Dois Eventos Marcantes Para os Mais Novos: COVID-19 e Alterações Climáticas

A junção imprevista destas catástrofes pode alterar a forma como a Geração Z vai viver na vida adulta, e o tipo de futuro que podem criar.

Friday, May 8, 2020,
Por Laura Parker
“A minha filha Catalina tem muitas saudades das amigas”, diz a fotógrafa Alessandra Sanguinetti. “Por isso, ...

“A minha filha Catalina tem muitas saudades das amigas”, diz a fotógrafa Alessandra Sanguinetti. “Por isso, fomos de carro visitar as suas amigas à distância. Mas aqui ela quebrou as regras e tocou nas pontas dos dedos da sua melhor amiga Avery.”

Fotografia de Alessandra Sanguinetti, Magnum Photos

Jamie Margolin esperava falar no comício do Dia da Terra no National Mall, em Washington DC. Em vez disso, com o encontro de 22 de abril cancelado, assistiu a uma celebração digital no seu portátil em Seattle, onde está fechada em casa com a família desde meados de março.

As aulas do ensino secundário de Jamie são agora feitas online. Ela é finalista da turma de 2020, mas os tradicionais ritos de passagem – o baile de finalistas e a cerimónia de formatura – foram cancelados. O seu avô de 96 anos foi hospitalizado com a COVID-19. E faleceu uma semana depois. No funeral, feito sem abraços, Jamie, os pais e o tio estiveram separados por dois metros de distância e usaram máscaras e luvas.

Jamie Margolin tem 18 anos e pertence à Geração Z, a faixa etária das crianças que nasceram depois de 1996. Ela é ativista climática desde os 14 anos e teme pelas condições de vida na Terra quando for mais velha. Agora, uma pandemia altamente contagiosa ameaça devastar também os seus anos de juventude.

O clima e a COVID-19 representam uma junção incomensurável de catástrofes que se irão cruzar de formas que ainda não são completamente percetíveis. Mas para um grande número de jovens, este vírus será um momento determinante nos seus primeiros anos de vida, e as dificuldades económicas desencadeadas pelo mesmo irão quase certamente moldar a sua visão do mundo, da mesma forma que a Grande Depressão dos anos 1930 deu origem a adultos muito mais preocupados com as poupanças.

Muitos destes jovens vão terminar os seus estudos durante uma recessão, tendo crescido na sombra da crise desencadeada em 2008. A maior geração da história dos EUA, que já está endividada com os empréstimos estudantis, vai ter de procurar emprego com milhões de americanos desempregados – 26 milhões no final de abril – e com o país a mover-se rapidamente para territórios da era da Grande Depressão.

Globalmente, o impacto da pandemia na Geração Z é ainda mais sombrio: as escolas encerraram para 1.5 mil milhões de crianças, mais de 90% da população estudantil a nível mundial, numa época em que a aprendizagem online só está disponível para metade do mundo, porque não há acesso à internet ou a um computador. O vírus vai deixar milhares de jovens órfãos e está a propagar-se rapidamente em África, pressionando ainda mais os sistemas de saúde de um continente que ainda luta para conter a epidemia de VIH.

Daqui a uns meros 30 anos – Jamie Margolin terá 48 anos em meados do século – o mundo estará a passar por um aquecimento acelerado e poderá estar à beira de alterações incontroláveis que irão afetar os ecossistemas e deslocar milhões de pessoas. Em 2018, os cientistas alertaram que os líderes mundiais precisavam de tomar medidas drásticas para reduzir as emissões de carbono em 45% até 2030, e em 100% até 2050, para evitar o pior cenário.

“Não encontramos muitos momentos como este na história”, diz Alexandre White, que ensina história de epidemias na Universidade John Hopkins, em Baltimore. “A Geração Z vai ter de encontrar e construir comunidades de formas que nenhuma outra geração fez anteriormente.”

Protestos climáticos passam para o formato digital
Jamie é uma das ativistas climáticas, entre vários ativistas, que se destacaram no outono passado, quando levaram milhões de jovens às ruas, desde Deli a São Francisco, para exigir ações climáticas por parte dos líderes mundiais. Agora, à medida que a COVID-19 se propaga pelo mundo inteiro, entrei em contacto com alguns destes ativistas para perceber como será a vida daqui a um ano, e como a pandemia pode afetar a luta, para melhor ou pior, contra as alterações climáticas.

Enquanto líderes do movimento climático, estes jovens passam grande parte do tempo a pensar sobre o destino do mundo e estão habituados a considerar catástrofes de magnitude épica. Ainda assim, a velocidade com que a vida se alterou tão abruptamente é difícil de digerir.

“As pessoas perderam os seus empregos na recessão de 2008 e foi difícil”, diz Jamie. “Mas não era como se a vida tivesse parado. O mundo não parou como está a acontecer neste momento.”

Agora, fechados em casa como o resto do mundo, estes ativistas estão a determinar qual o caminho a seguir. Em Nairobi, onde os habitantes têm de respeitar um recolher obrigatório e não podem sair das suas cidades, para impedir que o vírus se propague pelas áreas rurais, Lesein Mutunkei, de 15 anos, está a fazer um esforço complicado para conseguir ter aulas online enquanto lida com a falta recorrente de eletricidade.

A campanha de plantação de árvores de Lesein está suspensa e ele está muito preocupado com a sua irmã mais velha, Tiassa, uma estudante confinada na sua escola devido ao cancelamento de voos na África do Sul, a nação africana com o maior número de infeções por COVID-19.

Lesein diz que, para além de tudo isto, ouviu as notícias sobre a América e ficou preocupado com os seus amigos que podem estar doentes.

Mayumi Sato, uma estudante japonesa da Universidade de Cambridge, sentiu os calafrios da xenofobia depois de uma série de incidentes anti-asiáticos. Estes incidentes foram levados a cabo nas universidades do Reino Unido por racistas que culpam a China pela disseminação da COVID-19. Ela está confinada numa residência universitária com oito colegas e está a reconsiderar as suas prioridades de vida. Mayumi decidiu seguir o exemplo dos seus amigos do Nepal e do Laos, onde trabalhou em programas sociais e ambientais, que lidam melhor com as incertezas.

“Eles estão particularmente adaptados...”, diz Mayumi. “Ultrapassar as adversidades é uma coisa normal para eles.”

Mayumi Sato tem 25 anos e também acredita que o novo normal pode ser dramaticamente diferente. Segundo ela, “vai mudar fundamentalmente a forma como socializamos, trabalhamos, fazemos compras e cuidamos da nossa saúde e da saúde de outras pessoas”.

Um futuro com menos viagens e mais videochamadas
A Geração Z pode vir a ser profundamente impactada pela pandemia, mas também é verdade que, enquanto primeira geração digital do mundo, também está melhor equipada para o futuro. Por exemplo, no Ruanda, Ghislain Irakoze (20 anos), fundador da Wastezon, uma empresa que usa a tecnologia para identificar e reduzir milhões de toneladas de lixo eletrónico em aterros sanitários, está a reequipar a sua empresa para recolher e reciclar resíduos médicos.

Grande parte deste movimento climático que atraiu milhões jovens começou nas redes sociais. As greves escolares de sexta-feira, que se espalharam pelo mundo depois de a ativista sueca, Greta Thunberg, de 17 anos, ter feito greves à porta do parlamento sueco em 2018, passaram agora para a internet. Mas como agora não podem fazer encontros com muitas pessoas, estes ativistas estão a elaborar novas estratégias para manter a visibilidade dos protestos climáticos. No dia 24 de abril, espalharam milhares de cartazes no relvado do Palácio de Reichstag, o edifício do parlamento alemão em Berlim.

O futuro pode vir a ter menos viagens e mais videochamadas, e até as empresas mais rígidas acabaram por se adaptar às plataformas de conferência online – coisas que os jovens usam desde tenra idade. Esta evolução, dizem os ativistas, traz a vantagem de ser benéfica para o planeta.

“Acho que a divisão digital que existia, e que em grande parte começou com a minha geração – com mensagens de texto e aplicações como a Zoom e FaceTime – vai claramente diminuir à medida que estas tecnologias se tornam na norma”, diz Delaney Reynolds, 20 anos, ativista em Miami e fundadora da Sink or Swim, uma campanha que visa educar os habitantes da Flórida sobre a subida do nível do mar.

Reynolds também acredita que “a ciência, os cientistas e os factos científicos” – uma tríplice importante num mundo polarizado – vão ficar novamente na moda.

“Uma crise desta magnitude ajuda realmente a diferenciar quem são as pessoas eleitas capazes de liderar e as que não são capazes” acrescenta Delaney. “Espero que as pessoas aprendam a ver as diferenças.”

Regresso ao futuro
Os cientistas sociais discordam das características da Geração Z, incluindo a sua designação. Jean Twenge, psicólogo da Universidade Estadual de San Diego, prefere  i-Geração; Neil Howe, autor de vários livros sobre as tendências geracionais americanas, acredita que Homelanders (ou pessoas que estão sempre em casa) é melhor, porque passam mais tempo em casa com os pais do que qualquer outra geração. Alexandria Villaseñor, de 14 anos, vive em Davis, na Califórnia, joga futebol na equipa da sua escola e diz que, depois da pandemia, o nome mais adequado pode ser Zoomers. “Daqui a oitenta anos, os nossos netos poderão gritar: Oi, Zoomers.”

Mas todos concordam que existem semelhanças entre a Geração Z e os desafios enfrentados pela Geração Silenciosa que cresceu durante a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial.

“Daqui a cinquenta anos, os filhos da i-Geração vão encontrar 150 rolos de papel higiénico nas caves dos seus pais”, diz Twenge.

Um mundo melhor
Felix Finkbeiner, de 20 anos, fundou a organização sem fins lucrativos Plant-for-the-Planet quando tinha 15 anos e considera-se “alérgico” às grandes narrativas sobre as características geracionais. Mas concorda com o ponto de vista de Twenge, embora diga que o futuro está repleto de possibilidades.

Quando falámos pela primeira vez, ele disse que não esperava grandes alterações depois da pandemia. Uma semana depois, mudou de ideias.

“O que realmente me impressionou foi perceber que isto se pode arrastar durante pelo menos um ano, provavelmente dois”, diz Felix. “E nestes dois anos, só se vai falar sobre o vírus, a crise económica e a polarização política. É difícil acreditar que algum país vai fazer progressos no combate às alterações climáticas. Serão cerca de dois anos efetivamente perdidos.”

E para além disso? Até agora, o momento mais revelador da pandemia tem sido a enorme resposta que tem sido dada. Os líderes mundiais diziam que mudar os sistemas de energia do planeta seria demasiado dispendioso e disruptivo, mas agora percebe-se que o mundo é, de facto, verdadeiramente capaz de responder a desafios de enorme magnitude.

“Não podemos voltar atrás”, diz Felix Finkbeiner. “Em três curtas semanas, quando impedimos as pessoas de trabalhar, optámos por reduzir o nosso PIB em 10%. Vai ser muito mais difícil afirmar que estas coisas não são possíveis. As expectativas das pessoas sobre o que o governo consegue fazer durante uma crise serão muito mais elevadas.”

Há setenta e cinco anos, o mundo emergiu mais forte de duas guerras mundiais, de uma queda na bolsa de valores e da Grande Depressão. O autoritarismo foi eliminado e a Europa foi reconstruída. Nos EUA, a Segurança Social, criada em 1935, surgiu das profundezas da Grande Depressão e de programas de assistência pública, como o Corpo de Conservação Civil que protegia os recursos naturais e colocou novamente as pessoas a trabalhar. As pessoas da Geração Z com quem conversei acreditam que é possível existir um mundo melhor. Será que isto se pode repetir?
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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