A Pandemia Está a Fazer com que as Pessoas Tenham Sonhos Estranhos. Eis Porquê.

Os investigadores explicam que a nossa ausência dos ambientes habituais – devido ao distanciamento social – está a fazer que os sonhadores percam a “inspiração”.

Monday, April 20, 2020,
Por Rebecca Renner
Deirdre Barrett, professora de psicologia na Universidade de Harvard, especialista no estudo de sonhos, fez esta ...

Deirdre Barrett, professora de psicologia na Universidade de Harvard, especialista no estudo de sonhos, fez esta ilustração de um sonho relacionado com a COVID-19 que ela teve recentemente.

Fotografia de DEIRDRE BARRETT (ILUSTRAÇÃO)

Ronald Reagan parou um elegante carro preto junto ao passeio, abriu a janela de vidro escurecido e fez sinal a Lance Weller, autor do romance Wilderness, para se juntar a si. O presidente, morto há muito tempo, escoltou Weller até uma loja de livros de banda desenhada. A loja tinha todos os livros que Weller sempre desejou, mas antes de conseguir comprar qualquer coisa, Reagan roubou-lhe a carteira e fugiu porta fora.

Como é óbvio, Weller estava a sonhar. Este escritor é uma de muitas pessoas – incluindo mais de 600 indivíduos que participam num estudo – que afirmam estar a passar por um novo fenómeno: sonhos influenciados pela pandemia de coronavírus.

Há muito tempo que a ciência sugere que o conteúdo e as emoções dos sonhos estão ligados ao nosso bem-estar enquanto estamos acordados. Os sonhos bizarros, carregados de simbolismo, permitem que alguns sonhadores superem memórias pesadas, ou tensões psicológicas do quotidiano, na segurança do seu subconsciente. Os pesadelos, por outro lado, podem ser sinais de ansiedade que, de outra forma, não perceberíamos enquanto estamos acordados.

Com centenas de milhões de pessoas fechadas em casa devido à pandemia de coronavírus, alguns especialistas em sonhos acreditam que a nossa ausência dos ambientes habituais, e de estímulos diários, faz com que fiquemos com escassez de “inspiração”, forçando o nosso subconsciente a focar-se em temas do passado das nossas vidas. No caso de Weller, a sua obsessão de longa data por livros de banda desenhada juntou-se ao hábito que tem em perscrutar publicações de teor político no Twitter, para criar uma cena surreal que Weller interpreta como sendo uma forma de comentário sobre as ansiedades económicas a nível mundial.

“O vírus é invisível, e eu acredito que é por isso que se transformou em tantas coisas diferentes.”

por DEIRDRE BARRETT, UNIVERSIDADE DE HARVARD

Pelo menos cinco equipas de investigação de instituições de vários países estão a recolher exemplos como o de Weller, e uma das descobertas feitas até agora é a de que durante esta pandemia os sonhos estão a ser preenchidos com stress, isolamento e alterações nos padrões de sono – um turbilhão de emoções negativas que afastam agora os sonhos da normalidade.

“Normalmente, usamos o sono REM e os sonhos para lidar com as emoções mais fortes, sobretudo as emoções negativas”, diz Patrick McNamara, professor associado de neurologia na Faculdade de Medicina da Universidade de Boston, especialista no estudo de sonhos. “Obviamente, esta pandemia está a originar muito stress e ansiedade.”

Epicentro da alucinação
De acordo com McNamara, quando estamos a sonhar, o stress coloca o nosso cérebro numa viagem. As reações e sinais neurobiológicos que produzem os sonhos são semelhantes aos desencadeados pelas drogas alucinogénias. Estas reações ativam recetores nervosos, chamados serotonina 5-HT2A, que depois desligam uma parte do cérebro chamada córtex pré-frontal. O resultado é conhecido por “desinibição emocional”, um estado onde as emoções inundam a consciência, sobretudo durante o estágio de sono de movimento rápido dos olhos (REM), que acontece quando sonhamos normalmente.

Apesar de estes processos acontecerem todas as noites, grande parte das pessoas não se lembra dos sonhos. Mas a vida durante esta pandemia de coronavírus pode estar a alterar isso. O isolamento e a intensificação do stress influenciam o conteúdo dos sonhos e permitem que algumas pessoas se lembrem mais sobre o que sonharam. Por um lado, a ansiedade e a falta de atividade diminuem a qualidade do sono. Acordar frequentemente, também conhecido por parassónia, está associado ao aumento da recordação dos sonhos. As emoções e as memórias latentes do dia anterior também podem influenciar o conteúdo dos sonhos e a resposta emocional de alguém dentro do próprio sonho.

“As pessoas mais perto da ameaça de pandemia – profissionais de saúde, habitantes em epicentros e pessoas com familiares afetados – têm mais probabilidades de ter sonhos influenciados pelo surto.”

De acordo com um estudo que começou em março e que ainda está a decorrer no Centro de Investigação de Neurociências de Lyon, em França, a pandemia de coronavírus provocou um aumento de 35% na recordação dos sonhos entre os participantes, com os entrevistados a relatarem uma subida de 15% nos sonhos negativos. Um estudo diferente, promovido pela Associação Italiana de Medicina do Sono, está a analisar os sonhos dos italianos em confinamento. Muitos dos sujeitos estão a ter pesadelos e parassónias que se assemelham aos sintomas da perturbação de stress pós-traumático.

“Há alguns anos atrás, quando estudámos os sobreviventes do sismo de 2009, em L'Aquila, descobrimos que as perturbações do sono e os pesadelos estavam estritamente associados à proximidade do epicentro”, diz Luigi De Gennaro, professor de psicologia fisiológica na Universidade de Roma que está a trabalhar no estudo italiano sobre o coronavírus. “Por outras palavras, o mapa sísmico estava maioritariamente sobreposto aos transtornos do sono.”

Os resultados da investigação de Luigi, e outros trabalhos, como o estudo de Lyon, sugerem que as pessoas mais perto da ameaça de pandemia – profissionais de saúde, habitantes em epicentros e pessoas com familiares afetados – têm mais probabilidades de ter sonhos influenciados pelo surto.

Ultrapassar os pesadelos
Existem vários estudos que demonstram que as atividades que fazemos enquanto estamos acordados criam sequências de memórias que influenciam o conteúdo dos sonhos. As emoções sentidas durante o dia podem influenciar o que sonhamos e a forma como nos sentimos sobre isso dentro do próprio sonho. A redução ou restrição destas fontes de memórias do quotidiano – como ficar fechado sozinho em casa de quarentena – pode limitar o conteúdo dos sonhos ou fazer com que o subconsciente procure memórias mais profundas.

Pode parecer óbvio, mas investigadores finlandeses demonstraram cientificamente que a paz de espírito tem um “efeito positivo nos sonhos”, e faz com que as pessoas se sintam bem com o que está a acontecer nos seus sonhos. Os dados mostram que a ansiedade, por outro lado, está associada a um “efeito negativo nos sonhos”, resultando em sonhos assustadores ou perturbadores.

Deirdre Barrett, professora assistente de psicologia na Universidade de Harvard e autora de The Committee of Sleep, recolheu depoimentos e analisou os sonhos de sobreviventes de eventos traumáticos, incluindo sobreviventes dos ataques ao World Trade Center de 11 de setembro de 2001. Barrett descobriu que os sonhos onde as pessoas processam traumas tendem a seguir dois padrões: fazem referência direta ou recriam uma versão do evento traumático, ou os sonhos são fantásticos, com elementos simbólicos a substituir o trauma.

“Para quem procura exercer algum tipo de controlo sobre os sonhos maus, pensar no “bizarro” pode ajudar.”

Na recente amostra de sonhos de coronavírus que Barrett começou a recolher em março com esta sondagem, alguns dos participantes dizem que sonharam que estavam infetados com o vírus ou que estavam a morrer por causa disso. Noutro conjunto de sonhos recolhido por Barrett, os participantes substituíram o medo do vírus por um elemento metafórico, como insetos, zombies, desastres naturais, figuras sombrias, monstros ou assassinos de tiroteios em massa.

“Tirando os [sonhos dos] profissionais de saúde, não temos imagens visuais de pessoas com dificuldades em respirar ligadas a um ventilador”, diz Barrett. “O vírus é invisível, e eu acredito que é por isso que se transformou em tantas coisas diferentes.”

Apesar de toda esta variedade, a única coisa que muitos dos sonhos sobre a pandemia têm em comum é o quão estranho parecem às pessoas que participam nos estudos. “Pode ser um dos mecanismos usados pelo cérebro adormecido para induzir a normalização emocional”, diz Perrine Ruby, investigadora do Centro de Investigação de Neurociências de Lyon.

Para quem está a ter pesadelos relacionados com o coronavírus, existem evidências crescentes de que as chamadas “técnicas de domínio dos sonhos” podem aliviar o seu sofrimento.

Quando Barrett trabalha com os pacientes para “escreverem um argumento” para os seus próprios sonhos, costuma perguntar como é que querem que o pesadelo seja diferente. Quando um paciente descobre uma nova direção para o sonho, pode anotá-la e ensaiá-la antes de adormecer. Estes “argumentos” variam desde soluções mundanas, como combater os invasores, a cenários mais “oníricos”, como diminuir o invasor até que este fique do tamanho de uma formiga.

Para quem procura exercer algum tipo de controlo sobre os sonhos maus, pensar no “bizarro” pode ajudar, diz Ruby, a investigadora de Lyon. “Mudar o contexto – as leis da física e assim por diante – pode mudar a perspetiva [e] propor outro ângulo, uma alteração que pode ajudar a mudar, ou a minimizar, as emoções.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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