As Piscinas Provavelmente São Seguras. É com as Pessoas que Temos de nos Preocupar.

À medida que o verão se aproxima, as pessoas envolvidas nos desportos aquáticos estão a tentar encontrar formas criativas para lidar com os desafios da crise de coronavírus.

Monday, June 1, 2020,
Por Cynthia Gorney
Michael Andrew, nadador olímpico dos EUA, é treinado pelo seu pai numa piscina residencial em San ...

Michael Andrew, nadador olímpico dos EUA, é treinado pelo seu pai numa piscina residencial em San Diego, na Califórnia. A pandemia de COVID-19 alterou as rotinas dos atletas de topo e dos nadadores recreativos.

Fotografia de Sean M. Haffey, Getty Images

A pandemia afetou não só quem pratica natação regularmente, mas também quem faz exercícios aquáticos e pessoas com problemas de costas que dependem da água para aliviar as suas dores em segurança. Tirando as pessoas que têm uma piscina em casa – se for esse o caso, os nadadores menos afortunados desejam-lhe felicidades, enquanto o invejam um pouco – as rotinas foram alteradas para todos em março: sem piscinas públicas, sem clubes de natação e outros. Talvez possamos passear pelo bairro ou andar de bicicleta: estamos gratos, sim, mas não é a mesma coisa.

Os nossos ombros estão tristes e os nossos braços querem fazer força na água, porque é uma sensação diferente de todas as outras, e para muitos de nós também é uma atividade viciante. O verão está aí à porta. Quanto tempo é que temos de esperar mais? E será que existe algum coronavírus submerso à espera para nos infetar?

Imagine Dan Berzansky, nadador de competição e fundador da Premier Aquatic Services, parado num dia de calor junto aos portões de uma piscina no sul da Califórnia. Ele está de calções e tem um polo vestido, a sua indumentária normal de trabalho ao ar livre. A olhar para Dan, à espera de sinal para avançar, estão quatro casais com toalhas na mão, ao lado dos seus filhos impacientes, todos com fatos de banho vestidos por baixo das roupas para não passarem pelos balneários. Dan Berzansky é dono de uma empresa que dá aulas de natação e faz formação de salva-vidas em piscinas geridas por bairros e associações de proprietários de imóveis; mais de uma dezena de piscinas fizeram a sua reabertura provisória em maio, e Dan é o responsável pela segurança. Os desafios que ele tem enfrentado estão na agenda imediata de todos os gestores de parques aquáticos, monitores de natação e especialistas em segurança aquática de todo o mundo.

Este cartaz promove a natação como uma forma saudável de exercício, se for praticada em piscinas limpas.

Fotografia de Library of Congress

Dan Berzansky tem uma folha na mão que diz “COVID-19 REGRAS DA PISCINA”.

Não importa se as pessoas já ouviram isto, explica Dan; quem entra na piscina tem sempre de ouvir. “Lembre-se de que reservou um período de 45 minutos para utilizar a piscina. Se quiser usar os balneários, algo que não recomendamos, utilize tempo do seu período de 45 minutos.”

As regras escritas na folha abordam seis pontos, o último ponto tem um aviso geral: “Quem entra na piscina conhece os riscos associados a estar em público durante a pandemia de COVID”. As regras de distanciamento social continuam a aplicar-se; e todos os grupos de agregados familiares devem manter a sua zona da piscina seccionada, a pelo menos um metro e oitenta de distância de outros grupos, com cordas para separar cada zona. Para nadar à volta da piscina, as cordas devem ser reorganizadas longitudinalmente, uma pessoa por faixa, 45 minutos no máximo. Não é permitida a entrada a pessoas com risco de exposição ou sintomas de COVID-19, incluindo perda recente de olfato ou paladar. A água da piscina está limpa – tópico que abordaremos a seguir – mas qualquer coisa que possa ter sido tocada do lado de fora da água será limpa de hora a hora por salva-vidas cujo treino formal não incluí a desinfeção das escadas da piscina ou das espreguiçadeiras.

Dan Berzansky contou-nos tudo isto alguns dias depois através de um telefonema adequadamente distanciado, e ele parecia igualmente resignado e determinado. “Temos de ser muito criativos. Basicamente, dizemos que os chuveiros estão fechados, mas as casas de banho estão abertas para utilizações de emergência. A verdade é que as pessoas só têm 45 minutos e não vão querer perder tempo na casa de banho.”

Como não existem regras que se apliquem a nível nacional nas áreas de natação dos Estados Unidos – as piscinas, lagos e praias operam sob diferentes níveis de autoridades locais e estaduais – existe muita criatividade com o aproximar do verão, assim como informações que se contradizem.

O estado da Flórida manteve as suas praias abertas em março, mas acabou por as encerrar devido às inúmeras críticas relacionadas com as imagens de multidões; em finais de maio, o estado disse que as praias podiam reabrir, mas alguns condados disseram que não. O Texas diz que as piscinas podem abrir; mas em algumas cidades, como em Fort Worth, as autoridades dizem que ainda não.

Na cidade de Nova Iorque, Bill de Blasio proibiu as atividades de natação nas praias, pelo menos durante o Memorial Day; nenhum salva-vidas estará presente, dizia o seu comunicado. (E se as pessoas forem para a água na mesma? “As pessoas não podem nadar em áreas que não estejam protegidas por salva-vidas”, respondeu por email um porta-voz do departamento de parques da cidade. “Teremos a polícia de Nova Iorque e os guardas dos parques nas praias para nos assegurarmos de que as regras serão cumpridas.”)

Na Carolina do Sul, onde as diretrizes estaduais permitiram a reabertura das piscinas – com distanciamento social obrigatório, desinfeção frequente e assim por diante – existem abordagens diferentes de cidade para cidade. “Às seis da manhã, as pessoas mais velhas podem nadar durante uma hora, das 7:00 às 7:30, limpamos”, diz Brenda Rindge, coordenadora de atividades aquáticas de North Charleston, detalhando o cronograma que ajudou a preparar para a reabertura de uma piscina de 50 metros. “Das 7:30 às 10:00, entra a equipa de natação juvenil. Das 10:00 às 10:30, limpamos.”

Dá para perceber a ideia. Isto continua assim durante todo o dia, como se fosse uma propriedade do século XIX onde a equipa de limpeza entrava em todas as divisões assim que estas ficavam desocupadas, mas permite que as pessoas possam nadar.

No Alasca, onde uma ordem estadual encerrou as piscinas públicas em março, o treinador de uma equipa de natação, chamado Cliff Murray, recebeu permissão da cidade para reiniciar os treinos numa piscina em Anchorage – porque Murray e alguns voluntários fizeram umas divisórias caseiras de plástico para pendurar entre cada faixa de natação. “Eu estava na loja de ferragens do Lowe, com a minha máscara na cara, e o empregado estava atrás de uma divisória de plástico sem máscara”, disse Murray – um dia depois do primeiro treino de natação com as divisórias. “Apercebi-me que aquilo era algo que eu podia usar.”

Como é que tem corrido? Razoavelmente bem, disse Murray; a equipa de natação Northern Lights da cidade é a única que tem usado a piscina até agora, não o público em geral, mas os nadadores estão muito entusiasmados – não só por estarem uns com os outros, mas também por estarem de regresso à água. “Mesmo que estejamos a falar através de uma divisória de plástico, é muito melhor do que falar pelo FaceTime ou Zoom. Ontem vi muitos sorrisos rasgados.”

“Mesmo que estejamos a falar através de uma divisória de plástico, é muito melhor do que falar pelo FaceTime ou Zoom. Ontem vi muitos sorrisos rasgados.”

por CLIFF MURRAY, TREINADOR DE NATAÇÃO

Não é com a água que as pessoas se devem preocupar. Pelo menos tendo em conta o que os investigadores sabem até agora sobre o vírus SARS-CoV-2 – porque é uma nova variante – ou seja, o cloro e outros desinfetantes usados nas piscinas fazem um excelente trabalho na eliminação deste coronavírus, tal como acontece com os seus antecessores mais conhecidos, incluindo o vírus da poliomielite.

Nos lagos e nos oceanos, a diluição do vírus na água também parece limitar a transmissibilidade. O epidemiologista da Universidade da Carolina do Norte, David Weber, que estudou a sobrevivência dos coronavírus animais nos esgotos e em águas residuais, diz não conhecer nenhum trabalho que examine especificamente o que acontece com este tipo de patógeno na água salgada – mas diz que nadar junto à costa não deve apresentar risco de infeção. “Estou mais preocupado em estar sentado na praia com outras pessoas por perto a beberem os seus cocktails sem máscara”, diz Weber. “Esse é um risco muito, muito maior.”

Por outras palavras, os problemas da proximidade humana. Para alguns nadadores mais meditativos a ironia da situação é quase insuportável; porque dependem do isolamento que conseguem apenas a umas dezenas de metros da costa, com o resto do mundo aparentemente inacessível. Mas há demasiadas pessoas para evitar quando regressam a terra, muitas gotículas e outras coisas potencialmente infecciosas, pelo que as pessoas como o californiano Dan Berzansky ainda têm muitas decisões difíceis pela frente.

E não nos podemos esquecer das brincadeiras das crianças, que correm por todo lado aos gritos. E como é que os jovens salva-vidas poderão fazer a sua formação sem se poderem aproximar das pessoas para os treinos de resgate e reanimação cardiopulmonar? E as aulas de natação, que tendem a agrupar as crianças junto às paredes das piscinas, com os instrutores a ajudarem as crianças mais pequenas e assustadas?

“Estamos a alterar as coisas para termos um instrutor por criança”, diz Dan. “E vamos dar aulas com máscara.” Dan diz que também vão comprar manequins para os treinos de formação de salva-vidas. “Não é a mesma coisa, mas é o melhor que conseguimos fazer.”

Dan Berzansky também trabalha com uma organização sem fins lucrativos chamada Stop Drowning Now e diz estar chocado com a perspetiva de perder meses de aulas de natação – incluindo programas nas salas de aula de escolas primárias em que as crianças aprendem o básico sobre como se manterem em segurança perto da água. “Ensinamos dezenas de milhares de crianças por ano e agora não temos acesso a nenhuma. Estamos desesperados para educar mais crianças.”

Em relação aos atletas, que deviam estar agora a entrar na sua época de torneios, está tudo parado. Nem sequer os famosos póneis de Chincoteague terão o seu grande evento de natação – pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, disseram os organizadores. A prova anual de natação de póneis no Canal Assateague da Virgínia foi suspenso. A USA Swimming, organização que conta com centenas de milhares de jovens de ligas locais e atletas nacionais, cancelou as provas para os Jogos Olímpicos em março, imediatamente a seguir ao adiamento dos Jogos Olímpicos de Tóquio. O diretor administrativo do departamento de natação dos EUA, Joel Shinofeld, diz que a interdição do basquetebol profissional foi o suficiente para o convencer, e aos seus colegas, de que os riscos fora da água eram demasiado elevados. “Quando vimos a NBA a tomar medidas, foi um sinal para todos nós”, diz Joel.

Nos EUA, todas as ligas de natação cancelaram as suas épocas de competição; e alguns dos nadadores que Brenda Rindge supervisiona em North Charleston fazem parte de uma liga comemorativa de 22 equipas que tem sido um destaque regional no verão durante meio século. Mas não este ano. São demasiadas crianças, demasiados espetadores para entrar em espaços confinados, mesmo que seja ao ar livre.

“Sabemos que vai ser difícil”, diz Joel. No início de maio, a USA Swimming enviou uma lista detalhada de sugestões para as equipas que planeiam retomar as sessões de treinos; Joel Shinofeld liderou a criação das diretrizes que estabelecem as regras, assim como o documento de aviso para as piscinas que Dan Berzansky tinha nas mãos. (Tomar o duche em casa. Não usar os balneários. Não formar grupos. Não apertar as mãos, não usar cumprimentos de contacto.)

Também existem diagramas no plano de diretrizes que mostram aos treinadores como devem separar os nadadores – um em cada canto, mantendo-os afastados – e a questão que se segue parece evidente: para as crianças que se querem apenas divertir, os nadadores que não se regem pela fome de medalhas mas sim pela grande diversão de nadarem juntos, quais são as perspetivas para este verão?

“É uma questão pertinente”, diz Joel.

No início, ele e outros membros da USA Swimming pensaram que as crianças mais velhas iriam dar o exemplo às mais novas, sobretudo no funcionamento das práticas de distanciamento social; mas estavam errados. “As crianças mais velhas têm mais dificuldades porque se abraçam.” Mas existem encontros sociais e exercícios em terra firme feitos por Zoom – e, como os treinadores de Anchorage verificaram, também há a alegria de as crianças verem um rosto amigável na faixa de natação ao lado, mesmo que separadas por uma divisória de plástico. “De momento, acredito que, tal como em tudo o resto, a diversão chega em diferentes estágios”, diz Joel Shinofeld. “E de várias formas.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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