Apesar da Pandemia, Algumas Pessoas Não Resistem a Multidões. Porquê?

Podemos culpar a evolução por este impulso que nos leva a socializar – mesmo com os riscos apresentados pela COVID-19.

Monday, June 29, 2020,
Por Rebecca Renner
Clientes sentados em esplanadas de restaurantes que foram instaladas ao ar livre em ambos os lados ...

Clientes sentados em esplanadas de restaurantes que foram instaladas ao ar livre em ambos os lados de Newton Lane, em East Hampton, Nova Iorque, no dia 13 de junho de 2020.

Fotografia de Karsten Moran, The New York Times via Redux

A caminho de um protesto Black Lives Matter no início de junho, em Milwaukee, no Wisconsin, Jodyann e o seu noivo passaram por mesa atrás mesa com pessoas a jantar em esplanadas ao ar livre. Apesar das ordens de confinamento, as ruas de Milwaukee estavam apinhadas de manifestantes que queriam gritar bem alto contra a brutalidade policial – enquanto outras pessoas comiam tranquilamente a sua refeição. Mas todos estavam a arriscar a saúde expondo-se uns aos outros.

“A situação da pandemia por si só faz com que não queiramos estar num espaço com milhares de outras pessoas”, diz Jodyann, afro-americana que participou em alguns protestos este ano. Para Jodyann e muitos outros manifestantes, fazer a diferença pela sociedade vale o risco. Mas, com a pandemia de COVID-19 ainda a dominar o mundo e com dezenas de milhares de novos casos a surgirem todos os dias, a escolha de protestar, jantar fora ou participar noutras reuniões sociais é complicada. A negação de que a doença nos pode afetar desempenha um papel importante em algumas destas decisões, mas mesmo as pessoas que reconhecem o perigo de contrair o coronavírus continuam a arriscar a vida com interações sociais. Este fator que nos impele a socializar pode dever-se a um paradoxo evolutivo.


Há milhões de anos, os nossos antepassados primatas encontraram segurança na cooperação, desenvolvendo estruturas sociais que os protegiam dos predadores e que aumentavam não só as suas probabilidades de sobrevivência, mas também as dos seus filhos. À medida que as comunidades primitivas de primatas se tornaram mais complexas, o cérebro dos nossos antepassados também evoluiu e desenvolveu mecanismos para processar as interações e recompensar o comportamento social com ciclos neuroquímicos positivos.

“Superar o desejo primordial de socializar significa ir contra milénios de evolução.”

A interação social foi fundamental para a sobrevivência dos nossos antepassados desde a época do Plioceno, há milhões de anos, pelo que o cérebro humano pode estar projetado para estar dependente destas interações. Superar o desejo primordial de socializar significa ir contra milénios de evolução.

“Somos intensamente sociais, como todos os macacos e símios”, diz Robin Dunbar, antropólogo evolucionário da Universidade de Oxford. “Dependemos da cooperação ao nível de grupo para resolver os problemas de sobrevivência do quotidiano e para conseguir reproduzir. Essa é, acima de tudo, a adaptação dos primatas.”

Durante esta pandemia o coronavírus capitalizou na nossa dependência de interações sociais para propagar a doença. Mas dentro deste mesmo impulso evolucionário existe um fator que pode facilitar o distanciamento social: à medida que os primatas evoluíram para os humanos, também desenvolveram uma propensão para o altruísmo e para a proteção de terceiros.

Como os humanos se tornaram sociais
Há cerca de 52 milhões de anos, com os grandes dinossauros predadores fora de cena, os nossos antepassados primatas noturnos começaram a esgueirar-se durante o dia. No entanto, os predadores de mamíferos, como o Mesonyx – um carnívoro parecido com um tigre – estavam à espreita, pelo que os primatas solitários encontraram segurança na quantidade e começaram a unir-se para formarem grupos sociais livres.

Com o passar do tempo, os nossos antepassados tornaram-se mais sociais, não só procurando comida ou caçando em conjunto, mas também cuidando uns dos outros e, por vezes, criando os seus filhos em comunidade. Os primatas que não praticaram estes comportamentos sociais não beneficiaram da proteção das comunidades e foram poucos os que viveram tempo suficiente para transmitir os seus genes. Quando um comportamento aumenta as probabilidades de sobrevivência de um animal, esse comportamento pode tornar-se numa característica herdada e, depois de muitas gerações, os filhos praticam esse comportamento de forma instintiva, ou morrem.

Os comportamentos sociais fortaleceram as comunidades de primatas e ofereceram proteção aos membros individuais de cada grupo – e foram passados de pais para filhos, consolidando-se gradualmente no código genético dos primatas. Os humanos modernos mantêm muitos destes comportamentos.

Um deles passa pela higiene entre membros do grupo, que exige algo que Dunbar chama de elevado custo de tempo, dado que os primatas dedicam algumas horas por dia a este comportamento. Mas o tempo que os primatas dedicam a limparem-se uns aos outros é uma demonstração do seu investimento no grupo, reforçando vínculos e uma hierarquia social. Quanto mais próximas forem estas relações, mais benefícios representam para a sobrevivência individual. Os chimpanzés, por exemplo, têm mais propensão para partilhar alimentos com os parceiros de limpeza. A evolução reforçou estes hábitos – resultando numa sensação de gratificação. A limpeza estimula a libertação de endorfinas, neuroquímicos que reduzem a dor ou que nos fazem sentir mais relaxados ou levemente energizados.

Os humanos modernos têm nervos especializados – ou sistema tátil C aferente – que respondem aos mesmos movimentos suaves e lentos que os nossos antepassados primatas usavam para se limparem. Este comportamento ainda tem vestígios nos nossos pequenos gestos, como quando as mães brincam com os cabelos dos seus filhos.

“Obviamente, não temos muito pelo para as outras pessoas limparem, como fazem os primatas”, diz Dunbar. “Por isso, adaptámos comportamentos de afeto e carinho para produzir o mesmo efeito.”

À medida que o cérebro dos nossos antepassados começou a aumentar de tamanho, os grupos também aumentaram em número e as sociedades evoluíram, mas os indivíduos nestes grupos já não tinham o tempo necessário para cuidar de todos na sua esfera pessoal. Por isso, desenvolveram comportamentos sociais novos que também desencadeavam endorfinas, permitindo a relação com grupos maiores. De acordo com a investigação de Dunbar, estes comportamentos incluem rir, cantar, dançar, comer socialmente e, na história mais recente, os rituais religiosos e o consumo de álcool em grupo.

As endorfinas produzidas pelos nossos comportamentos sociais estão quimicamente relacionadas com a morfina, sendo assim possível ficar-se viciado neste tipo de sensações. Gostamos de nos divertir e de jantar com os amigos porque isso ativa estas vias de gratificação no cérebro, e faz com que queiramos manter estes comportamentos. Mas o sistema endócrino não atua sozinho.

“Qualquer coisa que ative o sistema endócrino também ativa o sistema de dopamina”, diz Dunbar sobre a via de gratificação no cérebro que desempenha um papel na motivação, no controlo de motricidade e numa variedade de outras funções neurológicas. “A dopamina dá-nos uma sensação de entusiasmo, e isso torna-se viciante até certo ponto.” Por outras palavras, é possível que algumas das pessoas que continuam a socializar, apesar do perigo apresentado pela pandemia, estejam viciadas nas recompensas psicológicas e neuroquímicas que obtêm deste tipo de comportamento social.

Partilhar é cuidar
Outro dos fatores passa pelo desejo humano básico de partilhar recursos e experiências, diz Michael Tomasello, psicólogo evolucionário e professor na Universidade Duke, em Durham, na Carolina do Norte. “As crianças, antes de conseguirem falar, já apontam para um pássaro numa árvore para olharmos para ele. Precisamos de partilhar as nossas experiências.”

De acordo com um estudo de 2014 de Tomasello, este desejo deriva dos benefícios evolutivos da cooperação, da colaboração e, eventualmente, da cultura. Os estudos feitos sobre as técnicas de forrageio dos chimpanzés sugerem que o último antepassado comum dos humanos forrageou cooperativamente com outros primatas. Mais tarde, os humanos deram um passo em frente na sua disposição de partilhar os despojos com membros do grupo que não participavam numa saída para caçar ou para apanhar comida.

Alguns investigadores, incluindo Tomasello e a primatóloga Joan Silk, da Universidade Estadual do Arizona, acreditam que os humanos são muito mais altruístas do que os nossos parentes primatas. Nas sociedades humanas, partilhamos alimentos e dividimos o trabalho, mesmo quando isso não nos beneficia de forma imediata. Somos motivados pela empatia. Esta mudança no comportamento pode ter sido precipitada pelas alterações ecológicas e ambientais que deram origem à escassez de alimentos. “Era colaborar ou morrer”, escreveu Tomasello no seu trabalho.

“Para os humanos modernos, abdicar da gratificação das atividades de interação social e das experiências partilhadas significa lutar contra impulsos primordiais. Mas não é impossível.”

De acordo com um estudo feito por Joan Silk e Bailey House, psicólogo evolucionário, a generosidade humana tem os seus limites, e é mais provável que adotemos uma atitude altruísta perante outros se já tivermos uma ligação social ou cultural pré-estabelecida, sobretudo se acharmos que algum dia isso poderá resultar numa retribuição.

À medida que a competição entre grupos de humanos começou a aumentar, os nossos antepassados começaram a partilhar seletivamente os conhecimentos que os podiam proteger de predadores ou forasteiros. E desenvolveram a capacidade de estabelecer objetivos em conjunto, trabalhando em união e tornando-se dependentes uns dos outros para sobreviver.

“Se formos caçar antílopes e eu apontar para uma vara que pode servir de lança, e se já caçámos juntos, você percebe o que quero dizer”, diz Tomasello. “Você pega na lança e continuamos. Acredito que este conhecimento partilhado, que está enraizado nas experiências comunitárias, é a origem da cultura humana.”

Mitigar a dependência social
Para os humanos modernos, abdicar da gratificação das atividades de interação social e das experiências partilhadas significa lutar contra impulsos primordiais. Mas não é impossível.

Tomasello diz que as redes sociais são um exemplo da nossa necessidade de partilhar. Embora as ligações digitais não estejam perto da experiência presencial – não podemos abraçar alguém online para despertar determinadas endorfinas – as redes sociais podem ser usadas para explorar as mesmas vias de gratificação que ajudaram a construir os laços sociais dos nossos antepassados. Uma reunião digital para falar, para brincar ou para partilhar uma refeição durante uma videochamada pode ativar as mesmas vias de endorfina de uma noite passada com os amigos. Mas devemos ter cuidado para não exagerar nestes encontros digitais, porque isso também pode ter efeitos de desgaste.

O verdadeiro obstáculo reside na superação do vício psicológico de um determinado comportamento, como interromper o hábito de sair, mas também é possível, diz Dunbar. As redes sociais podem fortalecer os vínculos que já temos, mas também podemos usar estes espaços online para irmos para além dos nossos pequenos grupos de afinidade ou sociais, participando em conversas globais em plataformas como o Twitter e TikTok.

A ligação com pessoas de fora da nossa esfera habitual é crucial neste momento de crise, porque nos ajuda a formar laços com pessoas que não são como nós, diz Dunbar. Quando criamos estes laços, ficamos equipados com as ferramentas para agir de forma altruísta, porque os nossos cérebros primordiais não respondem a estes novos amigos como se fossem estranhos, mas sim como se fossem parentes. Talvez a construção deste tipo de empatia nos possa ajudar a ir contra os impulsos evolutivos, fazendo com que a proteção de outras pessoas seja uma escolha muito mais fácil.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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