‘Fadiga Zoom’ – Videochamadas em Excesso e os Efeitos no Cérebro

As videochamadas parecem ser uma solução elegante para o teletrabalho, mas desgastam a mente de formas complicadas.

Thursday, May 7, 2020,
Por Julia Sklar
O aumento sem precedentes das videochamadas, devido à pandemia, deu origem a uma experiência social informal.

O aumento sem precedentes das videochamadas, devido à pandemia, deu origem a uma experiência social informal.

Fotografia de BENJAMIN RASMUSSEN

Jodi Eichler-Levine terminou de dar uma aula na aplicação Zoom, no dia 15 de abril, e adormeceu imediatamente no quarto de hóspedes – divisão que também serve de escritório. Esta professora de estudos religiosos da Universidade de Lehigh, na Pensilvânia, diz que, apesar de o ensino ser sempre exaustivo, nunca tinha “desmaiado” desta forma.

Até recentemente, Jodi dava aulas presenciais que estavam repletas de pessoas cujas emoções ela conseguia facilmente avaliar, mesmo quando falavam de tópicos mais sensíveis – como a escravatura ou o Holocausto – que exigem níveis mais elevados de subtileza e empatia. Agora, tal como acontece com inúmeras pessoas um pouco por todo o mundo, a pandemia de COVID-19 empurrou a sua vida para o espaço virtual. Para além de ensinar à distância, Jodi frequenta semanalmente um encontro do seu departamento onde faz uma noite de artesanato entre amigos e um jantar cerimonial judaico – tudo através da aplicação de videoconferências Zoom. Mas esta experiência está a ter o seu custo.

Fotografia de Benjamin Rasmussen

“Parece que temos de ser muito mais expressivos, porque somos apenas um pequeno quadrado num ecrã”, diz Jodi. “Estou completamente exausta.”

Há muitas pessoas que dizem estar a passar por experiências semelhantes, tanto que a situação até tem uma denominação própria, “Fadiga Zoom”, embora esta exaustão também se aplique a quem usa o Google Hangouts, o Skype, o FaceTime ou qualquer outra aplicação de videochamadas. O aumento sem precedentes das videochamadas, em resposta à pandemia, deu origem a uma experiência social informal que mostra com uma escala populacional o que já se sabe há algum tempo: as interações virtuais podem ser muito extenuantes para o cérebro.

    

Fotografia de BENJAMIN RASMUSSEN

“Há muitos estudos que mostram que temos problemas em lidar com isto”, diz Andrew Franklin, professor assistente de ciberpsicologia na Universidade Estadual de Norfolk, na Virginia. Franklin diz que as pessoas podem ficar surpreendidas com os problemas que encontram nas videochamadas, dado que o meio parece estar bem confinado a um pequeno ecrã e apresenta poucas distrações óbvias.

Desvantagens Zoom
Os humanos comunicam mesmo quando não estão a falar. Durante uma conversa presencial, o cérebro concentra-se parcialmente nas palavras que são ditas, mas também capta sinais adicionais de dezenas de sugestões não verbais. O cérebro deteta se alguém está a olhar para nós, se a outra pessoa se afasta ligeiramente, ou se está inquieta enquanto falamos, e também deteta se o outro interlocutor inspira rapidamente, em preparação para interromper a conversa.

Fotografia de Benjamin Rasmussen

Estes sinais ajudam a criar uma imagem do que está a ser transmitido e do que se espera em termos de resposta do ouvinte. Os humanos evoluíram enquanto animais sociais e a deteção destes sinais é um processo natural para muitos de nós, um processo que requer pouco esforço consciente para analisar e que pode estabelecer as bases para uma intimidade emocional.

Porém, numa videochamada, estas capacidades enraizadas são deturpadas e requerem uma atenção constante e exigente que depende apenas das palavras. Se uma pessoa estiver enquadrada na imagem apenas dos ombros para cima, a possibilidade de descortinar os gestos das mãos ou outra linguagem corporal é eliminada. E se a qualidade do vídeo for má, não é possível depreender algo a partir de pequenas expressões faciais.

“Para alguém que depende realmente destes sinais não verbais, pode ser muito extenuante não os ter”, diz Franklin. O contacto visual prolongado tornou-se o indicador mais forte e pode parecer ameaçador ou excessivamente íntimo se for mantido durante muito tempo.

Um ecrã com várias pessoas enfatiza estas questões. A visualização em modo galeria – onde todos os participantes de uma reunião aparecem dentro de pequenos quadrados – é um desafio para a visão central do cérebro, porque obriga o cérebro a descodificar tantas pessoas ao mesmo tempo que ninguém transmite algo de significativo, nem mesmo quem está a falar.

    

Fotografia de BENJAMIN RASMUSSEN

“Estamos envolvidos em inúmeras atividades, mas nunca nos dedicamos por completo a uma em particular”, diz Franklin. Os psicólogos denominam esta situação de “atenção parcial contínua” e aplica-se tanto aos ambientes virtuais como aos reais. Pense em como seria difícil cozinhar e ler ao mesmo tempo. Este é o tipo de multitarefa que o nosso cérebro tenta fazer, e geralmente falha, quando estamos envolvidos numa videochamada em grupo.

Isto origina problemas onde as videochamadas em grupo se tornam menos colaborativas e ficam mais parecidas com conversas isoladas, onde apenas duas pessoas conversam e as outras ouvem. Mas como todos os participantes usam faixas de áudio e estão cientes de todas as outras vozes, é impossível ter conversas paralelas. Se olharmos apenas para um único orador, não conseguimos perceber como é que os outros participantes se estão a comportar – algo que normalmente conseguimos captar presencialmente com a nossa visão periférica.

Para algumas pessoas, esta divisão prolongada de atenção cria uma sensação desconcertante de exaustão, mesmo sem se ter produzido nada. O cérebro fica sobrecarregado pelo excesso de estímulos desconhecidos, ao mesmo tempo que se tenta concentrar para encontrar pistas não verbais que não consegue encontrar.

É por esta razão que uma simples chamada telefónica não é tão exigente para o cérebro, diz Franklin, porque recai sobre uma premissa básica: ouvir apenas uma voz.

Benefícios Zoom
Por outro lado, esta alteração repentina para as videochamadas tem trazido benefícios para as pessoas que têm dificuldades neurológicas em lidar com contactos pessoais, como as pessoas com autismo que podem ficar sobrecarregadas quando ouvem várias pessoas a falar ao mesmo tempo.

John Upton, editor do site de notícias Climate Central, sediado em Nova Jersey, descobriu recentemente que é autista. No final do ano passado, Upton estava a ter dificuldades em lidar com a carga mental de ter de participar pessoalmente em conferências com muitas pessoas, em reuniões e até em participar nas conversas normais no local de trabalho. Upton diz que estas experiências “provocaram uma tensão ambígua que se manifestou sob a forma de ansiedade”.

Se nos sentirmos inseguros ou demasiado estimulados, devemos desligar a câmara e poupar as energias para quando queremos mesmo detetar os poucos sinais não verbais que são percetíveis.

Fotografia de Benjamin Rasmussen

Devido a tudo isto, Upton sofreu um “esgotamento autista” e começou a ter dificuldade em processar informações complexas – algo que, segundo ele, é um dos seus pontos fortes – ficando com uma sensação de desamparo e futilidade. Para combater o problema, Upton começou a trabalhar gradualmente a partir de casa e a agrupar todas as reuniões presenciais para as quintas-feiras, para despachar tudo de uma vez.

Agora que a pandemia também colocou os seus colegas em teletrabalho, Upton diz que as videochamadas fazem com que haja menos conversa fútil no início e no final de cada reunião. E diz que as sensações de tensão e ansiedade foram reduzidas ao ponto de se tornarem insignificantes.

Este resultado é suportado por investigações, diz Claude Normand, da Universidade Quebec Outaouais, que estuda a forma como as pessoas com deficiências intelectuais e de desenvolvimento socializam online. Quando estão numa conversa presencial, as pessoas com autismo tendem a ter dificuldades em compreender quando é a sua vez de falar. É por isso que os atrasos que acontecem frequentemente nas videochamadas, devido às ligações online, podem ajudar algumas pessoas com autismo. “Quando estamos a falar online pela aplicação Zoom, é fácil perceber quando é que chegou a vez de alguém falar”, diz Normand.

Contudo, existem outras pessoas no espectro do autismo que podem ter dificuldades com as videochamadas, porque podem exacerbar estímulos sensoriais, como ruídos muito altos e luzes brilhantes, acrescenta Normand.

No geral, as videochamadas permitem contactos de formas que seriam impossíveis há apenas alguns anos. Estas ferramentas permitem-nos manter relações de longa distância, manter a ligação com o trabalho e, neste momento, independentemente da exaustão mental que possam provocar, promovem uma sensação de união durante a pandemia.

É também possível que esta “Fadiga Zoom” diminua quando as pessoas aprenderem a lidar com o desgaste mental que as videochamadas podem provocar. Normand recomenda: Se nos sentirmos inseguros ou demasiado estimulados, devemos desligar a câmara e poupar as energias para quando queremos mesmo detetar os poucos sinais não verbais que são percetíveis, sobretudo durante conversas mais incómodas sobre impostos, ou algo parecido, com pessoas que não conhecemos bem, ou para quando nos queremos alegrar quando vemos alguém que amamos. Ou então, se tivermos uma reunião de trabalho que pode ser feita por telefone, podemos tentar fazer uma caminhada enquanto fazemos essa chamada.

“É sabido que as reuniões feitas durante caminhadas melhoram a criatividade, e provavelmente também reduzem o stress”, diz Normand.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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