Perdeu o Olfato? Pode Não Ser Coronavírus.

Há quem aponte este sintoma como um sinal de COVID-19 – mas os dados que os cientistas têm disponíveis são limitados e inconclusivos.

quarta-feira, 15 de abril de 2020,
Por Sarah Elizabeth Richards
Uma mulher, com uma máscara de proteção individual, a cheirar flores de cerejeira nas margens do ...

Uma mulher, com uma máscara de proteção individual, a cheirar flores de cerejeira nas margens do rio Elba, em Dresden, na Alemanha.

Fotografia de Robert Michael, Picture Alliance via Getty Images

O seu pão quente preferido de repente deixou de ter cheiro? O seu gel de banho não tem aroma a coco? Existem cada vez mais relatórios que sugerem que a perda do olfato, uma condição conhecida por anosmia, é um sintoma da COVID-19. Mas os cientistas ainda não têm certeza.

Citando uma série de evidências que surgiram no mundo inteiro, a Academia Americana de Otorrinolaringologia sugeriu recentemente que a anosmia e os distúrbios olfativos podem ser usados para rastrear casos de coronavírus. De acordo com a academia, existem relatos de pessoas que acusaram positivo para a doença, mas que não apresentaram sintomas visíveis – exceto a perda misteriosa, ou redução, do olfato.

Mas dentro da comunidade médica, outros especialistas dizem que a ligação com o coronavírus não é sólida. Até agora, os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA e a Organização Mundial de Saúde não adicionaram a anosmia às suas listas de sintomas de COVID-19. De acordo com estas instituições, mesmo que exista uma relação, a simples perda do olfato não é suficiente para garantir a presença do coronavírus.

“A perda de olfato pode não ser mais frequente com a COVID-19 do que com quaisquer outras infeções respiratórias das vias aéreas superiores”, diz Steven Munger, diretor do Centro de Olfato e Paladar da Universidade da Flórida, em Gainesville.

Cerca de 40% das pessoas que têm outras infeções virais, como gripe ou constipações ligeiras, passam por uma perda temporária de olfato que geralmente se reverte no espaço de algumas semanas. Esta condição também é comum entre pessoas com alergias. Os distúrbios prolongados de olfato, que afetam entre 3% a 20% da população em geral, são mais prevalentes entre os idosos, mas também podem ser provocados por traumatismos cranianos graves, doenças neurodegenerativas ou por pólipos nasais que bloqueiam o fluxo de ar e que devem ser removidos cirurgicamente.

“Porque é que o olfato está a ser alvo de tanta atenção?”, pergunta Munger. “As pessoas estão assustadas e estamos a tentar descortinar esta doença. Estamos a tentar encontrar elementos que nos possam ajudar a detetar a COVID-19 o mais atempadamente possível.”

Ligação com o olfato
Uma das lacunas na identificação inicial da perda de olfato reside no facto de esta se basear em relatos episódicos, em vez de observações feitas a longo prazo, algo que seria necessário para estabelecer uma ligação evidente com a COVID-19. Para além disso, as pessoas têm geralmente dificuldades em caracterizar os seus próprios problemas com o olfato ou o paladar, porque os dois estão muito interligados.

“As pessoas podem dizer que perderam o paladar, quando na realidade perderam o olfato, e não conseguem determinar o que está a acontecer”, diz Munger. Nós podemos verificar se o nosso paladar está a funcionar através da ingestão de alimentos com sabores fortes, seja vinagre, sal ou açúcar.

Por exemplo, um estudo britânico divulgado em finais de março recolheu dados sobre os sintomas de COVID-19 através de uma aplicação online. Os dados mostram que quase 60% dos 579 utilizadores que acusaram positivo para o coronavírus disseram ter perdido o olfato e o paladar. Mas uma parcela significativa dos pacientes que apresentaram resultados negativos para o vírus – 18% de 1.123 pessoas – também disseram sentir problemas olfativos e de paladar.

Outro dos desafios passa por compreender se a perda do olfato é uma indicação da gravidade da doença, dado que os sintomas clássicos, como febre e tosse, são indicadores claros de que o corpo está com dificuldades. Noutro estudo, que ainda está a ser feito pelo European Archives of Oto-Rhino-Laringology, 85% dos pacientes  que sofreram casos ligeiros ou moderados de COVID-19 relataram ter perdido capacidades olfativas. Isto suporta outras evidências iniciais de que a perda do olfato pode acontecer em pacientes com poucos ou nenhuns sintomas, diz Eric Holbrook, diretor de rinologia do Hospital Eye and Ear de Massachusetts. Mas Eric acrescenta que o estudo é limitado porque se concentra apenas nos casos ligeiros. Não é possível dizer se a perda do olfato também está associada aos casos mais graves de COVID-19.

Eric Holbrook, que investiga formas de tratar a perda permanente do olfato, diz que os médicos estão a recolher dados muito depressa, mas muitos dos dados são subjetivos. “Ainda não vi um estudo detalhado que analise quando é que os pacientes são diagnosticados, qual a gravidade e quanto tempo dura a perda do olfato.”

O olfato pode regressar?
Para compreender melhor de que forma a perda do olfato se manifesta em pacientes com COVID-19, Eric e os seus colegas propuseram um estudo que administraria testes para detetar o coronavírus e as capacidades olfativas nos pacientes do Hospital Geral de Massachusetts, em Boston. Os pacientes com sintomas olfativos, e cujo olfato não regressasse após recuperarem do coronavírus, seriam seguidos durante vários meses para se fazer a recolha de informações valiosas sobre a persistência desta ligação.

Felizmente, perder o olfato devido a uma infeção não significa necessariamente que este sentido se perca para sempre. Acredita-se que os vírus provocam inflamações nos recetores sensoriais do nariz, interrompendo a capacidade das células nervosas transferirem informações olfativas ao cérebro. Ao contrário da nossa visão e audição, as células nervosas danificadas no bulbo olfativo conseguem regenerar-se ao longo da vida.

“É por esta razão que, quando perdemos o olfato, geralmente conseguimos recuperá-lo”, diz Eric. “Mas não sabemos quanto tempo é que demora a substituir um recetor sensorial. Pode demorar um ano ou dois.”

“Quando as pessoas perdem definitivamente o olfato, pode ser uma perda emocional muito grande.”

por STEVEN MUNGER, CENTRO DO OLFATO E PALADAR DA UNIVERSIDADE DA FLÓRIDA

Mas a COVID-19 é tão recente que os investigadores não sabem exatamente quando é que os pacientes que sofrem de anosmia podem recuperar o olfato.

Para acelerar a recuperação, alguns médicos optam por uma terapia chamada “treino olfativo” que aumenta a sensibilidade do olfato e ajuda o cérebro a processar corretamente os sinais. Os pacientes inalam quatro odores diferentes, como alho, eucalipto, limão e rosa, durante 15 segundos de cada vez, duas vezes por dia, durante três meses, e depois mudam para outro conjunto de aromas durante mais três meses. “Também se podem usar óleos essenciais”, diz Eric.

O interesse repentino na forma como o coronavírus afeta o funcionamento olfativo tem impulsionado este campo de investigação, que tradicionalmente tem menos recursos para pesquisa do que sentidos como a visão e audição.

A dádiva do olfato é uma das alegrias da vida, diz Eric. Imagine não ser capaz de desfrutar do aroma do café torrado ou do jasmim. Mas ainda mais importante, a perda das capacidades olfativas pode tornar-se num problema de saúde pública quando as pessoas não conseguem detetar fugas de gás, fumo de um incêndio ou o cheiro a podre na comida estragada.

“Muitas pessoas encaram o olfato como um dado adquirido”, acrescenta Munger. “Mas quando as pessoas perdem definitivamente o olfato, pode ser uma perda emocional muito grande.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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