As Viagens Diárias Para o Trabalho Nunca Mais Serão as Mesmas

O coronavírus vai afetar – mas também pode tornar mais saudável – a forma como usamos comboios, autocarros e as ciclovias no futuro pós-pandemia.

Tuesday, May 19, 2020,
Por Emily Sohn
Um ciclista passava por baixo da autoestrada e da estação Rockridge BART, no dia 31 de ...

Um ciclista passava por baixo da autoestrada e da estação Rockridge BART, no dia 31 de março de 2020. O declínio acentuado no número de passageiros da BART deixou muitos dos estacionamentos desta agência de transporte vazios, dando lugar a ciclistas e a praticantes de skate.

Fotografia de JAMES TENSUAN


Está na hora de ir trabalhar. A pandemia de COVID-19 foi ultrapassada e – nesta visão do futuro – os comboios e os autocarros estão a funcionar novamente. Mas as coisas parecem diferentes do que costumavam ser. Pagamos o bilhete sem tocar em nada. Os lugares estão mais espaçados, os veículos estão repletos de divisórias e os motoristas estão em compartimentos ventilados e isolados dos passageiros.

As aplicações para telemóvel ajudam no descongestionamento de comboios e autocarros. E com mais pessoas a optarem por ir de bicicleta, a pé ou a trabalhar a partir de casa, as carruagens de comboio apinhadas de gente tornaram-se numa coisa de um passado pré-pandemia.

Embora seja impossível prever o futuro, as entrevistas dadas por especialistas em transportes e saúde pública sugerem que a pandemia oferece uma oportunidade para se remodelar os sistemas de transportes e revitalizar as cidades, com potencial para afastar doenças infecciosas e até algumas doenças crónicas. E apesar de atualmente os confinamentos colocarem os transportes públicos em estado de crise, os investimentos estratégicos, o pensamento criativo e as novas tecnologias podem fazer com que as pessoas se sintam seguras o suficiente para voltar a andar de transportes públicos, diz Yingling Fan, urbanista da Universidade do Minnesota, em Minneapolis. “Existem certamente muitos desafios, mas também muitas oportunidades”, diz Yingling.

A pandemia também pode criar oportunidades para sistemas de transporte mais apelativos.

“A história dos transportes está cheia de situações em que algo que foi feito temporariamente e se tornou permanente, porque as pessoas não queriam regredir”, diz Jarrett Walker, consultor de transportes internacionais e autor de Human Transit: How Clearer Thinking about Public Transit Can Enrich Our Communities and Our Lives.

Automóveis não são sinónimo de saúde
O objetivo dos transportes de massas é mover muitas pessoas, e essa multidão aumenta as probabilidades de disseminação de doenças infecciosas. Num estudo feito com dezenas de pessoas durante a época gripal de 2008-2009, investigadores do Reino Unido descobriram que as pessoas que andavam de autocarro ou de elétrico tinham quase seis vezes mais probabilidades de desenvolver uma doença respiratória aguda.

A reação natural pode ser optar por um carro, mas isso aumenta o risco de doenças crónicas, diz Lawrence Frank, especialista em transportes e saúde pública da Universidade da Colúmbia Britânica. Em 2004, Lawrence e os seus colegas descobriram que, por cada hora a mais que as pessoas passam dentro de um carro todos os dias, o seu risco de obesidade aumenta em 6%. A obesidade, por sua vez, é um indicador de diabetes e de doenças cardíacas – algo que aumenta a vulnerabilidade de uma pessoa às complicações de COVID-19.

“A questão mais premente é: Como construir um futuro que aborde as doenças crónicas e infecciosas?”

por LAWRENCE FRANK, UNIVERSIDADE DA COLÚMBIA BRITÂNICA

“Queremos que as pessoas tenham menos condições de doença preexistentes, para que, em caso de pandemia, consigam sobreviver”, diz Lawrence. “A questão mais premente é: Como construir um futuro que aborde as doenças crónicas e infecciosas?”

“É pouco provável que a densidade urbana desapareça, e nem deveria.” A investigação de Lawrence fez uma ligação entre bairros densos, facilidade de locomoção, proximidade de lojas e o acesso a transportes públicos a taxas mais baixas de diabetes, doenças cardíacas e stress, para além de custos reduzidos ao nível de assistência médica.

A equipa de Lawrence está agora a investigar a forma como as doenças crónicas e as doenças infecciosas variam consoante a mobilidade pedonal de um bairro, a dependência de veículos e a capacidade das pessoas se envolverem em modos ativos de transporte, como caminhar ou andar de bicicleta. Os resultados preliminares sugerem que as pessoas que vivem em bairros mais tranquilos, e com menos exposição à poluição do ar, têm menos probabilidades de ter condições crónicas e podem ser menos vulneráveis à morte por COVID-19.

Preservar os transportes públicos e incentivar modos ativos de transporte é importante para reduzir a poluição do ar, acrescenta Lawrence, e isso também tem implicações na saúde.

“A sociedade mais vulnerável é aquela que se torna mais sedentária e mais dependente de carros, e esse é o pior cenário possível em caso de pandemia.”

Transportes públicos à prova de infeções
A viagem para o trabalho consciente da COVID pode começar antes de sairmos de casa, diz Yingling Fan. Em algumas cidades da China, como em Shenzhen e em Guangzhou, a pré-reserva de um lugar já é comum nos autocarros e comboios urbanos. Yingling acredita que a adição de uma opção de pré-pagamento de passes e bilhetes online, ou via telemóvel, pode reduzir o número de pessoas que precisam de tocar em máquinas de venda.

Também é possível dispersar as pessoas de formas que vão para além da limitação de lugares nos transportes públicos – algo que muitas cidades já estão a fazer durante esta pandemia, diz Jarrett Walker.

As cidades podem usar os sistemas automáticos de localização de veículos já existentes e a monitorização do fluxo de passageiros para redirecionar rapidamente os autocarros consoante as necessidades. Os contadores automáticos de passageiros e sensores de peso – atualmente em utilização na Austrália, no Reino Unido e noutros lugares – podem fornecer informações sobre a capacidade das carruagens de comboio ou de metro através de aplicações para telemóveis ou de ecrãs nas estações, para que os passageiros se possam dispersar de acordo com a carruagem mais vazia.

No ano passado, a gigante de tecnologia Google começou a usar informações de crowdsourcing e de trânsito em mais de 200 cidades do mundo inteiro para fornecer aos utilizadores um aviso sobre a capacidade de ocupação de um comboio ou autocarro. Todas estas informações, integradas em aplicações para telemóvel, podem reduzir o congestionamento, permitindo aos passageiros evitar estações e veículos lotados. Até agora, este tipo de dados não foi utilizado pelas autoridades para impor o espaçamento entre multidões nos transportes públicos, diz Yingling, mas aplicar este conceito é plausível – a China já usa tecnologia semelhante para restringir o tráfego rodoviário.

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No entanto, a utilização de algumas destas aplicações pode significar abdicar de alguns níveis de privacidade. As aplicações de monitorização presentes nos nossos telemóveis podem, por exemplo, alertar que estivemos num comboio com alguém que mais tarde acusou positivo para a COVID-19. A Apple e a Google estão a desenvolver software com este tipo de rastreamento de contactos – já disponível na China, em Singapura e noutros países.

As diferenças culturais também desempenham um papel neste abdicar de privacidade, diz Yingling. O rastreamento de contactos na Coreia do Sul foi bem-sucedido, em parte, porque as leis permitem que o governo rastreie o histórico do cartão de crédito de uma pessoa infetada e os dados de localização do seu telemóvel.

“O compromisso entre privacidade e segurança é um tema muito debatido”, diz Yingling. “Não acredito que o público em geral nos EUA esteja pronto para qualquer medida rigorosa de rastreamento de contactos.”

Os sensores faciais, como os implementados nos transportes públicos na China, também conseguem medir a temperatura e rejeitar a entrada de um passageiro num autocarro ou estação de metro em caso de febre. Quando os testes de anticorpos forem exatos e estiverem disponíveis, podemos até mostrar um cartão de imunidade antes de embarcar, embora exista uma linha muito ténue entre segurança e transtorno, acrescenta David Levinson, engenheiro de sistemas de transportes da Universidade de Sydney, na Austrália.

“Todas estas invasões de privacidade são coisas que não vão agradar aos passageiros, e aumentam as probabilidades de as pessoas usarem outros métodos para além dos transportes públicos”, diz David. “As pessoas, se puderem, vão arranjar alternativas.”

Ressurgimento da bicicleta
As bicicletas estão entre estas alternativas. Durante a pandemia já surgiram novas ciclovias em cidades que vão desde Berlim a Bogotá. Nas últimas semanas, a cidade de Oakland, na Califórnia, encerrou 120 km de ruas para dar espaço aos ciclistas e pedestres, e muitos outros sítios, como Seattle, Washington e Milão, em Itália, querem reduzir de forma permanentemente a utilização de automóveis.

Os especialistas prevêem que estas ciclovias vão criar um ciclo contínuo – à medida que o número de ciclistas aumenta, a procura também aumenta. Por exemplo, durante a remodelação da autoestrada que atravessa a baixa de Seattle, a cidade transformou temporariamente as faixas de trânsito em vias para autocarros, e nunca mais as retirou. E a construção de 640 km de ciclovias em Paris custaria muito menos – apenas 2% dos custos – do que uma reformulação do sistema de metro da cidade.

Andar de bicicleta não é realista para todos, diz Jarrett Walker, e tende a ser mais acessível para as pessoas que vivem perto dos seus empregos. Ainda assim, a crescente indústria de bicicletas elétricas pode ajudar as pessoas a percorrer distâncias maiores, sobretudo se os sistemas de transportes públicos integrarem nas suas estruturas programas de partilha com bicicletas, para permitir que as pessoas passem da bicicleta para o comboio e para a bicicleta novamente, diz Frank. As bicicletas elétricas já estão disponíveis através de programas de partilha em dezenas de cidades dos EUA.

Teletrabalho para sempre?
Para algumas pessoas, o futuro das viagens para o trabalho pode nem ser importante. Durante esta pandemia, cerca de metade dos adultos empregados nos EUA está a trabalhar a partir de casa – de acordo com um relatório publicado em abril pela Brookings Institution. É mais do dobro da percentagem de pessoas que estavam em regime de teletrabalho há dois anos atrás. E cerca de 20% dos diretores financeiros entrevistados pela Brookings disseram que planeavam manter de forma permanente o teletrabalho para pelo menos 20% dos seus trabalhadores.

Este tipo de mudança social pode reduzir ainda mais a aglomeração e a disseminação de doenças nos transportes coletivos, diz Levinson, sobretudo se as pessoas forem aos escritórios ocasionalmente, se andarem de bicicleta quando puderem e se conseguirem ficar em casa a recuperar quando adoecerem.

Ainda assim, manter a robustez dos sistemas de transportes públicos é uma componente essencial para as cidades mais movimentadas, diz Yingling. Os autocarros, os comboios e outros métodos de transporte público aproximam as pessoas de todas as etnias e níveis de vida, e este tipo de mistura cria uma empatia que seria impossível se estivéssemos todos sentados nos nossos carros.

“Os transportes públicos são lugares onde as pessoas vivem o urbanismo”, diz Yingling. “É onde as pessoas lidam com as suas diferenças.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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