O Inverno no Hemisfério Sul Pode Piorar o Alcance da COVID-19

O coronavírus é sazonal? Ainda não se sabe – mas é motivo de enorme preocupação no Brasil, país do Hemisfério Sul que já tem a maior taxa de mortalidade.

Thursday, April 30, 2020,
Por Jill Langlois
Enterro de uma vítima de coronavírus no cemitério de Vila Formosa, em São Paulo, no Brasil, ...

Enterro de uma vítima de coronavírus no cemitério de Vila Formosa, em São Paulo, no Brasil, no dia 7 de abril de 2020.

Fotografia de Victor Moriyama, The New York Times via Redux


SÃO PAULO, BRASIL – Este ano, as campanhas de vacinação contra a gripe assumiram outra dimensão neste estado brasileiro. À medida que o país começa a entrar nos meses mais frios, as pessoas preparam-se para a época gripal do outono e inverno. Os profissionais de saúde, que vacinam o maior número possível de pessoas contra a gripe, esperam conseguir identificar mais rapidamente o coronavírus (COVID-19) em pacientes com sintomas comuns a ambos os vírus.

Esta distinção pode ser crucial. Entre as nações do Hemisfério Sul, o Brasil tem o maior número de casos e de mortes confirmados por coronavírus. E desde o dia 16 de abril, o estado de São Paulo tem o maior número de casos no país. Agora, com as temperaturas a descer, surgem dúvidas sobre a possibilidade de o coronavírus ser sazonal – e o inverno pode piorar a situação.

Quando se trata de germes, é difícil determinar a sazonalidade, em parte porque não existem sinais genéticos para esta característica. Para além disso, essa estirpe de coronavírus, conhecida oficialmente por SARS-CoV-2, é tão recente que ainda não há dados suficientes para se saber algo conclusivo.

“Provavelmente é um vírus sazonal, como acontece com outros vírus respiratórios, mas neste primeiro momento, ainda é difícil saber como se vai comportar”, diz Ana Paula Sayuri Sato, epidemiologista da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.

De momento, os cientistas conseguem obter algumas pistas através das doenças sazonais já conhecidas – incluindo outros membros da família dos coronavírus – que provocam constipações comuns todos os invernos.

Tornar-se sazonal
Embora não existam respostas definitivas sobre as razões pelas quais alguns vírus têm um padrão de circulação sazonal e outros não, há vários fatores que ajudam muitas ameaças virais a propagarem-se especificamente nos meses de inverno.

Muitos dos vírus respiratórios, como as constipações e gripe comuns, têm mais estabilidade com temperaturas baixas. Isto permite aos vírus ficar no ar durante períodos mais longos e permanecer mais tempo nas superfícies. (As temperaturas quentes da primavera podem abrandar o coronavírus?)

“No inverno, as pessoas passam mais tempo em casa do que nos meses mais quentes, originando uma descida nos níveis de vitamina D que pode aumentar a suscetibilidade a doenças.”

As pessoas também ficam mais suscetíveis a estes vírus quando as temperaturas descem. O clima frio e seco do inverno faz com que o revestimento do trato respiratório se altere – estreita as vias aéreas superiores e evapora a camada de humidade que reveste as vias aéreas inferiores dos pulmões. Isto facilita a ligação de muitos dos vírus respiratórios a este revestimento e a sua entrada no nosso corpo.

No inverno, as pessoas passam mais tempo em casa do que nos meses mais quentes, originando uma descida nos níveis de vitamina D que pode aumentar a suscetibilidade a doenças. A vitamina D aumenta a função dos macrófagos e células T, membros do sistema imunitário que combatem os patógenos que tentam entrar no corpo.

A vitamina D também ajuda a reduzir inflamações que, “quando são excessivas, são responsáveis por muitas das doenças virais e também contribuem para a morte por COVID”, diz Kathryn Hanley, bióloga da Universidade do Estado do Novo México que estuda vírus dependentes do clima, como o Zika e a dengue. Para além disso, a falta de vitamina D pode afetar o funcionamento pulmonar e aumentar o risco de doenças respiratórias, incluindo asma, tuberculose e doença pulmonar obstrutiva crónica.

A importância da sazonalidade
Mesmo que os casos de COVID-19 aumentem significativamente este ano, à medida que o Hemisfério Sul se aproxima do inverno, isso não prova por si só que a sazonalidade seja responsável.

Alguns dos vírus sazonais conhecidos já andam por cá há muito tempo, pelo que existem pessoas em número suficiente que já desenvolveram imunidade. Isto permite aos investigadores estudar com mais precisão a forma como o comportamento destas doenças se altera com o passar do tempo. Contudo, neste momento, somos todos suscetíveis a este coronavírus. A doença está a lavrar através das chamadas populações ingénuas, um processo conhecido por estágio de pandemia. Durante esta fase, é quase impossível rastrear os padrões de sazonalidade na transmissão.

“Vamos precisar de três ou quatro anos para perceber como é que este vírus se vai comportar”, diz Marilda Siqueira, virologista e chefe do Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro.

O estabelecimento de um padrão de sazonalidade é importante porque pode desempenhar um papel na imunidade que as pessoas desenvolvem contra o vírus e na forma como uma eventual vacina pode funcionar.

“Temos de nos preparar, porque o pico ainda está para vir. ”

por ANA PAULA SAYURI SATO, UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Por exemplo, os nossos corpos não criam anticorpos a longo prazo para a gripe, ou para os vírus de constipações comuns, da mesma forma que fazem para o sarampo. Se o coronavírus for semelhante à gripe, em termos de resposta do nosso corpo, a imunidade que adquirimos após a infeção pode diminuir ao longo do ano. Isto significa que estar infetado agora não impede alguém de contrair novamente o coronavírus no próximo ano. Nesse caso, o coronavírus exigiria uma vacina anual, isto se for possível criar tal vacina.

O que se sabe é que o novo coronavírus já se está a revelar mais perigoso do que os seus parentes próximos. A SARS original surgiu em 2003 e desapareceu relativamente depressa; não existem relatos de novos casos desde 2004. Mas a SARS não tinha a mesma transmissibilidade que o novo coronavírus aparentemente tem, diz Siqueira.

A Organização Mundial de Saúde diz que é provável que cada pessoa infetada com COVID-19 possa propagar a doença a mais duas pessoas. E um relatório publicado no dia 7 de abril por matemáticos de doenças do Laboratório Nacional de Los Alamos diz que este número pode ser três vezes mais elevado.

Esta rápida disseminação ajuda a explicar a taxa de mortalidade do novo coronavírus em relação aos seus antecessores – e explica como é que a COVID-19 está a caminho de se tornar muito mais mortífera do que os vírus respiratórios sazonais conhecidos, diz Hanley. Para já, a única coisa que os países do Hemisfério Sul podem fazer é prepararem-se para uma situação que, certamente, irá piorar.

“Temos de nos preparar”, diz Sayuri Sato, da Universidade de São Paulo, “porque o pico ainda está para vir.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

Continuar a Ler