para o dia, estamos a tentar descobrir como manter o contacto enquanto estamos isolados.

Os cientistas sociais estão vigilantes e preocupados com os danos que isto pode provocar – depressão, abuso de substâncias e violência doméstica são alguns dos problemas. De acordo com uma investigação da Fundação Kaiser Family, cerca de 45% dos americanos dizem que o surto de coronavírus afetou a sua saúde mental. As compras de tabaco e álcool aumentaram. E está a acontecer o mesmo com a venda de armas.

As investigações que estão a decorrer em Seattle, no estado de Washington, cidade onde vivo e onde a COVID-19 surgiu pela primeira vez nos Estados Unidos, sugerem que muitos de nós estamos a conseguir lidar com a situação – pelo menos por enquanto. O Condado de King, no estado de Washington, uma região perto da minha casa, foi um dos primeiros lugares nos EUA a praticar o distanciamento social, e os cientistas já estão a acompanhar 500 indivíduos em isolamento. Estas pessoas acedem aos seus telemóveis e computadores todas as noites para responder a questões de uma sondagem feita online: Com quantas pessoas interagiu hoje? Sente-se acarinhado e em contacto? Sente-se extrovertido? Tem sido difícil livrar-se dos pensamentos sobre a COVID-19?

Este estudo, um dos primeiros projetos de investigação social a decorrer há cerca de um mês no rescaldo do surto de coronavírus nos EUA, “revela uma história de resiliência e de adaptação”, diz Adam Kuczynski, estudante de pós-graduação da Universidade de Washington que chefia o trabalho. “As pessoas estavam inicialmente a ter muitos pensamentos incómodos – não conseguiam tirar isto da cabeça... mas isso está a abrandar.”

‘Não me reconheço.’
Ainda não sabemos como é que este período de confinamento nos pode afetar. Os humanos precisam uns dos outros para sobreviver. O isolamento excessivo pode enfraquecer o sistema imunitário, aumentar a pressão sanguínea e até ajudar a propagar células cancerígenas. Com o passar do tempo, a ausência de contacto humano pode ser tão perigosa quanto fumar.

E claro, os laços sociais não servem apenas para nos proteger. Agustín Fuentes, antropólogo da Universidade de Notre Dame, diz que evoluímos para resolver problemas juntos. Os nossos antepassados criaram ferramentas de pedra trabalhando em equipa e desenvolveram colas e corantes para partilhar as suas ideias através da arte. O contacto é fundamental para o que nos torna humanos. “Isto ajuda a manter-nos vivos”, diz Fuentes.

Pessoas a caminhar pelas ruas desertas perto do Public Market Center, em Seattle, no estado de Washington.

Fotografia de Chona Kasinger, Bloomberg/Getty

Estes laços estão agora a ser amordaçados de uma forma que o mundo nunca testemunhou. Mas, por muito angustiante e comovente que este surto possa ser, está longe das doenças mais devastadoras que assolaram o planeta. Não é como a pandemia de gripe espanhola de 1918, que matou entre 20 a 50 milhões de pessoas, muitas delas crianças, numa altura em que o mundo ainda estava a sair de uma guerra horrível. E não é como aconteceu em Londres no século XVII, quando a peste bubónica surgia regularmente entre décadas e as autoridades fechavam a cadeado as casas das vítimas, com pessoas saudáveis presas no interior.

Estamos isolados e de quarentena, mas hoje temos aplicações de videochamadas, consolas de videojogos e telemóveis. Conseguimos ver o mundo em passeios de curta duração ou nas redes sociais. Os vídeos de gatos são mais populares do que nunca, assim como as músicas que têm agora as suas letras reescritas sobre o coronavírus. Os amigos não se podem reunir para jantar, mas partilham listas de livros para ler, músicas para ouvir, listas de desejos e de tarefas. As idas ao supermercado, que dantes eram triviais, são agora saídas sociais, mas são feitas atrás de máscaras e onde todos se afastam uns dos outros.

Do outro lado da rua da minha casa, um urso de peluche de dois metros e meio está sentado numa varanda – faz parte de um movimento inspirado nas redes sociais para ajudar a alegrar as crianças. Quando as famílias saem para apanhar ar fresco, as crianças divertem-se com os pais, enquanto vão contando os animais de peluche que encontram nos alpendres e nas janelas – é uma espécie de safari.

No entanto, grande parte do mundo está sinistramente silencioso. Trafalgar Square, St. Peter's Square e Times Square – está tudo deserto, ou quase. A Space Needle de Seattle encerrou há semanas.

Um hospital de campanha instalado num campo de futebol perto de Seattle. A filha do autor deste artigo ia fazer os treinos de captação neste relvado.

Fotografia de Elaine Thompson, AP

Sinto este silêncio na minha própria casa e isso deixa-me inquieto. A minha filha de 11 anos é obcecada por futebol – é cocapitã da equipa da cidade e tem um póster de Megan Rapinoe, a estrela de futebol dos EUA, por acima da cama – e treinava e tinha jogos quatro dias por semana. Agora, os únicos golos que marca são no quintal contra o pai. O campo onde ela ia fazer os treinos de captação para a próxima época transformou-se num hospital com duzentas camas. Passaram alguns dias até que, entre lágrimas, ela finalmente perguntou: “Quanto tempo mais?” Eu não sabia como responder.

O impacto de todas estas alterações pode abater-se sobre nós a qualquer momento. A minha vizinha Shannon Campe, uma mulher confiante e difícil de abalar, ficou surpreendida com a sua própria fragilidade repentina. Uma das suas amigas íntimas perdeu o emprego no restaurante, tal como o marido dessa amiga. Duas famílias da nossa rua ficaram de quarentena depois terem estado em contacto com amigos ou familiares infetados. A filha de Shannon Campe anda no sétimo ano e tem implorado à mãe para estar com outras crianças, mas Shannon sabe que esta provação está apenas no início. No dia 1 de abril, sentindo o peso do momento, Shannon começou a chorar no meio da rua. “Não me reconheço”, diz ela.

Mas outras pessoas mantêm a sua serenidade. “Não estamos muito perturbados”, diz James Smith, um reformado de 74 anos que vive a cerca de 50 km a sul da minha casa, numa quinta em Tacoma. A sua mãe de 93 anos está sozinha em Los Angeles. O filho é paramédico. Mas Smith e a sua esposa não são motivo de preocupação. Eles estão informados, limpam a caixa de correio com álcool e cuidam do jardim. James diz que está habituado a que a vida seja difícil. “Isto é apenas mais uma coisa que precisamos de ultrapassar.” Mas acrescenta, “somos pessoas felizes”.

O mesmo acontece com o meu amigo Mike Lewis, um apresentador de rádio de notícias AM que é coproprietário de uma taberna em Seattle. Mike foi forçado a encerrar o estabelecimento há três semanas e está otimista, mas consciente o suficiente sobre o seu próprio stress para compreender o que os seus ouvintes estão a passar. Mike atenua algumas das suas próprias ansiedades enquanto tenta aliviar as de quem o ouve. E aproveita a oportunidade para partilhar coisas engraçadas, como a situação que aconteceu no mês passado no Aquário Shedd de Chicago, onde os pinguins – Edward, Annie e Wellington – puderam vaguear livremente pelos corredores vazios e interagir com a vida marinha do outro lado do vidro.

“É como se já não existissem diretrizes”, diz Mike Lewis.

A angústia que se sente devido ao distanciamento social é obviamente normal. “É o nosso corpo a sinalizar a necessidade de restabelecer o contacto”, diz Julianna Holt-Lunstad, especialista em psicologia de relações humanas na Universidade Brigham Young. “Tal como a fome nos indica que devemos comer, e a sede indica que devemos beber água, a solidão é considerada um impulso biológico que nos motiva a restabelecer os laços.”

Mas o que acontece quando não o conseguimos fazer? Os profissionais de saúde que estiveram em isolamento depois de terem estados expostos à SARS em 2003 tiveram mais insónias, estados de irritação, exaustão e alheamento do que os que não estiveram isolados. A maioria ficou de quarentena durante apenas algumas semanas. Mas em alguns casos, os seus sintomas persistiram durante anos.

Monitorizar o stress diariamente
Kuczynski, o referido estudante de pós-graduação da Universidade de Washington, iniciou a sua investigação no dia 14 de março – um dia depois de o governador de Washington, Jay Inslee, encerrar todas as escolas, e um dia antes de anunciar que ia encerrar todos os bares e restaurantes. Em colaboração com Jonathan Kanter, psicólogo do Centro de Ciências de Interação Social da Universidade de Washington, Kuczynski decidiu captar as experiências do quotidiano das pessoas. Todos os dias, às 19h30, os participantes do estudo começam a responder a 27 questões ou mais. A sondagem demora cerca de três minutos. Os investigadores planeiam continuar a fazer este estudo durante pelo menos 75 dias.

Kanter, especialista em socialização e bem-estar, estava preocupado. Para as pessoas que vivem sozinhas ou que têm doenças mentais, como transtornos obsessivo-compulsivos, o distanciamento social pode trazer o pior ao de cima. Kanter tem ouvido muitos relatos dos seus colegas e diz que “muitos de nós vamos aterrar de pé, mas existem grupos de pessoas que são mais vulneráveis e que não têm redes de segurança”.

Depois de ouvir dizer que as pessoas estavam a colocar arco-íris nas janelas para as crianças encontrarem nos seus passeios, a fotógrafa Nikki Boliaux pintou alguns na janela do seu apartamento, em Brooklyn, Nova Iorque.

Fotografia de Nikki Boliaux

Os resultados iniciais surpreenderam ambos os investigadores. De uma maneira geral, as pessoas parecem estar a lidar bem com a situação. Os participantes do estudo expressaram sentir solidariedade e disseram que se sentiam acarinhados, ainda que obcecados com o vírus. Kanter suspeita que a natureza quase universal desta situação pode ajudar. “Mesmo que quase todas as notícias sejam más, existe algo sobre o facto de estarmos todos a passar por isto ao mesmo tempo que, na minha opinião, impede as pessoas de se irem abaixo.”

Com o passar do tempo, os níveis de ansiedade começam a estabilizar, assim como os conflitos interpessoais. As pessoas começam a pensar cada vez menos no vírus e a fazer mais exercício. “Pode ser que nos estejamos a habituar a isto”, diz Kuczynski. Mas o stress voltou a aumentar – no dia em que o governador de Washington prolongou a ordem de confinamento até ao início de maio.

Apesar de esta tendência ser maioritariamente positiva, existe uma minoria significativa que tem sofrido com níveis debilitantes de ansiedade e picos de tristeza. “Nós perguntamos: Numa escala de 0 a 10, quais são os seus níveis de solidão?”, diz Kanter. No início de abril, a média pairava no 3. Mas todos os dias há pessoas a responder 0 e outras que respondem 10.

Kanter ficou incomodado com esta situação. A sua motivação inicial nesta investigação tinha objetivos meritórios. Kanter esperava identificar quem estava a lidar bem com a situação, quem estava a enfrentar dificuldades e aprender porquê.

Mas a sua perspetiva agora mudou. Na semana passada, Kanter iniciou um novo projeto desenvolvido em parte para descobrir se existe uma forma de aliviar este sofrimento. Kanter planeia fazer uma investigação semelhante a nível nacional durante quatro semanas, mas durante a segunda e terceira semana, metade dos participantes receberá uma mensagem de texto diariamente a oferecer conselhos sobre bem-estar. (Este astronauta tem alguns conselhos sobre sobreviver em espaços apertados.)

Alguns dos conselhos são coisas simples – exercícios de respiração, sugestões para expressar gratidão ou para ajudar os amigos. Mas outros são mais aprofundados e oferecem links para uma página com informações detalhadas. Em alguns casos, Kanter chega a incentivar os participantes a falarem com alguém para responderem em conjunto a 36 questões destinadas a aproximar as pessoas, começando com: Se pudesse escolher qualquer pessoa no mundo, com quem gostaria de jantar?

“Para muitas das pessoas, as suas interações e relações sociais normais foram interrompidas, e a solidão e o distanciamento social são preocupantes”, diz Kanter. “Esperamos restabelecer o contacto entre as pessoas com os passos básicos de dança das relações.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

 

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