De Gás Lacrimogéneo a Balas de Borracha, Eis o que as Armas ‘Não Letais’ Podem Fazer ao Corpo Humano

Quando são mal utilizadas, as armas não letais podem fraturar ossos, queimar a pele e provocar ferimentos internos. Eis como estas lesões mais graves podem acontecer e como nos podemos proteger.

Tuesday, June 9, 2020,
Por Amy McKeever
Perto do Capitólio do Estado do Colorado, polícias pulverizam uma mulher com gás pimenta, enquanto os ...

Perto do Capitólio do Estado do Colorado, polícias pulverizam uma mulher com gás pimenta, enquanto os protestos contra a morte de George Floyd continuam pela terceira noite consecutiva, no dia 30 de maio de 2020, em Denver, no Colorado.

Fotografia de Michael Ciaglo, Getty Images


A agitação civil que se seguiu à morte de George Floyd espalhou-se pelo mundo inteiro e, em alguns sítios, os manifestantes estão a ser recebidos com gás lacrimogéneo, balas de borracha, armas de choques elétricos e por outras táticas destinadas ao controlo de multidões sem a perda de vidas.

Conhecidas por armas não letais, ou menos letais, muitas destas táticas foram originalmente sugeridas como uma forma de tornar a guerra mais humana – incapacitando uma pessoa ou incentivando-a a fugir. Mais tarde, as autoridades adotaram estas armas aos militares como uma alternativa à utilização de armas de fogo.

No entanto, as pessoas que estudam as armas não letais questionam se esta classificação estará correta, dado que as investigações continuam a revelar os efeitos prejudiciais que têm no corpo humano. Quando são mal utilizadas, estas armas fraturam ossos, queimam a pele e provocam ferimentos internos que podem ser fatais. Eis um olhar sobre quando e como é que estas lesões podem acontecer com armas não letais, e o que as pessoas podem fazer para se proteger.

Ataques químicos: gás lacrimogéneo e gás pimenta
O gás lacrimogéneo é feito de forma singular para fazer uma vítima sofrer.

Quando um cartucho de gás lacrimogéneo é disparado e detonado, liberta uma nuvem que envolve todas as pessoas nas proximidades. Os produtos químicos presentes no gás afetam os olhos, a pele e até as vias respiratórias, e a dor é tão insuportável que reverbera pelo corpo todo. Isto provoca tosse, espirros e forma tanto muco que pode dar a sensação de sufoco. Por fim, as pessoas são forçadas a fugir.

É exatamente por esta reação que as autoridades de todo o mundo usam gás lacrimogéneo para controlar motins, diz Sven Eric Jordt, professor associado de anestesiologia, farmacologia e biologia do cancro na Faculdade de Medicina da Universidade Duke.

Um manifestante coberto de leite, no dia 29 de maio de 2020, depois de o Departamento de Polícia de Nova Iorque ter usado gás lacrimogéneo durante uma manifestação contra a morte de George Floyd. Apesar de se pensar que o leite consegue combater os efeitos do gás lacrimogéneo, os efeitos neutralizantes do leite são piores do que a utilização de água. Os laticínios também apresentam potenciais riscos de irritação e outras infeções.

Fotografia de Malike Sidibe

O agente ativo presente no gás lacrimogéneo é um composto orgânico chamado CS, nome que homenageia os dois químicos americanos – Ben Corson e Roger Stoughton – que o identificaram em 1928. Sven Jordt integrou a equipa de investigação que descobriu que o CS se liga a um recetor de dor no nosso sistema nervoso chamado TRPA1. Este sensor de dor está localizado por todo o corpo – olhos, pele, pulmões, boca – e é responsável, por exemplo, pela sensação desencadeada quando se come wasabi ou rábano.

Estes químicos que provocam irritações são considerados não letais em ambientes abertos e em baixas concentrações. Mas com dosagens maiores – administradas quando detonam ao lado de alguém ou num espaço confinado – os químicos podem matar tecidos nas vias respiratórias e no sistema digestivo, encher os pulmões com excesso de líquido e provocar hemorragias internas. Jordt explica que é por isso que é importante lavarmo-nos imediatamente com água para nos descontaminarmos e livrarmo-nos das roupas contaminadas. E não recomenda a utilização de leite, como fizeram alguns manifestantes, dado que não é esterilizado e pode dar origem a infeções e outras irritações. Quando o corpo sente uma presença muito nociva, as defesas entram freneticamente em ação.

“Quando os cartuchos são disparados diretamente contra uma multidão, podem provocar lesões graves nos olhos, cabeça, cérebro, ou lesões no peito devido à força de impacto, bem como queimaduras químicas.”

“O nariz age basicamente como uma espécie de sentinela para as ameaças que podem ser inaladas, para dar o alarme se houver algo por perto que possa ferir os pulmões”, explica Jordt. O sistema sensorial responde com reflexos involuntários que normalmente são usados para expulsar patógenos indesejados, incluindo tosse, espirros, choro e produção excessiva de muco. Esta resposta pode ser perigosa para alguém com condições subjacentes, como asma ou arritmia. A organização Physicians for Human Rights também sugere uma possível ligação entre o gás lacrimogéneo e abortos espontâneos, embora esta ligação ainda esteja por esclarecer e se baseie em relatos.

O gás pimenta, feito à base de um composto chamado oleorresina de cápsico (OC), que também pode ser usado em granadas, comporta-se de forma semelhante. Este composto é extraído de pimentas extremamente picantes e ativa muitas das mesmas fibras de dor que o CS, embora o faça através de um recetor nervoso diferente. Quimicamente, o gás pimenta não é tão reativo como o gás lacrimogéneo – o que significa que a sua utilização tem menos probabilidades de resultar em queimaduras químicas graves – mas provoca as mesmas respostas de reflexo debilitantes que podem ser particularmente prejudiciais em pessoas com condições subjacentes.

Apesar de estarem classificadas como não letais, Jordt diz que todas estas armas estão longe de serem inofensivas.

Um manifestante no meio de gás lacrimogéneo durante um protesto em Atlanta contra a morte de George Floyd – um homem afro-americano que morreu quando já estava sob custódia da polícia de Minneapolis.

Fotografia de Dustin Chambers, Reuters

“E também devemos reconhecer que a polícia por vezes não usa estas armas corretamente”, diz Jordt. O gás lacrimogénio deve ser ativado à distância. Quando os cartuchos são disparados diretamente contra uma multidão, podem provocar lesões graves nos olhos, cabeça, cérebro, ou lesões no peito devido à força de impacto, bem como queimaduras químicas.

As evidências sugerem que a exposição ao gás lacrimogéneo pode ter consequências a longo prazo no sistema respiratório. Por exemplo, em 2014, um estudo sobre a utilização de gás lacrimogéneo em treinos militares vinculou a exposição ao CS ao aparecimento de doenças respiratórias agudas. Desconhecem-se os efeitos a longo prazo sobre as populações civis, mas os civis têm muito mais probabilidades de terem condições de saúde subjacentes do que os jovens recrutas militares.

Balas de borracha e traumas torácicos
Em 1970, o exército britânico introduziu as balas de borracha no seu arsenal para controlar os distúrbios na Irlanda do Norte. Feitos de borracha – e, em alguns casos, com aço revestido de borracha – estes projéteis foram concebidos para serem menos letais do que as balas normais. As áreas de superfície destas balas são maiores e diminuem a velocidade durante a trajetória, permitindo que administrem uma força bruta no corpo, em vez de o penetrarem.

Jennifer Stankus, médica do corpo clínico do Departamento de Medicina de Emergência do Centro Médico do Exército Madigan, compara o impacto destas balas a um tiro de uma arma de paintball. No entanto, já foram relatados ferimentos graves provocados por balas de borracha. Os estudos feitos sobre a sua utilização no conflito de Caxemira mostram que as balas de borracha podem dar origem a fraturas, lesões nervosas e lesões nos tendões, e até infeções. E outros estudos indicam que as balas de borracha podem provocar danos nos órgãos internos, levando à morte ou invalidez permanente. Na primeira semana de junho, um adolescente de Sacramento, nos EUA, foi atingido no rosto por uma bala de borracha que lhe partiu o maxilar e rasgou a bochecha.

Esquerda: Um manifestante mostra uma bala de borracha de 40 milímetros que foi disparada pela polícia durante os protestos que aconteceram por todo o país no dia 31 de maio de 2020, após a morte de George Floyd em Minneapolis.
Direita: Um jornalista a sangrar depois de a polícia ter começado a disparar gás lacrimogéneo e balas de borracha perto da 5ª Esquadra de Minneapolis no dia 30 de maio de 2020, após uma manifestação que pedia justiça pela morte de George Floyd, um homem negro que morreu sob custódia da polícia de Minneapolis, no estado do Minnesota. Quando os Estados Unidos assistiram a outra noite de manifestações no sábado, os confrontos fizeram com que as principais cidades do país impusessem um recolher obrigatório. Os manifestantes revoltados ignoraram as advertências do presidente Donald Trump de que o seu governo iria travar “friamente” os protestos contra o abuso de poder da polícia.

Fotografia de JIM BOURG, REUTERS (ESQUERDA) E CHADAN KHANNA, AFP/GETTY IMAGES (DIREITA)

O Guia dos Direitos Humanos das Nações Unidas sobre o uso de Armas Menos Letais na Aplicação da Lei recomenda apenas a utilização de balas de borracha em situações de ameaça iminente – visando a parte inferior do abdómen ou as pernas, onde é mais provável que provoquem hematomas e lacerações. Stankus diz que este é o cenário mais comum e que os danos mais graves ocorrem geralmente quando estas armas são disparadas a curta distância.

Porém, quando são disparadas à queima-roupa, as balas de borracha provocam danos semelhantes aos de um acidente de viação. A força contundente pode fraturar ossos e esmagar ou rasgar os vasos sanguíneos na área de impacto – podendo provocar hemorragias em órgãos como os rins, o baço ou o fígado.

“Quando são disparadas à queima-roupa, as balas de borracha provocam lesões semelhantes às de um acidente de viação.”

Normalmente, estas lesões internas acabam por sarar. Mas em alguns casos – como em casos onde existem doenças subjacentes – o sangue pode invadir um órgão ou até escoar para a cavidade abdominal. Mas o pior, diz Stankus, é a possibilidade de um tiro acertar nos olhos, no crânio ou provocar lesões na medula espinal. É por isso que os manifestantes usam capacetes e óculos e cobrem a pele.

Stankus diz que, em geral, as lesões graves provocadas por balas de borracha são raras e não contesta a sua classificação não letal. Mas organizações como a Physicians for Human Rights discordam, argumentando que estes incidentes ocorrem com frequência suficiente para que as balas de borracha sejam proibidas enquanto ferramenta de dispersão de multidões.

Ruído bélico
Durante os protestos, helicópteros militares pairaram a baixa altitude sobre os manifestantes em Washington D.C., levantando detritos e obrigando as pessoas a taparem os ouvidos. Enquanto isso, as forças policiais de todo o país – incluindo de Seattle, Houston, Portland e Denver – usaram granadas de atordoamento. Estas granadas têm este nome porque emitem um estrondo brutal e clarões muito fortes quando detonam.

O ruído é uma tática comum para afastar pessoas de uma área, diz Richard Neitzel, professor associado da Escola de Saúde Pública da Universidade do Michigan, que estuda os efeitos da exposição ao ruído. Para além de ser irritante, o ruído pode prejudicar o corpo de duas formas – ambas focadas no ouvido interno.

Manifestantes reagem quando uma granada de atordoamento lançada pela polícia explode no meio da multidão, junto à 3ª Esquadra de Minneapolis, no dia 27 de maio de 2020, no Minnesota. Quatro agentes de Minneapolis foram acusados depois de um vídeo filmado por um transeunte ter sido publicado nas redes sociais. No vídeo, vê-se um polícia ajoelhado sobre o pescoço de George Floyd, de 46 anos, enquanto Floyd dizia repetidamente: “Não consigo respirar”. Mais tarde, Floyd foi declarado morto enquanto estava sob custódia policial, depois de ser transportado para o Centro Médico do Condado de Hennepin.

Fotografia de Stephen Maturen, Getty Images

As explosões repentinas e intensas emitem ondas de alta pressão que entram no ouvido e atingem o tímpano. É o mesmo que encher um balão com demasiado ar – e isto pode romper o tímpano e desalojar os pequenos ossos que o ligam ao ouvido interno. A pressão pode até desbastar as células ciliadas que revestem o ouvido interno, e que são responsáveis pela transformação das vibrações em sinais que o cérebro interpreta como sons.

A exposição prolongada ao ruído também pode desgastar as células ciliadas, como acontece, por exemplo, quando pisamos folhas de relva. “Se atravessarmos um relvado uma vez por ano, as folhas voltam a surgir”, diz Neitzel. “Mas se tivermos um pelotão de soldados constantemente a marchar de um lado para o outro pelo relvado, as folhas ficam danificados até um ponto em que já não conseguem recuperar.”

“A pressão pode até desbastar as células ciliadas que revestem o ouvido interno, e que são responsáveis pela transformação das vibrações em sinais que o cérebro interpreta como sons.”

O ouvido consegue lidar com ruídos muito altos até um certo ponto. Determinar se estas táticas – helicópteros a pairar a baixa altitude ou granadas de atordoamento –podem provocar um trauma acústico depende de três fatores: a intensidade da pressão, o tempo de exposição e com que frequência a pressão ocorre.

O som de um helicóptero a baixa altitude pode atingir os níveis de ruído a que estamos expostos num concerto ao ar livre – 95 decibéis – o suficiente para provocar danos após cerca de 50 minutos. Mas Neitzel diz que uma exposição de alguns minutos não acarreta riscos reais de perda auditiva. O mais preocupante, diz Neitzel, são os efeitos potenciais das granadas de atordoamento. Estas granadas emitem sons acima dos 170 decibéis, podendo provocar ferimentos imediatos nos ouvidos de quem estiver por perto – um risco que aumenta consoante o número de explosões. Neitzel também salienta que qualquer pessoa que viva numa cidade onde helicópteros circulam constantemente pode sofrer consequências da exposição prolongada ao ruído. Porém, também diz que os tampões para os ouvidos ajudam a mitigar alguns destes efeitos.

Choques elétricos no coração
As armas de choques elétricos têm sido utilizadas como um método de repressão – e incitação – de distúrbios desde a década de 1960, quando as autoridades usavam versões rudimentares destes dispositivos em ativistas dos direitos civis. Estas armas desferem breves rajadas de corrente elétrica no corpo e são projetadas para subjugar os agressores durante tempo suficiente para a sua detenção. Mas também podem ser letais.

Estas armas disparam dois dardos que são afiados o suficiente para penetrar nas roupas e na pele, e incorporam-se no tecido corporal. Os dardos estão ligados a fios que transmitem explosões de energia durante cinco segundos. Para completar o circuito elétrico, a eletricidade viaja de um dardo para o outro através do tecido corporal. Quando isto acontece, os músculos são estimulados e contorcem-se muito depressa – semelhante a uma convulsão.

De acordo com um artigo de 2014 da revista Circulation, se os dardos atingirem determinadas partes do corpo, podem provocar uma paragem cardíaca.

Isto acontece porque as armas de choques elétricos podem alterar o ritmo de bombeamento extremamente afinado do coração, diz Douglas P. Zipes, autor do estudo da Circulation e professor emérito da Faculdade de Medicina da Universidade de Indiana. Os corações batem quando o nódulo sinusal, uma pequena massa de tecido, transmite um impulso para as células do coração. Se o coração estiver no trajeto da corrente que vai de um dardo para o outro, a eletricidade pode acelerar este processo – aumentando a frequência cardíaca para níveis insustentáveis. Se um polícia alterar os protocolos de segurança de uma arma destas – para transmitir eletricidade durante mais de cinco segundos – pode provocar lesões cerebrais ou morte.

Mas há outras partes do corpo que também são vulneráveis. Os cientistas registaram alguns casos de fraturas na coluna vertebral – e supõem que isto se deve a contrações musculares repentinas. Um estudo de 2016 mostrou que as armas de choques elétricos podem afetar a função cognitiva a curto prazo, e um dardo também pode perfurar inadvertidamente um olho.

Zipes diz que, para prevenir estas situações, os polícias devem evitar disparar contra o peito, e não devem alterar os protocolos de segurança das armas. E as autoridades também precisam de saber que estas armas podem provocar paragens cardíacas, para que possam começar a reanimar imediatamente uma pessoa que tenha sido atingida e que não responda.

Zipes diz que é por isso que o contexto é muito importante quando se discute a letalidade das chamadas armas não letais ou menos letais. “Um bastão pode ser classificado de arma não letal, e é usado pela polícia em situações de defesa. Mas é óbvio que, se atingirem alguém na cabeça com força suficiente, podem matar.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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