Ferramentas da Antiguidade Mostram Como os Humanos se Adaptaram às Florestas Tropicais

Os objetos foram encontrados numa caverna no Sri Lanka e incluem a tecnologia mais antiga de arco e flecha conhecida fora de África, datada de há 48 mil anos.

Monday, June 22, 2020,
Por Tim Vernimmen
Ocre vermelho e missangas feitas de conchas foram descobertos na floresta tropical de Fa-Hien Lena, no ...

Ocre vermelho e missangas feitas de conchas foram descobertos na floresta tropical de Fa-Hien Lena, no Sri Lanka. Neste sítio arqueológico, as ferramentas mais antigas, como pontas de flechas ósseas, têm 48 mil anos.

Fotografia de M. C. Langley

Numa caverna coberta pela selva, no sudoeste do Sri Lanka, os arqueólogos encontraram uma coleção notável de objetos, incluindo ferramentas que se acredita estarem entre os equipamentos mais antigos de sobrevivência usados pelos humanos nas florestas tropicais.

A idade dos artefactos varia entre os 48 mil e os 4 mil anos e os objetos incluem 130 pontas de flechas ósseas – as mais antigas encontradas fora de África – para além de 29 ferramentas ósseas que eram usadas para fazer bolsas, ou roupa, e algumas missangas ornamentais. Os arqueólogos encontraram os objetos enquanto escavavam uma caverna e acreditam que os materiais correspondem a quatro fases distintas da presença humana no local, com pontas de flechas e ferramentas semelhantes a furadores a figurarem entre os objetos mais antigos. A datação por radiocarbono de 30 dos itens presentes neste sítio arqueológico permitiu aos investigadores criar uma linha temporal e perceber como é que as ferramentas se tornaram mais sofisticadas ao longo dos séculos.


“Grande parte das ferramentas foi feita com ossos de macaco, e muitas parecem ter sido cuidadosamente transformadas em pontas de flechas”, diz a arqueóloga Michelle Langley, da Universidade Griffith, na Austrália, que chefia a nova investigação publicada na Science Advances. “São pequenas e leves demais para serem pontas de lança, que precisam de algum peso para ganhar força, e muito pesadas para serem dardos de soprar.”

As ferramentas encontradas em Fa-Hien Lena, no Sri Lanka, foram feitas a partir de ossos e dentes e eram usadas para caçar pequenos macacos e esquilos; para cortar peles ou plantas; e talvez até para fazer redes. Nesta imagem vemos um possível lançador de redes, um furador ou faca de dente de macaco e a ponta de um projétil.

Fotografia de M. C. Langley

As pontas das flechas mostram evidências de que estiveram encaixadas em hastes, e as pequenas fraturas que apresentam podem ter surgido de impactos. Os arcos “teriam sido feitos de materiais vegetais perecíveis”, diz Langley, e não sobreviveram ao desgaste de milénios. Mas a coleção de ferramentas ósseas que ficaram preservadas revela algumas das primeiras incursões dos humanos nas florestas tropicais.

Adaptação a um novo lar
Embora se acredite que a principal vaga de humanos tenha migrado para fora de África há cerca de 60 mil anos, parece que alguns grupos mais pequenos começaram a sair há 100 ou 200 mil anos atrás e expandiram-se por regiões significativas do planeta. Há 85 mil anos, os humanos modernos tinham chegado à Península Arábica. Cerca de 15 mil anos depois, estavam no Sudeste Asiático e, há 65 mil anos, tinham chegado à Austrália.

Ao longo do caminho, o Homo sapiens encontrou e adaptou-se a diversos ambientes desafiadores, desde o frio do Ártico Siberiano até às altas altitudes do Planalto do Tibete. Quando os humanos migraram para o Sul Asiático, encontraram outro novo habitat intimidador: a floresta tropical, onde a vegetação densa, os animais esquivos, os insetos persistentes e os predadores bem camuflados dificultaram a sua sobrevivência.

Acredita-se que os humanos modernos percorreram as costas do Sul Asiático e chegaram ao Sri Lanka há cerca de 48 mil anos, mas não entraram de imediato nas florestas densas. “As primeiras pessoas que chegaram à ilha provavelmente viviam ao longo da costa”, diz o arqueólogo Oshan Wedage, da Universidade Sri Jayewardenepura, no Sri Lanka, que liderou várias escavações no interior e em torno da caverna Fa-Hien Lena. “Mas à medida que a população cresceu, alguns dos seus descendentes podem ter ido viver para a floresta tropical.”

O novo ambiente exigiria algumas inovações importantes. “Nas planícies, as pessoas caçavam animais de grande porte, animais que viviam em grupos enormes e que eram fáceis de detetar e atingir”, diz Langley. “Mas na floresta tropical, muitas das presas são demasiado ágeis e podem até viver nas copas das árvores. Numa floresta, uma lança não é particularmente útil para capturar um macaco ou um esquilo, é preciso algo que seja veloz e que atinja grandes altitudes. Os arcos e flechas eram ideais para este ambiente.” E os ossos de macaco eram um material excelente para fazer novas pontas de flechas.

Algumas das ferramentas ósseas parecem ter servido outros propósitos. “Um pedaço de osso achatado parece um lançador de rede, o tipo de ferramenta que os pescadores usam para arrastar o fio quando fazem ou consertam uma rede”, diz Langley, e isto teria sido útil junto aos rios no interior e nas regiões costeiras. E outras ferramentas parecem ter sido usadas para trabalhar couro e fibras vegetais, possivelmente para fazer bolsas ou até roupa. “As pessoas na floresta não precisavam de muita roupa para se aquecerem, mas talvez fosse útil para proteger a pele de ferimentos provocados pelos insetos ou pela vegetação”, diz Wedage.

O arqueólogo Ian Gilligan, da Universidade de Sydney, que estuda a história primordial da roupa, diz que não ficaria surpreendido se os humanos estivessem a fazer roupas no Sri Lanka durante este período. Por exemplo, as evidências genéticas de piolhos, que precisariam de roupa para sobreviver nos humanos, sugerem que o Homo sapiens já usava roupa em África há 170 mil anos.

“À medida que o uso de vestuário se tornou mais estabelecido, as roupas adquiriram funções sociais, e a sua manutenção tornou-se sem dúvida num fator dominante, porque era usada em muitas regiões”, diz Gilligan.

Os artefactos culturais, como roupas e missangas, podem ter ajudado os humanos a tecerem grupos sociais mais unidos, permitindo que fossem mais bem-sucedidos em quase todos os ambientes que encontravam. E as novas ferramentas, criadas por mentes ágeis, podiam ser partilhadas com outras pessoas, ou herdadas e aprimoradas ao longo de gerações.

Manter os laços com os parentes
Embora as pessoas estivessem a criar um novo modo de vida na floresta, parece que também mantiveram uma ligação com as populações das quais se tinham separado. As missangas feitas com conchas de animais marinhos, algumas delas descobertas na caverna da floresta tropical a cerca de 40 km da costa, sugerem que o grupo de Fa-Hien Lena pode ter feito trocas com outras pessoas que permaneceram ao longo da costa, diz Wedage.

As missangas eram arredondadas e estavam polidas e perfuradas de maneira a serem penduradas num cordel. As mais antigas eram feitas de conchas, mas outras, de um período mais tardio, foram feitas de nódulos de ocre vermelho brilhante.

“Não tenho a certeza se as pessoas usavam as missangas de ocre como ornamento”, diz Langley. “Talvez esta fosse apenas uma forma de as manter juntas para transporte, pois podem ter sido usadas para decorar o corpo de outras formas – podem ter sido raspadas para libertarem o seu pó colorido, algo que as pessoas podiam espalhar na pele.” Para além de três missangas de ocre distintas, que não têm mais de 8700 anos, os investigadores também descobriram outros 136 fragmentos de mica amarela, vermelha e prateada, incluindo nas camadas mais antigas da caverna, que também podem ter sido usadas para decorar o corpo da mesma forma.

“O vermelho brilhante costumava ser a primeira cor com a qual as pessoas se queriam pintar, geralmente em conjunto com o branco”, diz Langley. “Estas cores foram encontradas desde a Caverna Blombos, na África do Sul, até à Austrália e mais além.” Parece que, quando os grupos de Homo sapiens se espalharam pelo mundo, adaptaram constantemente o seu kit de ferramentas às montanhas, ao Ártico ou à floresta tropical, mas mantiveram sempre algumas das suas cores favoritas para onde quer que fossem.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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