Objeto Interestelar Estranho Pode Ser Fragmento de Planeta Morto

O 'Oumuamua, o primeiro objeto interestelar de que há conhecimento no nosso sistema solar, pode ter adquirido a sua forma oblonga quando um planeta foi destruído por uma estrela distante.

sexta-feira, 17 de abril de 2020,
Por Nadia Drake
Esta representação artística mostra o 'Oumuamua, o primeiro objeto interestelar de que há conhecimento, a atravessar ...

Esta representação artística mostra o 'Oumuamua, o primeiro objeto interestelar de que há conhecimento, a atravessar o sistema solar. Este objeto singular foi descoberto no dia 19 de outubro de 2017 pelo telescópio havaiano Pan-STARRS 1. As observações subsequentes, feitas por observatórios do mundo inteiro, mostram que este visitante é diferente de qualquer coisa normalmente encontrada no sistema solar.

Fotografia de ESO/M. Kornmesser (ILUSTRAÇÃO)

Um visitante invulgar atravessou o nosso sistema solar em finais de 2017 – um pequeno objeto rochoso de origem distante da Terra que nasceu num sistema estelar muito, muito distante.

O visitante interestelar – chamado ‘Oumuamua pela equipa que o descobriu, nome que se pode traduzir aproximadamente do havaiano para “mensageiro de longe que chega primeiro” – levantou inúmeras questões enigmáticas. Visto pela primeira vez pelo projeto Pan-STARRS do Observatório Haleakalā, em Maui, o objeto acelerou de formas que não podem ser explicadas apenas pela gravidade. E com base na luz que refletia, o ‘Oumuamua parecia ser um objeto alongado em forma de charuto – uma forma diferente de qualquer coisa observada no nosso sistema solar.

As novas simulações feitas em computador revelam a possível origem deste estranho objeto interestelar – um mundo que foi despedaçado pela sua estrela, resultando em fragmentos estreitos e longos. Alguns destes fragmentos podem ter sido lançados para o espaço interestelar, e milhões – talvez até milhares de milhões – de anos mais tarde, o ‘Oumuamua chegou ao nosso sistema solar. As simulações apontam para três tipos possíveis de sistemas para o ‘Oumuamua, e o trabalho explica a forma alongada e o movimento curioso deste visitante interestelar.

“O ‘Oumuamua apresenta muitos problemas para conseguirmos explicar a sua origem”, diz Yun Zhang, investigadora do Observatório Côte d'Azur, em França, e autora principal de um estudo sobre as simulações publicado no dia 13 de abril na Nature Astronomy. “Antes do nosso estudo, nenhuma das soluções conseguia produzir uma forma tão alongada.”

Mistério de outro mundo
Os astrónomos já suspeitavam há muito tempo que objetos interestelares estavam a percorrer o nosso sistema solar – era apenas uma questão de tempo até conseguirmos avistar um. Mas imaginavam que estes objetos fossem semelhantes ao recém-descoberto cometa interestelar Borisov. O Borisov, um cometa em desintegração com uma auréola gelada, parece-se com os objetos congelados da parte exterior do sistema solar.

“O Borisov age exatamente da forma que se espera de um visitante interestelar. Tudo sobre este cometa é comum”, diz Greg Laughlin, professor de astronomia na Universidade de Yale. “E isto contrasta de forma surpreendente com o 'Oumuamua, onde literalmente nada sobre o ‘Oumuamua era normal.”

Em vez de ser um objeto gelado e parecido com um cometa, o ‘Oumuamua era rochoso e seco, semelhante a um asteroide. Era demasiado pequeno e escuro para se conseguir observar diretamente a sua superfície, por isso, os astrónomos deduziram a sua forma com base na maneira como refletia a luz. A sua forma estranha e alongada gerou imediatamente especulações sobre as suas origens e, à medida que os astrónomos continuavam a observar a passagem do ‘Oumuamua, repararam em acelerações estranhas que foram atribuídas ao vapor de água em erupção sob a sua superfície.

Até ao final do ano passado, a origem do ‘Oumuamua era um mistério, mas “todos estes enigmas podem agora ser resolvidos com o nosso cenário”, diz Zhang.

Como fazer um charuto espacial
Zhang e o seu colega, Doug Lin, da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, consideraram a possibilidade de o 'Oumuamua ter vindo de um sistema com planetas ou planetesimais mais pequenos que orbitam uma estrela central pequena e densa – algo com gravidade suficiente para destruir mundos que se aproximem demasiado, mas sem os queimar primeiro.

A equipa traçou as trajetórias de três tipos de objetos que orbitam estas estrelas: planetesimais de 800 metros de largura, objetos congelados semelhantes a cometas e planetas maiores, como as super-Terras.

Zhang e Lin descobriram que, se algum destes objetos estiver a cerca de 354.000 km da sua estrela hospedeira, começam a centrifugar, a esticar e são fragmentados pela gravidade da estrela – um processo que os astrónomos chamam de “perturbação das marés”. Quanto menor for o objeto, mais próximo precisa de estar para se desfazer. Dependendo da composição do mundo destruído, ou mundo progenitor, alguns dos fragmentos – objetos extremamente alongados como o ‘Oumuamua – podem ter reações dinâmicas. E devido à violência deste processo, muitos dos fragmentos são lançados para o espaço interestelar para nunca mais regressar.

“A natureza não produz muitos objetos semelhantes a fragmentos”, diz Laughlin. “Portanto, o facto de a perturbação das marés poder fazer isto naturalmente torna este conceito muito convincente, e eles fizeram um trabalho muito completo e cuidadoso ao explorar esta opção.”

As simulações também sugerem que, quando os mundos progenitores são destruídos, o calor da estrela derrete os fragmentos e vaporiza qualquer água perto da superfície. Mas as bolsas de gelo enterradas nas profundezas dos fragmentos sobrevivem, algo que pode explicar os supostos jatos de vapor de água que aceleraram o ‘Oumuamua quando este se aproximou do nosso sol.

Quando estes fragmentos planetários derretem e se solidificam, a rocha fica mais rija e forma uma crosta externa resistente, como acontece com o chocolate quando é derretido e depois arrefece. “Depois de a superfície congelar, é mais difícil de quebrar”, diz Zhang. Este processo de têmpera pode explicar a razão pela qual o 'Oumuamua não se desmoronou por completo quando passou pelo nosso sol, ao contrário do Borisov, que recentemente se separou quando estava a sair do sistema solar.

Formato de charuto ou de panqueca?
As simulações fizeram um excelente trabalho na explicação de como é que objetos como o ‘Oumuamua se podem formar, diz Michele Bannister, da Universidade de Canterbury, na Nova Zelândia, que também estuda objetos interestelares. “Eu penso que alguns dos mecanismos que eles estão a usar são mais prováveis do que outros”, diz Michele, salientando que faz mais sentido o 'Oumuamua ter um cometa como corpo progenitor do que um planeta do tamanho de uma super-Terra.

Mas Michele e Laughlin adicionaram outra questão a este mistério. Ambos estão céticos em relação ao facto de o 'Oumuamua ser realmente um objeto em forma de charuto, apontando para um artigo publicado no verão passado que revisitou as observações originais do objeto. A análise mais recente conclui que o ‘Oumuamua pode ter a forma de uma panqueca – uma forma que Bannister compara a um pão de pita com demasiado recheio, semelhante a um objeto chamado MU69, ou Arrokoth, que existe na parte exterior do sistema solar.

“Enviámos [a sonda] New Horizons para perto de Arrokoth e o que foi que encontrámos? Dois pães pita, com recheio a mais, presos um ao outro”, diz Bannister. “É interessante e sugestivo.”

Se o ‘Oumuamua não for um fragmento rochoso com uma forma alongada, a sua verdadeira origem permanece envolta em mistério.

“Se assumirmos que o objeto tinha a forma de um charuto, então a descrição era muito plausível”, diz Laughlin. “Mas se o ‘Oumuamua for uma coisa em forma de panqueca, regressamos ao desconhecido.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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