O Que Deve Saber Sobre Máscaras e Ventiladores DIY

Eis o que os cientistas e profissionais de saúde dizem sobre o fabrico caseiro de equipamentos de proteção durante esta pandemia de coronavírus.

Tuesday, April 14, 2020,
Por Emily Sohn
Nesta imagem vemos a costureira Elase Wong a fazer máscaras de material estampado numa loja em ...

Nesta imagem vemos a costureira Elase Wong a fazer máscaras de material estampado numa loja em Hong Kong, no dia 20 de fevereiro de 2020. Face à escassez que se vive durante o surto de coronavírus, os habitantes de Hong Kong começaram a fazer as suas próprias máscaras em fábricas profissionais ou em lojas que fabricam materiais de proteção com máquinas de costurar.

Fotografia de ISAAC LAWRENCE, AFP VIA GETTY IMAGES

Em cinco minutos, Brianna Slatnick consegue ensinar as equipas hospitalares a criarem uma máscara com um filtro de ar semelhante ao dos respiradores N95, os respiradores recomendados para mitigar a disseminação de coronavírus. Feita com peças simples que custam menos de 3 dólares e que são comuns nos hospitais, a versão que Slatnick e os seus colegas criaram não parece ter sido feita numa fábrica, mas alegam que funciona.

Este vídeo, que se tornou viral, mostra o processo desenvolvido no Hospital Pediátrico de Boston, onde Slatnick, bolseira de inovação cirúrgica que está a fazer especialização em cirurgia geral, monta uma máscara com um filtro simples, prende-lhe tiras elásticas e coloca-a no rosto. A invenção não foi aprovada pelo Instituto Nacional de Segurança e Saúde Ocupacional dos EUA, a agência federal responsável pela supervisão da segurança no local de trabalho, e o Hospital Pediátrico de Boston não está a usar o dispositivo porque ainda tem equipamentos padrão disponíveis.

À medida que a disseminação global da COVID-19 acelera, e perante a escassez de equipamentos de proteção individual, este tipo de resposta DIY, ou faça você mesmo, está a tornar-se cada vez mais comum e os investigadores médicos, as empresas e os cidadãos-cientistas estão a projetar as suas próprias máscaras, respiradores e ventiladores.

“O CDC (Centro de Controlo de Doenças) está a anunciar medidas adicionais que os americanos podem adotar para se defenderem contra a transmissão do vírus”, disse o presidente Donald Trump numa conferência de imprensa feita na Casa Branca no dia 3 de abril, citando investigações recentes sobre casos assintomáticos. “À luz destes estudos, o CDC está a aconselhar a utilização de proteções faciais não médicas como uma medida voluntária adicional de saúde pública.”

    

Mas será que estes dispositivos caseiros são seguros? Até ao momento as evidências são escassas, e apesar de algumas ideias serem promissoras, existem preocupações de que estas medidas paliativas possam piorar as coisas. Um estudo publicado no dia 2 de abril no The Lancet descobriu que o coronavírus pode sobreviver em tecido durante pelo menos um dia, e em máscaras cirúrgicas até sete dias. E no dia 7 de abril, a Organização Mundial de Saúde disse que atualmente não existem evidências de que o uso de qualquer tipo de máscara consiga impedir que pessoas saudáveis contraiam uma infeção respiratória nas suas comunidades, incluindo a COVID-19.

“A última coisa que queremos é que os profissionais de saúde tenham uma falsa sensação de proteção e que executem inadvertidamente um procedimento arriscado num paciente”, diz Christopher Friese, professor de enfermagem e de saúde pública na Universidade do Michigan, em Ann Arbor.

Eis o que sabemos sobre os equipamentos DIY propostos de forma generalizada e de que forma os especialistas de saúde estão a adotar esta tendência em tempos de extrema necessidade.

Fazer máscaras
A Internet está inundada de tutoriais sobre como fazer máscaras cirúrgicas e de artigos repletos de argumentos sobre os melhores padrões e materiais a usar, mas a opinião médica sobre estas máscaras caseiras é ambígua.

Num estudo feito em 2013, investigadores do Reino Unido testaram uma variedade de materiais do quotidiano para fazerem filtros para máscaras cirúrgicas, incluindo camisolas de algodão, panos de cozinha, fronhas e sacos de aspirador. Apesar de as máscaras improvisadas se terem revelado melhores do que nada, nenhum dos materiais teve o mesmo desempenho de uma máscara cirúrgica comercial, que filtrou até três vezes mais partículas numa câmara de teste, e bloqueou o dobro das gotículas num teste de tosse.

Porém, as versões caseiras impediram a passagem de alguns micróbios, sugerindo que as máscaras improvisadas surtiram algum efeito, diz a coautora do estudo, Anna Davies, facilitadora de investigações na Universidade de Cambridge e antiga microbióloga de saúde pública.

O desinfetante para as mãos caseiro pode ser eficaz, desde que as instalações esterilizem os seus equipamentos e utilizem materiais de alta qualidade. Nesta imagem, captada no dia 1 de abril de 2020, em Patchogue, Nova Iorque, Abby Gruppuso, chefe de operações, e Peter Cornillie, chefe de destilação da Better Man Distilling Company derramam produtos químicos num recipiente para fazer desinfetante para as mãos. Para responder à atual crise de coronavírus, a destilaria alterou a sua produção de bebidas espirituosas para fazer desinfetante para as mãos. O desinfetante será distribuído em locais como o Departamento de Polícia de Nova Iorque, o Serviço Postal dos Estados Unidos, a Rede Nacional, a Ambulância Voluntária de Patchogue e o Corpo de Bombeiros de Patchogue, mas ainda não está acessível ao público em geral.

Fotografia de Al Bello, Getty Images

Outro estudo diferente, feito em 2015, lançou dúvidas adicionais sobre as máscaras caseiras. Num teste aleatório, feito no Vietname, os profissionais de saúde que usavam máscaras de tecido ficaram com mais infeções respiratórias e doenças semelhantes à gripe influenza do que os seus colegas que usavam máscaras cirúrgicas. Os testes laboratoriais mostraram que as máscaras de tecido deixaram passar 97% das partículas, contra 44% nas máscaras cirúrgicas. Mas este estudo não comparou a diferença entre a utilização de máscaras de tecido com a não utilização de máscaras; portanto, as infeções adicionais podem ter surgido devido à reutilização contínua das máscaras de tecido.

Contudo, mesmo que estas máscaras não sejam perfeitas, podem, em teoria, retardar a propagação de uma doença, porque podem ajudar a impedir que o vírus escape do nariz e da boca de uma pessoa infetada, diz Davies. Um pequeno estudo publicado no dia 2 de abril na Nature Medicine mostra que as máscaras cirúrgicas usadas por indivíduos doentes podem bloquear a disseminação do coronavírus, seja através de gotículas respiratórias ou por partículas transportadas pelo ar.

Independentemente disso, num resumo recente sobre as descobertas da sua equipa, Davies escreveu que o distanciamento social, a lavagem das mãos e evitar tocar no rosto são de longe as formas mais eficazes para proteger a sociedade, acrescentando que as máscaras devem ser o último recurso para impedir “um risco inevitável de exposição”. (Quanto tempo é que o coronavírus permanece nas superfícies e no ar?)

Replicar respiradores
Os respiradores N95 (que filtram pelo menos 95% das partículas transportadas pelo ar) recomendados pelo CDC são considerados a melhor linha de proteção facial para os profissionais de saúde que tratam de pacientes com COVID-19. Mas há um problema: devem ser descartados depois de serem utilizados uma vez. Por isso, algumas pessoas estão a tentar encontrar formas de limpar os seus respiradores.

Na Universidade Duke, os investigadores desenvolveram um processo de descontaminação com peróxido de hidrogénio. E a Universidade do Nebraska criou um protocolo semelhante com luz ultravioleta. Mas nem todos os investigadores estão focados na limpeza; alguns concentram as suas atenções na criação de dispositivos.

Em março, um grupo de mais de uma dezena de cirurgiões, estudantes de medicina, terapeutas respiratórios e outros participaram num encontro sobre a COVID-19 no Hospital Pediátrico de Boston. Depois de discutirem ideias por videoconferência, reuniram-se numa sala enorme – perfeita para o distanciamento social – e trabalharam durante 10 horas com tesouras, cola de borracha, silicone de calafetagem, elásticos, filtros de café, máscaras de anestesia e filtros médicos, para criarem um respirador.

Ao final do dia, tinham um protótipo funcional para o respirador DIY que aparece no vídeo da equipa narrado por Slatnick (e já fizeram uma segunda versão.) Os testes preliminares feitos por 11 pessoas saudáveis que seguiram as instruções para fazerem os seus próprios respiradores indicam que, depois de usarem a máscara durante 20 minutos, os utilizadores tinham níveis estáveis de oxigénio e batimentos cardíacos normais.

Mas ainda existem desafios de engenharia; o respirador deve ser durável, encaixar bem no rosto e filtrar as partículas. Ainda assim, o design do Hospital Pediátrico de Boston parece estar a ganhar tração. “Recebemos fotografias do mundo inteiro de pessoas a utilizar o dispositivo”, diz Slatnick. “Há uma escassez tremenda de equipamentos de proteção individual em muitos hospitais, e o facto de os médicos nos estarem a contactar, porque estão a considerar a utilização de um dispositivo que não foi aprovado pelo Instituto Nacional de Segurança e Saúde Ocupacional, revela que estes profissionais de saúde estão muito preocupados.”

Inventar novos ventiladores
Nos EUA e no resto do mundo, a escassez de ventiladores está a levantar preocupações sobre a capacidade que os hospitais têm para tratar pacientes com COVID-19. De acordo com uma estimativa, os EUA possuem cerca de 160 mil ventiladores – número insuficiente para cobrir as necessidades projetadas, e estudos feitos anteriormente também identificaram falhas críticas nas cadeias de abastecimento de material médico. Mas uma técnica experimental, que usa um ventilador para vários pacientes, começou a receber muita atenção – e também muitas críticas de especialistas médicos – quando alguns hospitais da cidade de Nova Iorque começaram a adotar esta prática arriscada.

Os ventiladores estão a ter muita procura e o engenheiro mecânico e professor de anestesiologia da Universidade da Flórida, Samsun Lampotang, está a responder com um tubo de PVC, uma válvula de aspersão que normalmente é usada para regar relva, e placas de computadores. Com base em projetos open-source e construído com a ajuda do seu grupo de investigação – grupo que já tinha projetado ventiladores tradicionais – o ventilador improvisado de Lampotang está quase terminado.

O objetivo de Lampotang é projetar um ventilador DIY seguro que possa ser montado com hardware e software básico em menos de cinco horas e por apenas 250 dólares. Isto seria significativamente mais rápido e barato do que o exigido por empresas que não são da área da saúde, como a General Motors que, segundo orientações da Casa Branca, deve focar e aumentar a sua produção em ventiladores tradicionais.

Quando o dispositivo estiver terminado, deve ser testado em pulmões artificiais, sem parar, durante três semanas – a quantidade máxima de tempo que um paciente pode precisar – antes de a equipa o poder considerar pronto para uso humano. Os primeiros relatórios são promissores, diz Lampotang, e já existem vários pedidos de médicos.

Mas o que vai acontecer se o projeto ainda estiver a ser testado e os hospitais em locais como Nova Iorque ficarem sem ventiladores – será que vão utilizar a versão de Lampotang? “É aqui que reside o dilema ético. Infelizmente, estamos a ficar sem tempo.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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