Académicos Afirmam que Redes Tróficas Naturais Estão em Perigo

A interferência humana causa um conjunto de consequências no planeta, alterando a biodiversidade. Três investigadores alertam que as redes tróficas naturais se encontram em perigo.

Thursday, May 21, 2020,
Por National Geographic
Ave fotografada no Delta do Okavango.

Ave fotografada no Delta do Okavango.

Fotografia de Kostadin Luchansky


Investigadores da Universidade de Coimbra, da Oregon State University (EUA) e do Instituto Mediterráneo de Estudios Avanzados (Espanha) anunciaram que a ação humana está a causar um conjunto de alterações biológicas globais. A investigação recolheu evidências, classificadas como incontornáveis, de que essas alterações biológicas não afetam apenas algumas espécies isoladas, mas simplificam redes alimentares inteiras, tornando-se em ameaças a longo prazo.

O investigador Ruben Heleno, do Centre for Functional Ecology – Science for People & the Planet, em declarações à revista científica Web Ecology, acrescenta que são necessárias medidas urgentes para proteger a integridade das redes tróficas naturais, sob o risco de empurrarmos ecossistemas inteiros para fora dos seus limites de segurança.

O primeiro aviso à humanidade
No ano de 1992, um conjunto de 1700 cientistas emitiram um primeiro “Aviso de Cientistas Mundiais à Humanidade”. Já nessa altura, alertavam para a necessidade de proteger a rede de interdependências entre os seres vivos. Neste sentido, vários cientistas de todo o mundo investigaram sobre as regras que regem a formação, funcionamento e resiliência das complexas redes de interações biológicas que, em última análise, sustentam a vida no planeta.

Aquando deste primeiro aviso, ficou clara a ignorância sobre a complexa rede de interações biológicas que existem. A preocupação com as mudanças climáticas e a proteção das espécies em vias de extinção obtiveram um maior foco, deixando as redes tróficas naturais para segundo plano.

Durante este período, os cientistas debruçaram-se sobre o estudo destas redes, produzindo avanços significativos que nos permitem agora avaliar as redes alimentares do mundo.

Desde este primeiro alerta, foi possível aprender muito sobre a estrutura das redes tróficas naturais e como elas se relacionam com o funcionamento e a persistência da comunidade, face aos vários fatores de stress da mudança global. Este aviso serviu, principalmente, para fazer a humanidade repensar as suas ações, a fim de evitar colisões com efeitos desconhecidos.

O segundo aviso: a união de quase duzentos países
Um segundo aviso mais recente foi emitido e assinado por mais de 15 mil cientistas de 187 países, onde declararam que, para prevenir uma catastrófica perda de biodiversidade, a humanidade devia enveredar por uma alternativa mais sustentável.

Neste aviso, a visão da biodiversidade era mais ampla e permitiu elaborar o estado das redes alimentares do mundo. Ou seja, a sua capacidade de resistir a ameaças externas e a deteção de sinais de alerta antecipado de possível síncope das redes tróficas naturais.

Com as interações bióticas frequentemente perdidas num ritmo muito mais rápido do que as espécies, percebem-se as várias formas de distúrbios antropogénicos, ou seja, provenientes de atividades humanas, associados à mudança global.

É necessário enfrentar desafios
Ruben Heleno afirma ainda que foi adotada uma visão mais alargada de biodiversidade e foi reavaliado o estado das redes alimentares no mundo, tal como a sua capacidade de resistir a ameaças externas, e sobre os sinais de alerta sobre o eventual colapso das redes tróficas naturais.

As evidências do estudo mostram que comunidades inteiras podem passar rapidamente de elevados níveis de diversidade para comunidades totalmente empobrecidas, onde apenas algumas espécies se mantêm, com poucos ou nenhuns sinais de alerta.

Compreender as redes tróficas naturais e as comunidades
As redes tróficas naturais correspondem às cadeias alimentares. A teia trófica representa as relações alimentares entre predadores e presas, numa comunidade ecológica.

Os recursos alimentares e os predadores estão entre os principais fatores limitadores do crescimento populacional de qualquer espécie e, as interações tróficas são essenciais para o entendimento da dinâmica das populações.

Todos os organismos são dependentes de uma grande diversidade de interações, formando uma complexa rede de interdependências. As redes alimentares modernas aproximaram-nos de uma ecologia preditiva da comunidade.

Vários fatores colocam em causa as redes tróficas naturais
Existem vários fatores que manipulam ou levam ao colapso das redes alimentares. Entre os padrões mais comuns, considerados fatores de stress da mudança global, estão o aumento da temperatura e as invasões biológicas, que levaram à perda de biodiversidade, à fragmentação do habitat e à superexploração das redes alimentares.

Entre os fatores de stress, devemos entender como alguns deles afetam as redes tróficas naturais:
- A temperatura afeta diretamente a taxa metabólica dos organismos;
- As invasões biológicas perturbam as redes alimentares locais;
- A introdução de plantas exóticas invasoras simplifica as redes herbivorias;
- As redes de polinização são afetadas pelas espécies;
- A intensificação da agricultura e a fragmentação de habitats simplificam as interações planta-animal;
- A urbanização afeta as redes alimentares naturais;
- A elevação atmosférica, a eutrofização, o desmatamento, a seca e a superexploração afetam as cadeias alimentares ou simplificam-nas.

É necessário entender melhor as sinergias em escala global e as trocas entre mudança climática e mudança biológica. Já existe um conjunto de dados de longo prazo para monitorar as mudanças ao nível da comunidade.

Existem evidências que, devido às ações de stress globais, são agora insuperáveis. Vários fatores levam a situações particularmente preocupantes, como os ciclos de vida animal afetados, no que respeita à reprodução, crescimento, muda ou migração. Tal como, os ciclos fenológicos de muitas plantas e animais.

As mudanças globais colocam todas as redes em perigo
O aquecimento global promove diretamente mudanças em muitas espécies, mudanças diferenciais entre consumidores e os recursos. Todas as redes tróficas naturais são intrinsecamente dinâmicas, reorganizando constantemente as interações à medida que as novas espécies entram ou saem da rede.

Vários distúrbios naturais podem influenciar a entrada e saída das espécies, tais como as mudanças sazonais. Mas também existem distúrbios antropogénicos, como as extinções ou introduções das espécies pelas atividades humanas. As consequências funcionais dos declínios da biodiversidade dependem da capacidade das espécies remanescentes.

À medida que a pressão antropogénica na biosfera continua a intensificar-se para atender à demanda da economia global, que é sustentada por recursos naturais, as comunidades locais entram rapidamente em colapso. A preocupação para os cientistas está no facto das consequências tornarem-se catastróficas e extremamente difíceis de reverter.

O papel desafiante e fundamental da ciência
Como tal, é importante que as redes tróficas naturais sejam objeto científico premente, possibilitando identificar possíveis sinais de alerta do colapso do ecossistema. Um alerta precoce inclui a deteção de variações crescentes nos processos ecológicos, embora alguns destes sistemas possam atingir limiares críticos sem aviso prévio.

Combater as mudanças climáticas e dificultar a extinção das espécies ameaçadas já se apresenta como um desafio. Porém, os cientistas alertam que agora também são necessárias ações urgentes para combater as mudanças biológicas em larga escala, especificamente para proteger as redes tróficas naturais.

Os estudos recentes mostram que a maioria dos fatores de stress globais de mudança têm um enorme potencial para interromper as interações tróficas. Monitorizar os efeitos de ameaças externas, como as mudanças climáticas em redes tróficas naturais, representa um enorme, mas necessário, desafio.

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