Repensar a Relação das Crianças com os Ecrãs Durante a Pandemia

Agora que estão fechadas em casa, as crianças estão a passar mais tempo em frente aos ecrãs. Sabe que mais? Não faz mal.

Tuesday, April 28, 2020,
Por Christine Dell'Amore
Fotografia de Maskot / Getty Images

Aquele momento em que estamos a tentar perceber como fazer a 18ª vídeo conferência do dia – mas não somos os únicos que passámos horas em frente a um ecrã. Apesar de todos os nossos melhores esforços para incentivar as crianças a ler e a fazer outras atividades, enquanto tentamos manter algum limite no tempo que passam em frente a um ecrã, os nossos filhos só querem “vegetar” a ver vídeos. Será que os cérebros das crianças vão derreter quando isto tudo passar? 

Enquanto a pandemia de coronavírus continua a alterar as rotinas familiares pelo mundo inteiro, a nossa relação com os ecrãs também aumenta de uma forma sem precedentes. Mas, para todos os pais que estão preocupados por deixarem os seus filhos em frente à televisão enquanto estão fechados em casa, os especialistas dizem: relaxe.

Apesar de alguns estudos mostrarem ligações entre a utilização intensiva de ecrãs e atrasos no desenvolvimento da linguagem, aumento das taxas de obesidade e a perturbações do sono, os especialistas concordam que agora não é o momento para nos preocuparmos com estas investigações. “Não há razões para aumentar agora o stress e colocar ainda mais culpas sobre a tecnologia”, diz Jenny Radesky, pediatra do comportamento da Universidade do Michigan e autora das diretrizes da Academia Americana de Pediatria (AAP) sobre a utilização de dispositivos multimédia. “A culpa não nos ajuda a fazer planos. Em vez disso, pense: O que é que a minha família precisa agora?”

Caroline Knorr, editora do programa parental da organização sem fins lucrativos Common Sense Media, ecoa um sentimento semelhante. “Concentre-se na relação que tem com os seus filhos, e não nas horas que eles passam em frente a um ecrã.”

“Desde que os pais tenham interações relevantes com os filhos ao longo do dia, não faz mal”, diz Caroline.

Repensar o ‘tempo de ecrã’
Primeiro, Jenny Radesky gostaria de acabar com o termo “tempo de ecrã”, porque não define realmente a relação entre a tecnologia e os nossos filhos. O foco, diz Jenny, não deve ser o tempo de duração, mas sim a forma como a tecnologia se está a inserir nas nossas vidas e rotinas. “É útil ou não?”

Afinal de contas, nem todo o tempo de ecrã é semelhante: “Falar com os avós pelo Skype é diferente de ver desenhos animados”, acrescenta Jenny, explicando que as interações sociais nem sequer são consideradas “tempo de ecrã” pela AAP.

É por isso que Jenny sugere que os pais façam horários para o tempo que as crianças passam em frente a um ecrã com objetivos diferentes, como aprender, para interações sociais e entretenimento positivo, para além de horários para atividades que não envolvam ecrãs – cozinhar, passear e passar tempo com os animais de estimação.

Jenny Radesky não encontrou um termo para substituir “tempo de ecrã”, mas “utilização intencional de ecrã” fica perto, diz Jenny. “Se os nossos filhos usam a tecnologia o dia inteiro, devemos tentar torná-la mais social e positiva, e utilizá-la para solucionar problemas.” Isto pode englobar videochamadas com os primos ou amigos da escola, ou assistir a programas de televisão que desenvolvam as capacidades das crianças. E pode incluir desenhos animados adequados para a sua idade.

Não faça microgestão
A forma mais eficaz de gerir o tempo de ecrã é fazer com que as crianças tenham responsabilidades. Jenny aconselha que os pais estabeleçam parâmetros, não só na utilização de ecrãs, mas também nas rotinas normais do dia a dia.

O primeiro passo é ser transparente e dar às crianças algum contexto sobre as razões pelas quais devem regular o tempo que passam em frente a um ecrã. Dizer algo do género “não podes ficar o dia inteiro agarrado a um ecrã porque queremos passar mais tempo juntos” é muito mais aceitável para as crianças do que apenas “larga esse tablet”.

Com este contexto estabelecido, os pais podem dar aos seus filhos a autonomia para eles decidirem quando querem ver televisão, ou quando devem fazer outras coisas.

“As crianças gostam de ter autodeterminação”, diz Jenny. Dar essa oportunidade às crianças também desenvolve as suas capacidades mentais – isto inclui tomada de decisões, seguir instruções, pensamento crítico e controlo do comportamento.

Porém, há uma regra que não está aberta a discussão: as crianças não devem ter o tablet ou o telemóvel consigo quando não os estão a utilizar. Jenny diz que se deixarmos uma criança andar com estes dispositivos pela casa, isso pode fazer com tenham vontade de os usar sempre que se sentem aborrecidas.

Use os dispositivos como um ponto de partida
Ambas as especialistas recomendam que se usem os dispositivos como um ponto de partida para atividades no mundo real. Por exemplo, os pais podem sugerir livros sobre o Minecraft que os filhos podem ler, diz Caroline Knorr.

“Eu costumo procurar aplicações que ajudem as crianças a usar a imaginação.” Existem aplicações para crianças em idade pré-escolar que ajudam a desenvolver as suas capacidades de aprendizagem, e outras para crianças mais velhas que até ensinam a fazer programação.

Para as crianças mais novas, Jenny recomenda que se passe do 2D para o 3D. Por exemplo, depois de uma criança ver um documentário sobre a natureza, pode recriar uma cena com animais de peluche. “Queremos que as suas mentes ditem o que acontece a seguir.”

Para as crianças mais velhas, Caroline sugere que os pais conversem com os filhos sobre o conteúdo dos videojogos ou das aplicações que usam, e sobre como essas interações os fazem sentir. “Incentivar as crianças a pensar de forma critica sobre as coisas a que estão expostas significa que os pais se mantêm informados e que as crianças sentem que não estão simplesmente a consumir determinados conteúdos porque os seus amigos também o fazem.”

Mantenha-se atento às emoções
Apesar de as interações multimédia poderem ter efeitos positivos, muitas vezes também servem para escapar emocionalmente. Quando estão sobrecarregados, tanto os pais como os filhos distraem-se com a tecnologia, para fugir do que sentem.

Para evitar que os ecrãs se transformem numa estratégia de escapismo para as crianças, os pais devem conversar com os filhos sobre como se sentem. “Não queremos que a tecnologia substitua momentos importantes em que os nossos filhos talvez precisem de dizer que estão chateados, ou preocupados com o avó e a avô, ou exaustos”, diz Jenny. “É muito mais fácil educarmos os nossos filhos quando compreendemos o que impulsiona as suas emoções e comportamentos.”

Durante estes tempos de incerteza, os pais também devem estar atentos a quaisquer alterações no comportamento dos filhos – coisas como ficar mais retraído, mais distante, enervar-se facilmente ou recusar fazer os trabalhos de casa. Estes são os sinais de que podem estar a passar demasiado tempo colados a um ecrã. “Os pais conhecem os seus filhos melhor do que ninguém”, diz Caroline.

Contudo, nem os melhores conselhos conseguem evitar que cedamos à tecnologia quando estamos a tentar fazer a tal 18ª vídeo conferencia. E isso não faz mal, diz Jenny. “Eu diria aos pais que estão exaustos e em modo de sobrevivência para não serem tão exigentes consigo próprios.”

E talvez para verem uma série que gostem.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

 

A SEGUIR LEIA

Continuar a Ler