Estes 5 Alimentos Mostram Como o Coronavírus Afetou as Cadeias de Abastecimento nos EUA

Apesar de a procura ter aumentado nos supermercados e nos bancos alimentares, os agricultores são obrigados a deitar leite fora e a deixar legumes apodrecer. Eis porquê.

Monday, May 25, 2020,
Por Sarah Gibbens
Divisórias de plástico separam os imigrantes que trabalham na colheita de alfaces numa quinta em Greenfield, ...

Divisórias de plástico separam os imigrantes que trabalham na colheita de alfaces numa quinta em Greenfield, na Califórnia. A Fresh Harvest, a empresa para a qual  trabalham, está a implementar rigorosas medidas sanitárias e de segurança para impedir a propagação de COVID-19.

Fotografia de Brent Stirton, Getty Images

Eutanásia em massa de gado, milhões de litros de leite desperdiçados, pilhas de legumes frescos a apodrecerem ao sol – as imagens de agricultores a deitarem os seus produtos fora contrastam com as imagens de filas de quilómetros nos bancos alimentares. Mais de 38 milhões de americanos estão agora desempregados, e a insegurança alimentar – que antes da COVID-19 afetava um em cada seis americanos – vai muito provavelmente piorar. Porém, os agricultores dizem que colocar comida nas mãos de quem mais precisa é particularmente difícil e que é algo que está fora do seu controlo.

A American Farm Bureau Federation estima que, nos EUA, apenas 8% das quintas fornecem alimentos localmente. As restantes alimentam uma rede complexa que garante um abastecimento constante de centenas de produtos diferentes para os restaurantes e supermercados de todo o país.

“O que nós temos é um sistema eficiente e de baixo custo que permite uma enorme variedade e atenção aos gostos individuais”, diz Daniel Sumner, economista da Universidade da Califórnia, em Davis.

Os EUA têm duas cadeias de abastecimento relativamente distintas: uma que abastece os supermercados e outra que abastece o setor da restauração. Quando esta última foi obrigada a encerrar, deixou toda uma cadeia de abastecimento no limbo.

Esta realidade é particularmente pronunciada para os cinco alimentos básicos que se seguem, e que ilustram como o sistema alimentar se tornou vítima da sua própria eficiência.

Carne bovina
A demanda por carne bovina aumentou bastante nos supermercados; as vendas aumentaram 92% no final de março, de acordo com a Information Resources, uma empresa de dados que acompanha as vendas a retalho. Mas os restaurantes só começaram agora a reabrir, depois de um longo período de encerramento para conter a disseminação de coronavírus, e isso deixou a indústria de carne sem os seus principais compradores.

De acordo com a Associação Nacional de Pecuária dos EUA, até 2021, os produtores de carne bovina enfrentam prejuízos na ordem dos 13 mil milhões de dólares. Por outro lado, estima-se que a indústria de suinicultura tenha prejuízos de 5 mil milhões de dólares.

Ben Brown, especialista em gestão de riscos agrícolas na Universidade Estadual do Ohio, explica que os produtores de carne bovina têm grupos de consumidores diferentes, e que é muito difícil trocar de mercado rapidamente. “Dizemos que carne é carne, mas carne não é apenas carne” diz Ben.

Alguns produtores abastecem mercados de exportação; mas outros abastecem supermercados, onde é mais provável que os consumidores comprem os produtos a preços mais baixos, como acontece com a carne picada; e alguns abastecem os restaurantes, onde os clientes podem comprar carne de melhor qualidade.

O gado começa a sua vida nas quintas e a grande maioria é comprada por operações intensivas de criação de animais, chamadas currais de engorda, onde os animais engordam antes de serem vendidos às fábricas de embalamento de carne para abate. Existem quatro grandes empresas – Tyson, Cargill, JBS e National Beef – que processam 80% da carne bovina nos EUA.

É nestas fábricas que a cadeia de abastecimento está a ser amplamente interrompida pela COVID-19, a doença provocada pelo vírus. A Food and Environment Reporting Networking diz que, até ao dia 15 de maio, 15.744 trabalhadores de 213 fábricas nos EUA tinham acusado positivo para o coronavírus.

“Esta é uma indústria que não está habituada ao distanciamento social”, diz Ben. “Quando começamos a distanciar os [funcionários], diminuímos a produção.”

O gado criado para o mercado de carne picada costuma ser mais magro do que o gado que geralmente obtém preços mais elevados, e que é mais gordo. Daniel Vaughn, do Texas Monthly, diz que muitos destes bovinos mais gordos estão agora a ser vendidos para o mercado de carne picada, devido à queda na procura por carne de qualidade.

Em geral, o aumento das vendas nos supermercados não foi suficiente para compensar as perdas originadas pelo encerramento de restaurantes e pelas quedas nas exportações. Ben estima que, por cada 10 dólares perdidos devido a estes encerramentos, apenas 3 são recuperados no aumento das vendas a retalho.

Leite

Ricky Jones, gestor de operações da Magic Valley Quality Milk Transport, sai das instalações da empresa enquanto 15.520 litros de leite são desperdiçados. Com as escolas e os restaurantes encerrados por todo o país, os produtores de leite perderam grande parte do seu mercado.

Fotografia de Pat Sutphin, Times-News via AP

O declínio geral na demanda por laticínios nas escolas e na indústria da restauração – que inclui queijo, manteiga e gelados – sobrecarregou os produtores com mais leite do que aquele que conseguem vender, obrigando ao desperdício diário de milhões de litros de leite.

“Em relação aos laticínios, os principais consumidores de leite são as escolas”, diz Ben. “O leite vem naquelas pequenas embalagens, mas quando as escolas encerraram, assistimos a um declínio acentuado no seu consumo.”

Alguns supermercados também limitaram a quantidade de leite que cada cliente pode comprar, uma medida destinada a desencorajar o consumo em excesso. A procura caiu entre 12 e 15%, de acordo com a organização Dairy Farmers of America.

“Os produtores recolhem o leite das vacas e esse leite tem de ser pasteurizado e embalado, respeitando diversos padrões de segurança alimentar”, diz Sumner.

Geralmente, as quintas mais pequenas não conseguem comprar os equipamentos adequados para processar o leite localmente – sem que isso aumente significativamente os preços. “As quintas não conseguem enviar o leite diretamente para as lojas”, diz Sumner.

Os equipamentos de processamento e embalamento especializados podem manter os preços baixos, mas quando uma pandemia global encerra grande parte da economia, este método de produção significa que os produtores de leite, que têm contratos com um comprador – como uma escola, por exemplo – continuam a produzir enormes quantidades de leite todos os dias, mas os seus compradores, que nunca falhavam, cancelaram os contratos.

Ben diz que estes congestionamentos na produção acontecem nos centros de embalamento, depois de o leite ter sido recolhido e pasteurizado. Os centros de processamento, que antigamente embalavam o leite em pequenas embalagens para os estabelecimentos de ensino, não têm estas embalagens em armazém. E nos centros de embalamento, que fazem embalagens para os supermercados, muitas das operações já estão na sua capacidade máxima. Mesmo que os agricultores consigam mudar para as cadeias de abastecimento a retalho, o tempo que demora a estabelecer estes novos contratos também é o suficiente para o leite azedar.

O leite também está a ser desperdiçado porque os restaurantes deixaram de procurar coisas como queijo e manteiga. No entanto, o Departamento de Agricultura dos EUA informa que, à medida que alguns estados começam a reabrir os restaurantes, a procura por estes produtos também começa lentamente a aumentar.

Ovos
A demanda por ovos aumentou em meados de março, quando os estados começaram a emitir os pedidos de confinamento. Isto deu origem a uma escassez de ovos nos supermercados, mas os agricultores com contratos de venda para o setor da restauração enfrentaram dificuldades para encontrar novos compradores.

Ao contrário do que acontece com o leite, os ovos costumam ser produzidos e embalados no mesmo local, embora algumas instalações separem a fase de produção da fase de embalamento. Nas instalações de embalamento, os ovos são separados em lotes enormes para serem enviados aos restaurantes; são embalados em caixas de 12 unidades para os supermercados; ou são transformados em líquido.

“E cerca de 30% dos ovos produzidos nos EUA acabam por ser vendidos em formato líquido”, diz Sumner.

Uma unidade de produção pode especializar-se na produção de ovos que são transformados em líquido e distribuídos a granel, mas como não há muita procura, os agricultores acabam por ficar com enormes contentores cheios de líquido e não têm forma de o vender aos supermercados.

Em muitos casos, a decisão de cortar nos custos é tomada pelas grandes empresas que têm contratos com os agricultores. Uma quinta de ovos líquidos no Minnesota, contratada pela Cargill, teve de eutanasiar 61 mil galinhas porque a Cargill encerrou temporariamente a sua fábrica de liquidificação, e a quinta não podia simplesmente mudar para a venda de ovos no seu formato normal.

“Temos um fator limitador que não é o produto em si”, diz Ben, o que significa que os ovos e a procura pelos mesmos é abundante, mas a logística não está presente. Os produtores que vendem lotes enormes de ovos ao setor alimentar enfrentaram inicialmente uma escassez de caixas de 12 unidades, diz Ben, mas acrescenta que a produção aumentou para responder à demanda.

Batatas

Quando as vendas aos restaurantes colapsaram devido aos encerramentos, a quinta de Ryan Cranney, em Oakley, no Idaho, ofereceu gratuitamente cerca de 225 mil quilos de batatas.

Fotografia de Pat Sutphin, Times-News via AP

As batatas são o vegetal mais popular nos restaurantes dos EUA, graças às diferentes formas como podem ser cortadas, fatiadas, cozidas, salteadas e fritas. À semelhança do que aconteceu com a carne e os laticínios, quando as refeições presenciais nos restaurantes diminuíram, a demanda por batatas também caiu acentuadamente.

De acordo com a agência Reuters, alguns restaurantes de fast food – que antes do surto compravam as suas batatas aos agricultores – cancelaram os seus contratos, criando um excedente de batatas nos EUA, e os armazéns de refrigeração ficaram cheios de batatas.

O Idaho abastece grande parte das batatas aos supermercados norte-americanos, ao passo que as quintas do estado de Washington cultivam batatas com um teor elevado de amido – para fritar, porque incham quando são cozidas.

Uma quinta no Idaho começou a distribuir batatas gratuitamente, e outras quintas seguiram o seu exemplo ou foram forçadas a arar os campos.

Legumes e outros produtos
A demanda recente por carne e laticínios aumentou, mas os legumes e outros produtos frescos não têm tido muita procura nos supermercados, diz Max Teplitski, diretor do departamento científico da Produce Marketing Association e antigo Explorador da National Geographic. Cerca de 60% dos produtos frescos são vendidos a retalho; os outros 40% têm como destino os restaurantes, diz Max.

“As verduras são itens comprados por escolas e hotéis que sofreram um impacto significativo.”

Quando as escolas, os hotéis e os restaurantes encerraram, diz Max, os agricultores que já tinham feito as suas colheitas não tiveram tempo suficiente para encontrar novos compradores – antes de os produtos perecíveis apodrecerem.

“Mesmo que demore três dias para redirecionar a produção, já perdemos produto”, diz Max.

E como a colheita destes produtos representa custos enormes para os agricultores – “quase o custo da produção”, diz Max, alguns agricultores optaram por arar os campos.

Quando questionado sobre as razões pelas quais os agricultores não congelam os seus produtos, Max cita as bagas como um exemplo de um alimento que é cultivado com um fim específico em mente.

“As bagas que são cultivadas para o mercado de produtos frescos são maiores”, e podem ser mais caras. “As mais pequenas são congeladas. Redirecionar as bagas do mercado de produtos frescos para o mercado de produtos congelados, ou para as compotas, é uma enorme perda financeira.”

Muitas quintas de menores dimensões dedicaram-se com sucesso ao abastecimento semanal ou mensal de produtos aos consumidores através do sistema de Agricultura Comunitária (CSA). Max Teplitski diz que isto é mais difícil de conseguir nas quintas de maiores dimensões, porque costumam lidar com grandes encomendas. Um sistema do género CSA não seria viável, diz Max.

Prevenir o desperdício alimentar
O Departamento de Agricultura dos EUA criou o Programa de Assistência Alimentar Coronavírus (CFAP), no valor de 19 mil milhões de dólares, para auxiliar os agricultores, e parte deste programa passa pelo envio de comida para os bancos alimentares, para as igrejas e para outras organizações sem fins lucrativos.

Apesar de oferecer ajuda no imediato, o CFAP não faz com que as cadeias de abastecimento de alimentos sejam menos vulneráveis à escassez e ao desperdício – isto no caso de outra disrupção de grandes dimensões atingir o setor alimentar.

Na Universidade Estadual do Ohio, Ben Brown e outros economistas agrícolas estão a delinear planos de contingência que, esperam eles, consigam ajudar os agricultores a prepararem-se para futuros desastres.

Ben diz que este ano os agricultores enfrentam uma pandemia global, mas em 2019, a época de cultivo da primavera no Centro-Oeste dos EUA foi afetada pelas chuvas históricas, que podem ser atribuídas em parte às alterações climáticas. E em 2018, os agricultores da mesma região foram afetados pela guerra comercial com a China, com os produtores de soja a serem os mais atingidos.

“Os desastres podem ser diferentes”, diz Ben, “mas os processos e a forma como encaramos a resiliência são os mesmos”.

William Masters, economista agrícola da Universidade Tufts, diz que a melhor forma de tornar a cadeia de abastecimento alimentar resiliente a uma pandemia é tornar também a economia, como um todo, mais resiliente. Isto envolve, em parte, a reabertura do setor da restauração com cuidado e segurança.

Por outras palavras, manter a demanda intacta, impedindo em primeiro lugar que um vírus se torne tão devastador. Se fizermos tudo o que é possível para manter este vírus sob controlo, conseguimos proteger as cadeias de abastecimento, diz William.

“Temos de aumentar o número de testes, rastrear os contactos das pessoas infetadas e apoiar o isolamento das pessoas que transmitem o vírus. É esta a forma de ter um sistema alimentar e uma economia que sejam resistentes às doenças infecciosas”, afirma William Masters.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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