Eis a Melhor Forma de Lavar a Sua Máscara

Quer esteja a usar uma máscara cirúrgica descartável ou uma máscara de tecido, eis como garantir que o seu equipamento de proteção permanece higienizado.

Monday, June 1, 2020,
Por Sarah Gibbens
Se costuma sair de máscara e luvas, descubra como as limpar, quando as deve descartar e ...

Se costuma sair de máscara e luvas, descubra como as limpar, quando as deve descartar e as razões pelas quais não deve recear a presença do coronavírus nas suas roupas.

Fotografia de Bobby Doherty, National Geographic

Usar uma máscara em público costumava estar associado ao Carnaval, ao Halloween, ou a um assalto a um banco. Contudo, em poucos meses, devido à COVID-19, esta peça de vestuário tornou-se num item do nosso quotidiano.

A Organização Mundial de Saúde recomenda a utilização de uma máscara cirúrgica – como as usadas nos hospitais – apenas se nos sentirmos doentes ou se estivermos a cuidar de uma pessoa doente. O Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA vai ainda mais longe e aconselha uma proteção de tecido para quem necessita de frequentar locais com muitas pessoas. E há quem exceda estas diretrizes oficiais e use também luvas reutilizáveis ou descartáveis.

Contudo, os especialistas alertam que a utilização indevida de qualquer um destes equipamentos de proteção pode potencialmente resultar numa exposição a germes – porque as próprias máscaras e luvas ficam contaminadas se não forem limpas ou trocadas com frequência, e podem contaminar as nossas mãos ou coisas em que mais tarde tocamos sem proteção.

“Quando vejo alguém [a usar luvas] a tocar em balcões e depois coloca as mãos na carteira, penso: Agora criaram uma contaminação cruzada e anularam qualquer proteção que estejam a usar”, diz Jade Flinn, educadora de enfermagem na unidade de bio-contenção da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, Maryland.

O distanciamento social e a lavagem frequente das mãos continuam a ser as melhores armas, dizem os especialistas, para evitar a propagação ou infeção por SARS-CoV-2, o vírus responsável por esta pandemia global.

O CDC publicou instruções passo a passo para a remoção das luvas e recomenda que se lavem as mãos depois deste processo.

Fotografia de Bobby Doherty, National Geographic

Se costuma sair de máscara e luvas, descubra como as limpar, quando as deve descartar e as razões pelas quais não deve recear a presença do coronavírus nas suas roupas.

Como limpar uma máscara de tecido
De acordo com a OMS e o CDC, um ciclo de lavagem padrão na máquina da roupa é suficiente para retirar o coronavírus dos tecidos.

“Dado que se trata de um vírus envelopado, é muito suscetível aos detergentes”, diz Rachel Graham, virologista da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill. O envelope que encapsula vírus como a influenza e o SARS-CoV-2 é composto por uma camada delicada de proteínas e lípidos oleosos, que se mantêm unidos através de uma tensão superficial.

Os detergentes para a roupa e os sabonetes contêm surfactantes, químicos que desfazem facilmente o envelope, reduzindo a tensão superficial, explica Joshua Santarpia, patologista do Centro Médico da Universidade do Nebrasca, em Omaha. As moléculas de surfactante têm uma extremidade que é atraída pelos óleos e gorduras, e outra que é atraída pela água. A extremidade atraída pelo óleo encaixa-se no envelope do coronavírus, quebrando-o. O restante fica preso em vagens circulares do surfactante, chamadas micelas, e é lavado pela água.

“A interação deste surfactante com o envelope viral destrói rapidamente a capacidade de infeção do vírus”, diz Santarpia. Grande parte dos produtos de limpeza, sejam domésticos ou comerciais, contêm surfactantes potentes.

A temperatura da água da máquina de lavar não faz diferença, desde que se use detergente. “As máscaras de algodão suportam temperaturas mais elevadas; portanto, se se sentir mais confiante com uma lavagem de temperatura mais elevada, pode fazê-lo”, diz Graham. E as concentrações de calor de um secador oferecem proteção adicional: é o suficiente para matar a maioria dos microrganismos.

E se estiver a usar uma máscara cirúrgica ou um respirador N95?
Ao contrário do que acontece com as máscaras de tecido, as máscaras cirúrgicas descartáveis são feitas de produtos sintéticos que não suportam o ciclo normal de lavagem da máquina.

“Se lavar estas máscaras, vai provocar muitos danos na sua capacidade de filtragem”, diz Santarpia. Os profissionais de saúde têm reutilizado os respiradores N95 por questões de necessidade – máscaras mais justas e em forma de cúpula que são consideradas as únicas que filtram eficientemente as pequenas partículas como os vírus. As instalações onde Flinn e Santarpia trabalham usam desinfetantes de nível hospitalar que preservam a integridade das máscaras durante o processo de limpeza.

E o hospital onde Santarpia trabalha, no Nebrasca, também está a higienizar máscaras com luz UV-C, um tipo de luz ultravioleta com muita intensidade energética. Isto permite que a equipa reutilize as suas máscaras várias vezes, diz Santarpia. De acordo com o CDC, como a UV-C é considerada mais intensa e tem mais probabilidades de provocar cancro do que a UV-A e a UV-B, esta forma de esterilização só deve ser feita com a supervisão de especialistas treinados na utilização de luz UV-C.

Para o público em geral, é importante lembrar que, idealmente, só se devem usar as máscaras cirúrgicas uma vez – e se for imperativo reutilizar a máscara, esta deve ser colocada de parte durante tempo suficiente para o vírus se degradar.

“A mensagem a reter é a de que o vírus pode permanecer infeccioso durante várias horas, potencialmente alguns dias, em várias superfícies, incluindo nas máscaras.”

por AMANDINE GAMBLE, UNIVERSIDADE DA CALIFÓRNIA, LOS ANGELES

E quanto tempo é? Os cientistas ainda estão a tentar descortinar exatamente qual é a duração do vírus SARS-CoV-2 nas superfícies, no ar e nas máscaras. As evidências preliminares divulgadas em finais de abril, ainda sem uma revisão por pares, encontraram vestígios do coronavírus que persistiram durante um período considerável nos respiradores N95.

“A mensagem a reter é a de que o vírus pode permanecer infeccioso durante várias horas, potencialmente alguns dias, em várias superfícies, incluindo nas máscaras”, diz Amandine Gamble, uma das autoras do estudo e especialista em doenças infecciosas da Universidade da Califórnia em Los Angeles. Amandine suspeita que o coronavírus pode ficar nas fibras de uma máscara, representando um risco até que o germe se degrade espontaneamente com o tempo. Por esse motivo, o CDC desaconselha a utilização de um respirador N95 durante mais de oito horas no total e, a não ser que o fabricante tenha outras especificações, estes filtros faciais devem ser descartados após cinco reutilizações.

E mesmo fora dos hospitais, a reutilização continuada dos respiradores pode fazer com que o vírus se acumule ao longo do tempo e pode aumentar as probabilidades de exposição acidental do seu utilizador.

“É importante ter em mente que as probabilidades de infeção aumentam com o número de partículas virais encontradas”, diz Amandine. “Não é um processo de ligar-desligar, mas sim gradual.”

Podemos lavar e reutilizar luvas?
As organizações de saúde pública não recomendam a utilização de luvas de qualquer tipo para evitar a infeção por coronavírus.

“Desde que a nossa pele esteja intacta, é uma barreira imunitária muito eficaz”, diz Graham, acrescentando que também não existem evidências de que o coronavírus consiga atravessar ferimentos, e que não circula bem na corrente sanguínea.

Porém, para quem está muito preocupado, se não quiser seguir as diretrizes de saúde e deseja ter uma camada de proteção extra, deve ter o mesmo tipo de cuidado que teria se não estivesse a usar luvas.

“A minha preocupação é a de que algumas pessoas pensem que estão protegidas pelas luvas”, diz Jane Greatorex, virologista da Universidade de Cambridge, no Reino Unido. “As luvas devem ser descartadas ou lavadas da mesma forma que lavamos as mãos.”

O CDC publicou instruções passo a passo para a remoção das luvas e recomenda que se lavem as mãos depois deste processo.

“As luvas descartáveis não devem ser lavadas, porque é provável que fiquem com brechas” diz Santarpia. “As pessoas devem concentrar-se muito mais na higienização das mãos do que na utilização de luvas.”

E em relação ao resto da roupa?
Ir ao supermercado não significa que precisamos de deitar a roupa fora. Os vírus envelopados, como o coronavírus, não sobrevivem facilmente em superfícies porosas, como nas camisas de algodão, em blusas de poliéster ou nas calças de ganga.

Os coronavírus propagam-se maioritariamente através de gotículas respiratórias, que são principalmente água e mantêm o vírus húmido até este atingir outro corpo. Com o passar do tempo – entre alguns dias a uma semana – os vírus secam e deterioram-se, diz Gerardo Lopez, microbiologista ambiental da Universidade do Arizona que estudou a forma como os vírus se transmitem em várias superfícies.

“Não é com as roupas que nos devemos preocupar.”

Com um germe que se propaga tão facilmente como o SARS-CoV-2, Gerardo diz que o importante é limpar tudo – mãos, máscaras, maçanetas das portas, telemóveis – que tenha contacto humano frequente. “Não subestime a possibilidade de um vírus permanecer nos objetos”, acrescenta Gerardo.

Não é com as roupas que nos devemos preocupar. Quando as gotículas respiratórias entram em contacto com um tecido como o algodão, o tecido absorve um pouco da humidade, seca as gotículas e expõe as partículas do vírus e o seu frágil envelope ao ar.

“A camada externa de lípidos seca e a proteína que necessita para se ligar aos recetores fica inoperante”, diz Gerardo. O material genético do vírus pode manter-se, “mas perde a sua viabilidade”, acrescenta. E as máquinas de lavar roupa tratam bem do resto.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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