Este Dinossauro Pode Ter Sido Canibal – Revelam Marcas de Dentadas

Fósseis recém-descobertos revelam que o voraz alossauro pode ter comido animais da sua própria espécie, possivelmente em tempos de escassez.

Tuesday, June 2, 2020,
Por John Pickrell
Este crânio de um Allosaurus da era jurássica foi encontrado no Monumento Nacional de Dinossauros, no ...

Este crânio de um Allosaurus da era jurássica foi encontrado no Monumento Nacional de Dinossauros, no Utah. Os fósseis de alossauros com marcas de dentadas sugerem que estes dinossauros canibalizavam os seus mortos.

Fotografia de Breck P. Kent, Earth Scenes/Nat Geo Image Collection

Os fósseis encontrados com marcas de dentadas sugerem que pelo menos um tipo de dinossauro de grande porte podia estar tão desesperado que começou a alimentar-se da sua própria espécie.

Uns impressionantes 29% dos 2.368 fósseis descobertos desde 1981 na Pedreira Mygatt-Moore do período jurássico tardio têm marcas de dentadas; cerca de seis vezes mais do que se costuma encontrar noutros sítios semelhantes, dizem os investigadores na revista PLOS One. Os ossos demonstram evidências de que o alossauro, o carnívoro mais predominante no local, estava a petiscar os seus parentes.

O canibalismo entre dinossauros não é propriamente surpreendente. Em determinadas circunstâncias, muitos dos grandes predadores, como os crocodilos e jacarés, comem membros da sua própria espécie. “Todos os grandes predadores da atualidade comem a sua própria espécie, sejam dragões de Komodo, ursos ou leões” diz Mark Loewen, paleontólogo do Museu de História Natural de Utah, em Salt Lake City. “Se houver um animal morto, os carnívoros vão comê-lo.”

Nesta ilustração, um alossauro luta pelos restos mortais de outros dinossauros.

Fotografia de Brian Engh (Ilustração)

O que não é normal é encontrarmos evidências de canibalismo no registo fóssil, diz a autora principal do estudo, Stephanie Drumheller, paleontóloga da Universidade do Tennessee, em Knoxville. “Nós só temos boas evidências de canibalismo noutras espécies de terópodes.” Saber quando e onde é que estes eventos terríveis estavam a acontecer pode revelar detalhes importantes sobre o estado dos ambientes pré-históricos.

“Talvez estivesse a acontecer algo estranho neste ecossistema, e estes animais estavam a lutar por todos os nutrientes que encontravam, e procuravam extensivamente quaisquer restos presentes na paisagem”, sugere Stephanie.

A equipa do estudo acredita que estes dinossauros podem ter morrido em torno de um poço de água que passou por longos períodos de seca. As suas carcaças estavam enterradas em sedimentos, mas foi um processo lento.

“Nós costumamos brincar e dizemos que se pudéssemos regressar atrás no tempo e visitar a região, provavelmente o cheiro seria hediondo, porque as evidências dizem-nos que as carcaças e os restos mortais ficaram na paisagem durante longos períodos de tempo”, acrescenta Stephanie.

Marcas de dentadas contam a história
O sítio fóssil de Mygatt-Moore faz parte da Formação Morrison, uma extensa camada de rochas que data de há cerca de 150 milhões de anos. Esta camada estende-se pela região oeste dos Estados Unidos e está entre as fontes mais prolíficas de fósseis de dinossauros no país.

Esta perfuração no osso da tíbia de um fóssil de alossauro revela aos cientistas que o dinossauro mordeu os restos mortais de membros da sua espécie.

Fotografia de Stephanie Drumheller-Horton, fósseis guardados nos Museus do Colorado Ocidental

Em muitos dos outros sítios importantes de dinossauros em Morrison, as ossadas apresentam muito menos marcas de dentadas. Por exemplo, na Pedreira de Dinossauros de Cleveland-Lloyd, no Utah, “menos de 5% dos 20 mil ossos têm marcas de dentadas”, diz Loewen, que descreveu uma nova espécie de alossauro no início deste ano e não participou neste novo estudo.

“A Pedreira de Mygatt-Moore revela o oposto”, diz Loewen. “O que é interessante neste estudo é que eles encontraram muitas marcas de dentadas de terópodes nos ossos. Isto significa que os corpos estavam disponíveis à superfície.”

Apesar de a maioria dos 684 ossos fósseis encontrados com marcas de dentadas pertencer a dinossauros herbívoros de pescoço comprido, chamados saurópodes, 83 eram ossos de dinossauros terópodes – membros de um grupo que incluía todas as espécies de carnívoros.

Acredita-se que a grande maioria dos ossos de dinossauros carnívoros presentes na pedreira pertençam ao terrível alossauro de 24 metros de comprimento, enquanto que outros podem pertencer a um predador ainda mais primitivo, chamado Ceratosaurus. E muitos outros terópodes de grande porte do mesmo período – Torvosaurus e Saurophaganax – foram encontrados noutros sítios da Formação Morrison.

“Temos esta zona dominada pelos alossauros, com marcas de dentadas de terópodes por todo o lado”, diz Stephanie. “Isto permite saber que pelo menos algumas das marcas de dentadas pertencem ao alossauro, e estamos a encontrá-las em alossauros.” Stephanie acredita que todas as espécies de dinossauros carnívoros ali presentes podiam estar a comer-se uns aos outros ocasionalmente.

Petiscar dedos das patas
Apesar de existirem indícios de canibalismo nos alossauros em trabalhos feitos há várias décadas, o novo estudo apresenta “as evidências mais fortes até agora” de que estes dinossauros se estavam a comer uns aos outros, diz Thomas R. Holtz, paleontólogo que estuda dinossauros carnívoros na Universidade de Maryland, em College Park.

Entre os vários terópodes presentes nestes ecossistemas do jurássico tardio, o alossauro “tinha os dentes mais robustos e, portanto, era o mais adequado para o contacto de dente com osso”, argumenta Thomas. E isto, juntamente com a forma e o tamanho das marcas, e as estrias específicas criadas pelos dentes serrilhados do alossauro, “são evidências fortes que apontam para dentadas de alossauro e, consequentemente, para o canibalismo”.

Stephanie Drumheller e a sua coautora Julia McHugh, dos Museus do Colorado Ocidental, que faz a gestão da Pedreira Mygatt-Moore, argumentam que, na grande maioria dos casos, estes alossauros provavelmente estavam a comer os seus parentes já mortos, em vez de matarem e depois devorarem os membros da sua própria espécie. Muitas das marcas de dentadas estão em algumas das partes mais desgastadas e menos nutritivas das carcaças, como os ossos dos dedos das patas, reforçando o argumento de que estes dinossauros estavam à procura de comida em animais mortos há muito tempo.

"Quem quer que estivesse a comer estas partes atrasou-se bastante no processo, porque nunca iria preferir um dedo se tivesse a cavidade abdominal ainda disponível”, explica Julia.

Uma imagem aproximada da vértebra de um alossauro mostra marcas de estrias, presumivelmente feitas pelos dentes serrilhados de outro terópode.

Fotografia de Stephanie Drumheller-Horton, fósseis guardados nos Museus do Colorado Ocidental

Thomas Holtz, que não é um dos autores do estudo, acrescenta que as descobertas também são interessantes porque “as evidências inequívocas de comportamentos necrófagos nos dinossauros são raras, porque são difíceis de documentar diretamente”.

Stephanie Drumheller diz que, apesar de normalmente os paleontólogos quererem encontrar esqueletos fósseis tão imaculados e completos quanto possível, são os ossos como os encontrados em Mygatt-Moore que realmente a entusiasmam.

“Muitas pessoas olham para estes ossos todos maltratados, com buracos e com pedaços em falta, e pensam que não são grande coisa, mas eu fico entusiasmada”, diz Stephanie.

“Para quem está interessado no ambiente e na forma como estes animais interagiam – saber quem comia quem e o que acontecia depois de morreram – as coisas mais feias também são as mais úteis.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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