Noruegueses Estão a Construir ‘Hotéis’ Para Aves do Ártico Ameaçadas

As alterações no ecossistema estão a afastar as gaivotas-tridáctilas do seu habitat de nidificação para as cidades costeiras da Noruega. Será que os “hotéis para gaivotas-tridáctilas” podem ajudar estas aves e os humanos a coexistir?

Thursday, April 16, 2020,
Por Cheryl Katz
Gaivotas-tridáctilas instaladas numa casa de uma cidade norueguesa. Uma combinação de fatores está a fazer com ...

Gaivotas-tridáctilas instaladas numa casa de uma cidade norueguesa. Uma combinação de fatores está a fazer com que as gaivotas abandonem os seus penhascos de nidificação e se dirijam para as cidades, para cuidarem das suas crias.

Fotografia de S.E. Arndt, Picture Press/Redux

TROMSØ, NORUEGA – As gruas de construção elevam-se como se fossem cegonhas sobre o horizonte desta cidade em rápido crescimento que fica a mais de 320 km acima do Círculo Polar Ártico. Estimulado por uma recente inundação de aventureiros que perseguem as luzes do norte e de turistas que desejam visitar os glaciares – antes que desapareçam – este centro de turismo, na costa norte da Noruega, está a construir hotéis para albergar os 2.3 milhões de visitantes que espera receber anualmente.

Apesar de esta explosão no turismo estar suspensa de momento, alguns visitantes ainda estão a chegar ao país e a procurar lugares adequados para ficar. Estes visitantes são gaivotas-tridáctilas – o membro da família das gaivotas que mais se aventura no mar e que está a enfrentar um futuro incerto.

Geralmente, as gaivotas-tridáctilas nidificam nos penhascos junto ao oceano e raramente se aventuram em terra. Mas, nos últimos anos, entre março e setembro, tudo isso se alterou. Agora, devido ao aquecimento do oceano, ao aumento das tempestades e a outras alterações que estão a afetar a reprodução no seu habitat natural, as aves estão a instalar-se em locais como centros comerciais e edifícios de escritórios, em Tromsø e noutras cidades ao longo da costa norte da Noruega, onde estão a perturbar os habitantes locais com o barulho e sujidade que fazem.

© NGP

“Está a acontecer qualquer coisa nos penhascos das aves que as impede de cuidar das crias”, diz Tone Kristin Reiertsen, ecologista de aves marinhas do Instituto Norueguês de Pesquisa da Natureza, em Tromsø. “Os penhascos das gaivotas-tridáctilas estão a ficar vazios.”

Esta invasão urbana invulgar pode ser a última oportunidade para as gaivotas-tridáctilas da região, cujos números ao longo da costa norueguesa caíram em cerca de 75% desde os anos 1980, diz Reiertsen.

Seguindo a sugestão da construção de hotéis em torno de Tromsø, Reiertsen e um grupo de colegas elaboraram um plano para ajudar a salvar estas aves marinhas do Ártico. Este plano passa pela construção de ‘hotéis’ para as gaivotas-tridáctilas, para que as aves possam criar as suas famílias na cidade sem incomodar as pessoas.

Dificuldades na criação de crias
As aves marinhas de todo o planeta estão em crise, as suas populações globais caíram em quase 70% nos últimos 70 anos devido às alterações climáticas, pesca em excesso, perda de habitat e a outros impactos humanos no seu ambiente. Esta situação é particularmente grave no Ártico. E as gaivotas-tridáctilas, que outrora eram uma visão comum nas centenas de milhares de falésias no norte do Reino Unido, Ilhas Faroé, Gronelândia, Islândia e Noruega – lar de mais de metade da população reprodutora da espécie – estão entre as espécies mais atingidas.

“Existem muitas preocupações sobre as gaivotas-tridáctilas na Europa”, diz Mark Mallory, cientista ambiental e especialista em aves marinhas do Ártico na Universidade de Acadia, na Nova Escócia, no Canadá. “As aves diminuíram em números massivos.”

Esta espécie está agora classificada como vulnerável na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza. Ao ritmo atual de declínio, os cientistas projetam que as gaivotas-tridáctilas podem ficar extintas na Noruega dentro de quatro décadas.

Reiertsen e outros cientistas estão a tentar determinar as razões pelas quais esta migração urbana das gaivotas-tridáctilas está a acontecer, mas dizem que o aquecimento do oceano tem um papel de destaque. Na costa norte da Noruega, a temperatura da superfície do mar aqueceu perto de 0.16 graus Celsius desde a década de 1980, o que pode estar a fazer com que as fontes de alimento tradicionais de pequenos crustáceos, peixes Mallotus villosus e outros se estejam a afastar do alcance das aves.

Os habitantes da cidade colocaram espigões nos telhados das casas para dissuadir a construção de ninhos de gaivotas-tridáctilas, mas surtiram pouco efeito. Porém, os espigões podem ser perigosos para as crias desta espécie vulnerável.

Fotografia de Sigurd Benjaminsen

Numa reviravolta quase irónica, as gaivotas-tridáctilas podem estar a superar os seus receios naturais das pessoas e a aninhar-se perto dos humanos, para se protegerem de predadores como as águias marinhas que podem estar a perseguir cada vez mais as suas crias – à medida que a comida escasseia nas proximidades.

Para além disso, o clima durante a época de reprodução está a piorar. Os dados do vento na costa da Noruega mostram uma tendência de aumento na sua velocidade, em julho e agosto, exatamente quando as crias estão no ninho, diz Reiertsen. Este clima fora de época está a “dificultar a criação das crias”, diz a ecologista, “porque as aves não conseguem entrar no penhasco para as alimentar”.

Atualmente, o único local na Noruega onde as aves parecem ter capacidade para se reproduzir é nos penhascos feitos pelos humanos, sobretudo nos edifícios públicos de vários andares em vilas e cidades que ficam a quilómetros de distância do seu habitat natural. A incursão de gaivotas-tridáctilas em Tromsø começou há seis anos, com cerca de 10 casais. No ano passado, mais de 100 casais de gaivotas criaram as suas famílias no pitoresco centro da cidade de Tromsø.

Este movimento estende-se desde a costa de Ålesund, nos fiordes ocidentais, até Vardø, perto da fronteira com a Rússia, e as aves voam para regiões como Hammerfest, onde cerca de 400 pares de gaivotas interromperam recentemente as aulas na escola, e até Berlevåg, onde invadiram um bar local.

Ao contrário das gaivotas, que são maiores e mais conhecidas, as gaivotas-tridáctilas não visitam os contentores do lixo ou comem restos de comida na praia, e quase nunca são avistadas longe do mar aberto. Os cientistas queriam colocar rastreadores de GPS nas aves de Tromsø este verão, para ver onde procuram comida e saber se encontraram novas fontes de alimentação. Mas, de momento, as restrições devido ao coronavírus podem impedir estas ações científicas.

Só existe outra área urbana – em Newcastle-Gateshead, no nordeste de Inglaterra – onde as aves estão aninhadas em grandes números durante o verão, na famosa Tyne Bridge e nos edifícios ao longo do rio.

Tal como acontece na Noruega, por todo o Reino Unido as colónias naturais de gaivotas-tridáctilas estão em declínio, mas as aves em Newcastle parecem estar a prosperar, diz Helen Wilson, geógrafa cultural e social da Universidade de Durham, que está trabalhar com Reiertsen e respetivos colegas para encontrarem uma forma de acomodar estes imigrantes aviários. Dada a rapidez com que os números têm aumentado nos últimos anos em Tromsø, diz Helen, espera-se que mais gaivotas-tridáctilas possam mudar-se para os ambientes urbanos.

No entanto, para os habitantes humanos da cidade, as aves podem ser vizinhos desagradáveis. Conhecidas pelos seus chamamentos exuberantes, as gaivotas-tridáctilas são particularmente vocais durante a época de reprodução e fazem barulho durante as 24 horas do dia – sob o sol da meia-noite de Tromsø. Para impedir que as aves se estabeleçam na região, as pessoas colocaram redes ou espigões em alguns dos edifícios, algo que pode ferir ou matar as aves, sobretudo as crias. E noutros lugares, destruíram os ninhos, incluindo os ovos.

Hotéis para gaivotas-tridáctilas
Reiertsen e os seus colegas estão a gerir o primeiro hotel para gaivotas-tridáctilas de Tromsø num edifício abandonado, junto a um pequeno cais, num dos portos da cidade.

Visto do exterior não parece grande coisa – uma estrutura de betão, do tamanho de uma garagem, coberta de grafíti. Mas existem zonas para nidificar, materiais para construir os ninhos e colunas de som que emitem chamamentos de gaivotas-tridáctilas para as atrair.

Tal como acontece com os humanos, pode demorar algum tempo até que as aves se habituem.

No ano passado, quando o hotel foi inaugurado – a tempo da época de reprodução das gaivotas – as aves foram para a cidade e pousaram em locais públicos, como no edifício dos dentistas locais e no café dos estudantes universitários.

“No verão passado, havia centenas de aves a reproduzirem-se no edifício onde temos o nosso navio”, diz Mats Forsberg, habitante de Tromsø e guia de expedições em embarcações turísticas. Forsberg diz que não se importa com as aves, mas percebe porque é que muitas pessoas da cidade estão incomodadas. “Os pássaros estavam a deixar fezes por todo o lado.”

Mas como as aves regressam sempre para Tromsø, os cientistas esperam que este ano o hotel para as gaivotas-tridáctilas cumpra a sua função. O confinamento devido ao coronavírus impede que os cientistas consigam verificar o que está a acontecer. Mas as acomodações bem-sucedidas para estas gaivotas em Newcastle deixam-nos otimistas. E também vai ser inaugurado um novo hotel para as aves em Berlevåg.

“Esperamos encontrar soluções para que as gaivotas-tridáctilas e os humanos consigam coexistir pacificamente, para podermos manter esta espécie na natureza”, diz Reiertsen. “Caso contrário, o prognóstico é muito mau”.

Em seguida, Reiertsen espera incorporar hotéis para gaivotas-tridáctilas nos planos de construção desta cidade em rápida expansão. A resposta da comunidade é geralmente positiva, diz Reiertsen, porque os habitantes percebem que, se não encontrarem alternativas, as aves vão construir ninhos nos novos edifícios que se erguem pela cidade.

“O problema não vai realmente desaparecer”, diz Reiertsen. “É óbvio que não podemos salvar tudo.” Mas nos seus esforços para salvar uma espécie, Reiertsen diz, “vai valer mesmo a pena.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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